Perfeição


Casal perfeito, exemplo para a família e parentes.

Sabe o que é bastante comum entre homens gays? Terem feito ou fazerem parte de um “casal perfeito” – heterossexual – para a família, parentes e amigos, enquanto não resolvidos como homossexuais (ou gays). Este fato é bastante comum, principalmente para a cultura predominante em cidades do interior. Já ouvi falar de casos assim mais de dez vezes e, tal fenômeno, me parece bastante recorrente em território nacional.

Ressalva: não quer dizer que o “homem ideal” que oferece o relacionamento “mais exemplar” a sua mulher é sempre gay. É bom começar a leitura com este filtro.

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O indivíduo do par, no caso o rapaz, no fundo no fundo, naquele fundilho as vezes compartilhado – inclusive – com a própria mulher, tem desejos homossexuais. Talvez seja gay, talvez até lide com certa desenvoltura com esta palavra ou talvez não. Mas o fato é que ele é gentil com a namorada ou esposa. É sensível a suas demandas. Não assume aquele perfil “escroto” e rotulável, do namorado ou marido que enche demais a mulher por vestir determinadas roupas e por ter determinados comportamentos perante as outras pessoas. Não segue o padrão machista, exaustivamente marcado na cultura heteronormativa. Dá ainda autonomia, liberdade e aprenderam muito bem, juntos, a respeitarem a individualidade um do outro.

Perfeição.

Não brigam ou, se brigam, se acertam de um jeito ímpar! Vejam só que, perante o entorno, a pequena sociedade doméstica, transbordam a imagem do casal ideal porque são belos até na aparência! Equilibrados, amigos, companheiros, afeitos um ao outro e serenos. Na intimidade, até no sexo o rapaz respeita a dinâmica da moça. Não tem aquele alvoroço todo ou aquela sede de desejo a todo momento. A frequência flui de acordo como o ritmo da mulher. Não é admirável?

Muito provavelmente namoram há anos! Se não foram a primeira pessoa de suas respectivas vidas (o que dá um ar ainda mais nobre para o casal), foram uma das primeiras. Vejam só o que a sociedade define: “encontro do destino”.

Encantador.

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Alguns destes homens vão levar a frente o modelo. Casam-se, tem filhos e – em alguma medida – buscarão preencher o espaço de desejo por outro do mesmo sexo com amantes, namorados ou apenas sexo. Vão levar o discurso, um tanto heteronormativo por sinal, que “não deixam faltar nada para a família”. Já encontrei muitos destes ao lado, no balcão do bar da sauna.

Sem juízo de valor. É assim que por uma lado, resumidamente, procede.

Por outro lado, alguns destes homens, sentindo-se ainda jovens, não vão lidar bem com a ideia de construção ou prolongamento do modelo, incluindo filhos e a cartilha mais comumente disseminada. A particularidade moral não permite. Vão evitar se relacionar com mulheres, embora não neguem ficar vez ou outra e, na medida do possível, vão trazer a realidade da homossexualidade (independentemente do rótulo social, “gay”, “bi”, “indeciso”, “curioso”, “traumatizado”, etc.) para suas companheiras. Do aflorar desta realidade para o casal, brotam diversas situações, das óbvias mais tristes e infantis as mais compreensivas e maduras.

É por esse tipo de etapa na vida, de trazer a realidade homossexual para mulheres e esposas, que muitos homossexuais hoje tem passado. A ocorrência deste perfil é alta.

Ainda, num terceiro viés (que certamente não finaliza em si, dando margem para outras nuances de relacionamento) existem aqueles rapazes que namoram meninas, terminam, vivem relacionamentos homossexuais e afetivos com outros semelhantes e vão entender essa história de homossexualidade em doses homeopáticas, durante anos, meia década, uma década (…).

