Fora de órbita ou de outra dimensão


Reversão sexual ou regressão intelectual? Não existe homossexualismo.

Acho cada vez mais importante dividir a ideia de “gay” da ideia de “homossexual”.  O primeiro, sim, subentende condições políticas e de expressão social. Exemplo 1: quando um indivíduo se assume gay ao seu entorno (amigos, pessoas no trabalho, família e parentes), além de traduzir a terceiros a ideia de que o desejo sexual e interesse afetivo é por homens, ele está exercendo igualmente uma função social e política de levar o conhecimento sobre a sua orientação a um conglomerado (cultural e social) cuja “regra de modos e costumes majoritários” é determinada por pessoas heterossexuais. Existe uma representação – mínima ou discreta, que seja – de orientação ou mudança de percepção sobre a homossexualidade daqueles que desconhecem ou conhecem muito pouco do que é o convívio prático com homossexuais. No momento em que um indivíduo sabe, por exemplo, que eu sou gay, tende a rever o que é mito e o que é fato, o que é rótulo, preconceito, entre outros. Isso é uma ação política e social seja ela com objetivo declarado ou, simplesmente, um convívio despretensioso. Comigo foi assim, durante os anos, com as pessoas mais próximas e nem tão próximas assim.

Quantas vezes eu tive que elucidar para o meu entorno a “brincadeira” de “ser ativo ou passivo” ou ter que narrar e mostrar fotos das pessoas as quais já me relacionei? Taí um “clichê educativo”. Em outras palavras, a cada um que assumimos, temos a possibilidade de tornar mais habitual e próxima a ideia da homossexualidade, a quebra de mitos e de estereótipos. Vale o reforço: é um movimento inclusivo, político e social, mesmo que o propósito de fato ou imediato não seja esse. Mesmo que o interesse seja, apenas, o mero convívio ou a intensificação da intimidade entre as partes.

Exemplo 2: em dezenas de situações com meus ex-namorados que não eram assumidos para “suas pessoas” (oito dos meus nove relacionamentos habitavam em algum nível seus respectivos armários quando os conheci), a minha influência determinada muito mais pela minha desenvoltura e segurança por ser gay, motivou ex-namorados a darem alguns pequenos passos (ou muitos) e assumirem-se a suas pessoas. Vi ex-namorados trazendo para fora essa realidade para um amigo (que seja) ou para a “tropa inteira” (pais, irmãos, tios, primos, amigos, colegas de trabalho, etc.). E, na minha experiência, que tropa! (RISOS). Em meses eu fazia parte de um conjunto familiar de convívio frequente com mais de 60 pessoas. Todos, até onde se sabe, heterossexuais, a exceção do meu ex e de mim.

Assim, assumimos. Gays: com ou sem propósito, uma influência política e social perante este grupo de 60 pessoas.

Lembrando que a palavra “assumir”, quando não a si, subentende segundos ou terceiros. Subentende algum tipo de exposição, de levar para o ambiente e de colocar para fora. O assumir a si, normalmente, é o passo primordial. Depois, em tempos diferentes, assumir para terceiros quando não com objetivo e propósito (conscientemente) político, é algo natural. E, convenhamos, é determinante para a construção social de um indivíduo.

Aqui está elucidado a ideia de “ser gay”, novamente.

***

Já o segundo, o homossexual, termo que também me caracteriza, abarca um “degradê” de variações sem fim. Em outras palavras, todo homossexual é gay? Não, mas todo gay é homossexual. Homossexualidade diz respeito (em nível semântico) a atração por outro indivíduo do mesmo sexo. Ponto.

A realidade é que há níveis de homossexualidade e, consequentemente, níveis de desejo de um homem por outro homem ou de uma mulher por outra mulher. Estou falando puramente de desejo e atração (seja sexual e/ou afetiva) e não de postura político-social. Nestes termos biológicos (a sexualidade é biológica) com pitadas e colorações aqui e ali de fatores psicológicos, o tesão, palavra que expressa bem o sentido deste conteúdo, não pode ser revertido a não ser que por meios de repressão. E mesmo assim…

A afetividade, é verdade, é um sentimento que não se relaciona ao gênero. Podemos, culturalmente, fazer uma “onda” de machões na linha da “brodagem” e dissimular posturas afetivas entre homens. Mas é totalmente natural, independentemente do sexo ou do gênero, pessoas desenvolverem afetividade umas as outras.

É histórico, lugar comum para uma maioria e determinante pelas antigas e atuais escolas da psicologia, que qualquer sentimento ou desejo reprimido em um indivíduo retorne (dito “retorno do reprimido”), seja de maneira direta ou de formas aleatórias, incluindo pesadelos, insônia, doenças (psicossomáticas) e etc. Ou seja, não se troca prazeres como se troca de roupa.

