As vezes, parece que ainda estamos juntos


Vida gay: términos as vezes ensinam muito

As coisas com você, para mim, foram lentas, imprevistas, suaves. Começo, meio e fim e as emoções foram se construindo pouco a pouco até aquele capítulo no qual você quis conversar (risos). E posso falar por mim somente pois, no final, é o olhar de cada um que vai dar formas e cores para a mesma história. No meu ponto de vista, não existe aquele que tem razão ou que sabe dos “fatos reais”. Há versões e há olhares sobre o mesmo objeto: um namoro.

A minha parte segue de referência para os seres-vivos-pensantes do Minha Vida Gay.

Com você eu tive a oportunidade de exercer um pouco mais dessa coisa de tudo fluir tanto, sem pensar, sem analisar e sem ser “o Flávio de antigamente, atento aos detalhes e demandas de um namorado”. Ser assim para mim foi bom e é importante. É emancipatório.

Foi uma permissão em cima de momentos pessoais que você não sabe em detalhes, basicamente porque você não se sentia bem de eu dividir contigo.

Tem algo a ver com canalizar uma energia de paz na relação. De olhar para você, na ocasião como meu namorado, e não ter que me sobrecarregar porque você não dava conta de suas demandas. Namoro, para mim, não tem que ser um posso de lamentação e energias mal trabalhadas de um segundo. De vez em quando este é o papel, mas sempre isso, sempre esta intensidade ou profundeza, não corresponde a maneira que eu sou hoje.

Eu fui. Foram anos neste “tipão” e quis sair dele.

Mas ao mesmo tempo em que eu digo isso, um dos motivos que fez eu optar pelo término de namoro foi a intensidade e uma profundidade de um jeito que era muito diferente do meu. Enquanto eu deixava as sensações e as vontades fluírem, você de alguma maneira foi construindo os canais, a profundidade dos trechos e os contornos a sua maneira. Quando me dei conta, no último dia juntos, eu estava “inundado”. Afogamento, inundação, prisão. Todas essas palavras, simbolicamente, traduzem minha sensação.

Lembra, logo no começo, a intensidade que foi? “Sexo selvagem”, suas críticas sobre mim, suas críticas sobre a maneira que eu lidava com meu cachorro e seu urro com ele. Chocante! Lembra?

Bendita e maldita memória que eu tenho: você pode ter esquecido, mas eu lembro como no dia 1o. de janeiro de 2017, na comemoração de ano novo – que na verdade era para eu passar de boa sozinho, como eu tinha me programado, mas você quis fazer companhia – você bebeu um pouco de vinho e, de repente, lançou uma série de julgamentos sobre mim sendo que, sobre mim ou sobre nós, pouco tínhamos falado em 3 meses de relacionamento. Foi um surto. Quase surreal.

“Você é materialista”;

“Você se acha”;

“Eu não entendo porque você está comigo”

E estes foram seus surtos que temperaram – aqui e ali – a nossa relação até o dia em que você me mandou mensagem – “Flávio, precisamos conversar” – e eu fui até a sua casa meio com “cara de interrogação”, uns 6 meses depois do começo do namoro. Aí fui conversar, você disse mais algumas vezes que eu era a pessoa que mais te irritava na vida, teceu algumas críticas, lançou hipóteses sobre nossas diferenças e eu te perguntei os motivos e você não soube responder com objetividade. Perguntei de novo e você dizia: “não adianta insistir. Eu não vou saber responder”.

Eu perguntei se você queria terminar e você (também) não soube responder. Cabeça baixa, silêncio e braços cruzados.

Eu perguntei se você queria um tempo e você não sabia se acreditava em tempo.

Eu perguntei se você queria um tempo para pensar. Você abaixou o olhar e chacoalhou sutilmente a cabeça dizendo que sim.

Daí eu te dei esse tempo que durou pouco e, até estes 6 meses, eu estava leve e tranquilo com a nossa relação. Gostava da dinâmica de nos ver umas três vezes por semana – de você dormir em casa – e a gente se via com frequência mas – distantes – falávamos pouco, o que estava lindo. Continuo achando lindo não ter que dar “bom dia, boa tarde, boa noite e o resumo do dia ao final do dia”. Obrigado por ter sido assim.

Mas depois da sua crise, de não ficar claro o que você queria, eu mudei. Eu entendi aquela conversa – que nem foi conversa pois você não disse nada-com-nada no final – que eu precisava me jogar mais na relação. Foi uma conclusão pessoal. E me joguei, respeitando nossas dinâmicas, mas passamos a nos ver mais frequentemente. Eu entrei, você entrou e, depois que retomamos, eu tentei suas respostas com mais objetividade. Daí você disse assim: “você é a melhor pessoa”. Ou, “você é a melhor pessoa que eu conheci na vida. Não sei porque eu tenho achado essas coisas”.