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Pode ser um detalhe ou não, mas é bastante claro – pelo menos nos casos que se aproximaram a mim – o quanto a mulher, para todos esses homens, assumem um arquétipo de “mãe” deles em algum nível. É este vínculo estabelecido – que subentende diversas conexões emocionais pela figura feminina projetada na companheira – que tornará o desdobramento da homossexualidade contida nestes homens mais ou menos lenta, mais ou menos fluida. O tempo, de certo, é um fator totalmente relativo e influente. Relativo também será a jornada, com idas e vindas e, raramente, acontecerá do jeito que o homem homossexual – objeto central deste post – idealiza pois no momento que há o vinculo emocional com uma mulher, os efeitos das ações e reações são compartilhados (entre você e ela).

E, obviamente, cada caso é bastante particular e vou sugerir os extremos para clarear os meios: há quem jogue tudo para o alto e atire um trauma “sem fim” na mulher. Há o extremo oposto, quando o homem-homossexual está se implodindo, atendendo as demandas do arquétipo maternal tal qual um bebê, sem condições de largar as saias da mulher.

Enquanto para alguns garotos e garotas a autopercepção e a ideia de “ser gay” se clareia logo nos primeiros anos de entendimento sobre sexo e gênero (eu, particularmente, me aceitei como gay aos 23 anos e achei tarde. Hoje, eu noto o quanto fui precoce), para muitos outros, alcançar os 28 anos, ultrapassar os 30 e ainda não haver uma segurança sobre o assunto é uma realidade.

Pelo histórico do Minha Vida Gay e de vivências pessoais, arrisco a dizer que essa discrepância de tempo para o “click” se dá pelo contexto / entorno social no qual o indivíduo nasce e se desenvolve e por características intrínsecas (fenótipo e genótipo).

Eu não “culparia” para sempre o meio ou as pessoas de convívio próximo pois – de certo – quando todos começam a ultrapassar uma certa idade, levam para si aquilo que realmente querem ou aquilo com o qual se identificam. Ou seja, criamos um juízo daquilo que acreditamos (crença, valores, fé) e daquilo que não. Daquilo que nos representa e daquilo que não e assim por diante. Assim, se um indivíduo se acha “vítima” de um modelo familiar, de uma influência radical religiosa, ele realmente será vítima destas influências.

Ao passo que, se ele sente que pode romper com o modelo familiar, abandonar o evangelho e acreditar que chegou seu tempo, ele fará, seja se afastando fisicamente da família, mudando de cidade ou levando a realidade para um debate. Ou tudo isso.

Nós, quanto mais “infantis”, menos acreditamos nestas premissas-libertadoras pois mais dependentes somos das emoções alheias (opiniões são as emoções/percepções que as pessoas têm sobre nós). Consequentemente, tendemos a ser pessoas igualmente julgadoras pois acreditamos que o julgo influencia. Quanto mais “adultos”, mais compreendemos nosso papel de autoria sobre nossos atos e consequências e menor é a influência do julgamento de um terceiro. Consequentemente, tendemos a viver uma vida mais livre do fluxo de julgamentos.

“Infantil” e “adulto” são meras classificações representativas para traduzir sentidos e maneiras de nossos comportamentos perante tudo aquilo que está a nossa frente.

“Casal perfeito” é a pura manifestação do julgamento, mesmo que formado por essa coloração positiva. E, nele, está proporcionalmente contido o céu e o inferno. A perfeição, de certo, nos cega pois nos desumaniza. Seja você um homem gay ou não. Seja o ideal de perfeição que for.

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Durante quatro anos eu e ex-Beto fomos o “casal gay perfeito” perante seus mais de 60 familiares. Pelo lado do céu, ajudamos a construir um sentido mais real e palpável do “ser gay” e do “casal gay” para indivíduos de uma base familiar conservadora e tradicional, daqueles que – até então – entendiam o gay associado a imagem dos estereótipos. Pelo lado do inferno, a família ficou tão apegada e assegurada sobre a imagem construída por nós que, se bobear, até hoje há a comparação de Flávio com qualquer outro namorado que o ex-Beto leve. Saiu um pouco do ideal vem o julgamento. Céu e inferno.

Felicidade, talvez, esteja nas imperfeições, cada vez mais livres de julgamentos.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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