O Minha Vida Gay jamais falaria em reversão. Mas ao mesmo tempo em que algumas pessoas se encontram e se realizam como gays, da manifestação social e política, outros preferirão continuar mais homossexuais do que gays, mesmo sendo gays. Acontece apenas – e deveria ser simples as vistas da maioria – que a sexualidade humana não se define apenas em “preto no branco”, “sim ou não”, “gay ou heterossexual”, dando naturalmente luz para um onipotente “talvez”. Essa é a real da sexualidade e não é a questão da cura ou não cura, de ser heterossexual ou ser gay, de certo ou errado, do Cristão ou do sem-religião, entre outras bipolaridades que vão amadurecer a percepção e a discussão deste tema.

Sabia que existe gay que vai demorar mais de 50 anos para se estabelecer como tal? Porque se você só transa ou tem algumas relações afetivas com outro do mesmo sexo, você é “apenas” homossexual. Veja o cartunista Laerte Coutinho que, durante 60 anos da vida transitou entre homens e mulheres em sua bissexualidade, hoje se entende como transgênero e prefere se relacionar com mulheres. Qual é o remédio ou política de cura gay para este caso?

Não precisaria nem citar um caso tão marcante assim e posso afirmar que do meu convívio próximo, conheci duas pessoas, nos últimos dois anos, que no meu ponto de vista são gays mas que, em vias de fato são “apenas” homossexuais pois ninguém ou quase ninguém sabe da homossexualidade de ambos. Beiram os 30 anos, são sexualmente atraídos por outro do mesmo sexo e desenvolvem algum nível afetivo pelos mesmos. Mas não conseguiram (e talvez nem queiram) trazer esta realidade para pessoas próximas por inúmeros motivos, de fato, clássicos: medo de decepcionar os pais, medo de enfrentar a influência da religiosidade em família, medo de ofuscar ou comprometer algum status social ou profissional, medo de rejeição. Medo.

Seriam eles os pratos cheios e saborosos para esta política da “cura gay”? Se eu fosse um destes pregadores, estaria sedento por rapazes como estes.

O Lucas mesmo, do post recente, “Primeira pessoa”: vejam só, o conheço há 4 anos e sei que seu trânsito entre heterossexualidade e homossexualidade vai tomando contornos lentamente, a conta-gotas, durante todo este tempo. Ele tem hoje 25 anos. Sexta passada, foi a primeira vez que ele se permitiu sair comigo (traduz-se “sair comigo” em “se expor ao lado de um homem que ele possui algum vínculo afetivo-sexual”), a um lugar público e gay firendly. Ele tratou a ideia dizendo que “queria dar uma despirocada”, enquanto tal saída – para mim – foi tão default como comer arroz e feijão.

Detalhe de seu discurso: “meus amigos mais chegados estão todos fora de São Paulo. Não sofro risco”. É evidente que o encontro dele é interior e eu, apenas um condutor seguro (amigo), para este movimento que é particular. É deste perfil que a política da cura gay quer se alimentar? Que tipo de contorcionismo ele deve sofrer para estar “curado”? Qual é a “pílula” que deve tomar?

Seriam essas as pessoas que – em alguma medida – representam milhões de outros humanos com algum nível de desejo homossexual, passíveis de tornarem-se “ex-gays”, por intermédio da aplicação de uma “cura”, num processo de “reversão sexual”? Não existe fábrica de heterossexuais, embora Hitler quisesse criar super-heterossexuais em seu tempo e lançar para covas aqueles que não fizessem parte do perfil.

A simbologia atual é a mesma. Tudo isso não passa de um movimento político, em um contexto de tempo e espaço de incertezas muito real e oportuno, meus queridos leitores. Fiquem seguros que, se o mundo e o país estivessem em tempos melhores (ou prósperos), não estaríamos vivendo uma sensação de regressão intelectual digna de debates mais quentes, daqueles tipicamente políticos, de precisar se prender a crenças e ficções (ou se repelir) e que em alguma medida cria catástrofes, bandidos e heróis. O ser humano, em geral, borra nas calças quando o clima não parece nada bom e apela ao maniqueísmo. O ser humano tende a brincar de “tudo ou nada” quando o barco parece estar naufragando. Nada mais do que isso.

Porque preocupação real com a felicidade e equilíbrio daqueles que têm desejos homossexuais, quem impõe a cura, não sabe nem por onde começar.

Se você fala homossexualismo, atente-se: está comentendo um erro. O contexto é bom para, no mínimo, falar direito e trocar homossexualismo por homossexualidade.

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