E seus surtos pararam depois que voltamos. Ou melhor, amenizaram (risos). Dois meses seguintes, quando você virou as costas e foi embora de casa na primeira vez que eu trouxe alguma demanda entre nós, pediu desculpas e veio justificar e se acertar do disparate dizendo que sentia que eu gostava muito mais de você do que você de mim. E que tinha medo que eu terminasse com você por causa disso.

What?!

Foi a primeira vez que alguém, num relacionamento, para justificar um “fugir da situação porque não bancou”, resolveu trazer essa argumentação para mim: “você gosta de mim mais do que eu de você”.

E eu precisava dessa medida estranha? Não sei. Só sei que naquela noite de acerto, além deste discurso, resolvemos que a gente levaria a relação a frente. Porque, de fato, sua colocação me pareceu uma viagem-astro-lunática-de-um-pisciano! (risos).

***

A real é que, sobre nós, em 11 meses pouco conversamos sobre as nossas intimidades e eu te coloquei essa ideia nas últimas mensagens trocadas. Eu sei de muitas técnicas sobre veterinária e situações com pacientes e proprietários. Mas é isso: sua profissão é você e vice-versa. Não te parece interessante que duas pessoas, que entraram em uma relação super intensa de dormir junto 5 vezes por semana, pouco sabem das respectivas vidas? Você sabe com o quê eu trabalho? Sabe o que a minha empresa faz? Lembra o nome da minha sobrinha? Sabe o que me magoou no passado? Entende os por quês de eu seguir com o Minha Vida Gay? Sabe porque me tornei a exata pessoa que sou hoje?

É tão curioso fazer este balanço e ver que, por algum motivo, entramos numa vibe ou conexão fora dos padrões, fora de uma sequência natural de fatos quando duas pessoas estão se conhecendo. Deve ter sido essa tal da química que as pessoas dizem por aí porque, se fosse para raciocinar ou entender de maneira lógica, não daria certo.

Nos tornamos íntimos de um jeito muito diferente. Pelo menos para mim.

E este jeito, diferente, tem reverberado ainda em mim porque é lento, anestésico e impregnado, imprevisto, quase que um líquido percorrendo por dentro e por fora de mim.

Eu sinto tim-tim-por-tim-tim de todos os comportamentos, hábitos e limitações que me fizeram sentir transbordado, sufocado, naufragado e afogado (você viu eu estourando como ariano, boom!) E mesmo assim, gotas de você pingam no meu jardim (risos).

Sim, a vida está andando, as coisas estão acontecendo e o ano está acabando. Você vai fazer aquela sua viagem/congresso e estar feliz por ir sozinho ou com amigos, sozinho ou com amigos, sozinho ou com amigos… nunca ficou claro se a felicidade era por ir sozinho ou com amigos. Porque, talvez, você seja essa natural indefinição que leve muito mais tempo para definir. Homem-Mulher. Ying-Yang. O peixe que vai, o peixe que volta. E assim, em diversas situações e contextos sutis você falava uma coisa mas agia o contrário e vice-versa. Esquentava e esfriava. Uma temperança.

É, talvez, um homem como eu não seria capaz de compartilhar desta inconstância. Talvez por eu ser homem e você estar lidando com este fato mais intimamente pela primeira vez. Ploft.

O tempo, que é um elemento mágico entre as pessoas, está fazendo a sua parte. O luto tem passado por suas fases: já fiquei triste, já me senti livre, já fiquei com raiva, já estive sereno. Está vindo em ciclos com a naturalidade que cabe ao luto. Mas não é interessante pensar que, ao contrário de outras minhas vezes e embora a gente já tenha assumido o término e que tudo está acontecendo e que estamos distantes – sem nos falar há quase um mês – e que a vida tem passado, as vezes parece que eu ainda estou com você?

Por que, as vezes, parece que eu ainda estou contigo?

Não, não… não estou sofrendo. Não, não estou surtando ou tampouco me sinto preso, depressivo ou excessivamente melancólico. Aliás, não tenho medo por estar com essa sensação. Muitos caras (gays ou heterossexuais, até mesmo mulheres) talvez nem entendam direito o que estou dizendo. Podem até tecer pensamentos para me ridicularizar ou medir a minha ingenuidade. Enfim, tanto faz.

“E este jeito, diferente, tem reverberado ainda em mim porque é lento, anestésico e impregnado, imprevisto, quase que um líquido percorrendo por dentro e por fora de mim” – respeito, aceito e honro cada sentimento, cada passagem.

Já fiquei triste, já me senti livre, já fiquei com raiva, já estive sereno. Está vindo em ciclos com a naturalidade que cabe ao luto. Não é fácil, mas está longe de ser ruim. É a permissão em uma profundidade que, talvez, eu tenha aprendido com você. Ou você tenha ajudado a eu liberar em mim.

Plim!

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