Homossexual por influência


Ser gay por moda ou influência de terceiros. O que pensar a respeito?

Um Coachee entrou em contato por e-mail com uma questão interessante: “Por que no mundo moderno tem aumentado o número de pessoas homossexuais? (Uma das respostas que já adianto seria ‘não que aumentou o número, mas que está vindo mais a público devido a maior liberdade de pensamento, informação e expressão’). Mesmo assim os homossexuais ainda são minoria? Você acredita que a ‘onda’ ou cultura gay pode levar as pessoas a terem um comportamento homossexual mesmo não sendo homossexuais?”.

Achei interessante trazer o tema novamente, para sexta-feira e para o final de semana a frente. Assim, segue minha resposta abaixo direcionada ao Coachee e aos leitores do Minha Vida Gay:

“(…) Quanto a questão, acho que todos os indivíduos são heterossexuais e homossexuais. Não digo nem ‘bissexual’ pois este termo já é carregado de sentidos culturais ‘flutuantes’ de um olhar político que diz: ‘bissexualidade é processo de um gay mal resolvido’ ou ‘bissexual trai a mulher para ficar com homem’. Não consigo conviver com este viés pois já tem juízo de valor partidário.

Como o ponto de vista biológico tem chamado a minha atenção por ser aberto, abrangente e mais desprendido do julgamento humano (algo que está bem expresso no livro Sapiens, o qual já debatemos), sei que você entende.

Sexualidade é biológica com alguma influência psicológica (até onde se separa psicológico do biológico é bastante subjetivo e não teve até hoje como determinar). É a sociedade que cria suas ficções e, a partir delas, determina valores, cultura, senso moral e etc. Na natureza, o sexo entre seres do mesmo sexo é uma realidade. São minoria (mas fluente em milhares de espécies) e me parece que a natureza reprodutiva faz com que elementos de sexo oposto dominem o planeta devido a este princípio da perpetuação da espécie. Mas entendo que todos nós, humanos, podemos ter algo de homossexual em algum nível.

Perante a nossa sociedade, ainda, partimos do pressuposto que todos nós nascemos heterossexuais. Praticamente nenhuma mãe ou pai heterossexuais esperam (de maneira idealizada) que o filho nasça gay. Não faz parte de nossa cultura, ainda, este tipo de desejo.

Um heterossexual que experimente algo com outro do mesmo sexo é homossexual? Nem sempre. A não ser que a partir da experiência ele goste em alguma proporção. Esse indivíduo pode ser levado a experimentar / testar por influência de terceiros? Provavelmente sim, da mesma maneira que as pessoas são influenciadas a experimentar inúmeras coisas. A construção por influência é de natureza humana.

Porém, não consigo vislumbrar hoje um grupo adolescente composto por gays chegando a um colega heterossexual e dizendo: ‘vai lá, para de ser hétero e experimenta isso aí que você gosta!’. Este tipo de ‘bullying’ me parece ser de postura heteronormativa. Porém um jovem, com alguma mínima disposição, pode observar um casal adolescente gay na escola e se sentir inspirado a experimentar algo. E, ao experimentar, pode gostar ou não. Pode ainda gostar pouco ou muito. Pode também não gostar no começo e, depois, querer tentar de novo. Esses processos particulares são humanos!

Aliás, por que não experimentar? Os seres humanos, em sua maioria, não funcionam de tal forma para infindos setores de interesse? Nossos ancestrais basicamente copiavam uns aos outros e continuamos sendo ‘Maria-vai-com-as-outras’! O fato da gente repetir comportamentos a partir da expressão de “líderes” ou formadores de opinião, então, não é o problema já que é uma característica humana.

O problema é o jogo moral, político e social sobre a homossexualidade, dentre outros temas os quais a heteronormatividade não aprova. Por que a gente não recrimina um jovem que segue outro jovem mais assíduo nos estudos e questiona o “imitar” quando o assunto é a homossexualidade?

De qualquer forma, não dá para comparar com a influência tal qual uma moda, como comer um lanche do Burger King em promoção ou um comportamento de provação a um grupo, como fumar maconha (ou cigarro). E convenhamos que, essas provações (novamente) me parecem muito mais de uma cultura heteronormativa. É mais provável forçarem algum garoto da escola que acham ser gay a ficar/transar com uma menina, do que um episódio de novela no qual dois gays se beijem influenciar um heterossexual a experimentar. Se for experimentar, existe alguma pré-disposição, ou seja, há algo de homossexual no indivíduo.

Com a “queda” das premissas do comportamento machista, o que vem se percebendo é um homem (no geral), muito mais afável, “fofo” e delicado, pelo menos na aparência. Mas este movimento diz respeito a mudanças sobre a expressão de gênero e não que estão “brotando” mais gays. O mundo hoje precisa menos da estética do “macho-coçador-de-saco-que-cospe-no-chão” e tem priorizado um homem de aparência muito mais humanizada. Não quer dizer que um heterossexual mais humanizado “vai virar” gay.

Mesmo assim, entendo que a nossa jornada é longa (em relação ao afastamento de nosso ancestral primata) e não é porque somos gays que estamos conseguindo ser mais honestos com as nossas sensibilidades. Poder chorar, poder sentir dor e poder, depois, se recompor e seguir em frente sem ter que suprimir ou reprimir as emoções ainda é muito difícil para os homens, inclusive aos gays. Nossa natureza-primitiva competitiva, bruta, de sair a caça, inspirou o Sapiens a criar ficções culturais que nos levam ainda a sermos competitivos, de escondermos emoções, de termos dificuldade de expressar amor, mesmo sendo gays.

Podemos ser jovens de 20 a 30 anos, residentes em grandes capitais como São Paulo e ainda viver uma divergência entre a imagem social/profissional que queremos “zelar” com o fato de sermos homossexuais. Em partes, pelo medo de nos desqualificarem e nos limitarem para algum tipo de ascensão. Por outras partes, pela possibilidade de sofrermos algum tipo de rejeição afetiva. Mas como homens, a nossa natureza-primitiva nos faz zelosos pelo status/imagem nesta ficção cultural contemporânea (…)”.

Bom final de semana a todos! :)


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

2 comentários Adicione o seu

  1. Gn disse:

    Olá,
    acompanho o blog há um tempo, e gostaria muito que entrasse mais propriamente nesse campo relacional entre homens, nesse aspecto de competição e tudo mais. Não precisa ser, necessariamente, no meio gay, mas dos homens em geral.

    Bom, é só um pedido, sinta-se à vontade.

    Gosto do seu blog, é honesto.

    Até

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gn!

      Relação, competição, controle… tudo bem. Acho que são temas interessantes para serem trazidos ao MVG.

      Farei na sequência! Obrigado pela sugestão muito bem-vinda!

      Bom final de semana,
      Flávio – Life Coach MVG
      http://www.lifecoachmvg.com.br

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