Solidão ou Solitude


Vida Gay: Solitude ou Solidão

Outubro quase acabou e, a não ser em abril de 2017 – de todos anos de Blog Minha Vida Gay – por pouco não deixo também este mês sem um texto. Ando concentrado na empresa, no processo de Coaching e nas minhas próprias válvulas de escape. Muitas das práticas que liberam endorfina estão ocupando parte do meu tempo. Serei tio novamente, de meninos gêmeos idênticos (sem antecedentes por nenhuma das partes) e este fato – de serem três sobrinhos – trouxe meu irmão, minha cunhada-barriguda e minha sobrinha para bem perto de mim e dos avós paternos, meus pais. Mudança de fluxos relacionais e a ajuda a eles será inevitável.

Para quem é passante-iniciante, terminei um namoro há… uns 3 meses? A mim, com 40 anos hoje, o fim de um término de um relacionamento (o luto propriamente) se direciona para um estado emocional conquistado e bastante importante: meu eixo sozinho. De luto curtido e bem vivido, nada melhor do que encontrar dentro de mim “aquele lugar” que eu havia deixado organizado antes. E o mais bacana de tudo: este “lugar” é novo, construído há poucos anos e, provavelmente, há muito que aproveitar ainda.

Com o sentido “deste lugar” bem claro e determinado, consciente, é uma oportunidade para mim e para os leitores tratarem um pouco mais das diferenças entre a ideia de solidão e a ideia de solitude. Taí mais um post que deve se aplicar bem para gays ou heterossexuais; afinal de contas, trata-se de um tema que diz respeito ao Sapiens: o medo da solidão.

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Creio que a ideia da solidão, ao contrário da solitude, seja mais fácil de delinear para a maioria dos leitores: diz respeito a aquela angústia do final da tarde de domingo, de estar entre pessoas mas sentir um vazio, de “querer um namorado para ter companhia”, de não suportar muito a ideia de ficar sozinho em casa desconectado de redes sociais, WhatsApp, aplicativos ou da tevê. De ter que conviver com o silêncio. De não conseguir ir ao cinema sozinho; de almoçar ou jantar sozinho e “isso ser deprimente” (…). Isso são formas de lidar com a solidão que a faz mais “vilã” ou menos.

O fato é que todas essas situações nos obrigam a estar na companhia de nós mesmos. Para o ser humano, seja por uma configuração biológica herdada de ancestrais peludos e/ou por uma construção cultural durante milênios, a companhia isolada consigo pode provocar pavor. Interagir, compartilhar risadas, fofocar e se autoafirmar são atos que nos dão um sentido de preenchimento. No geral, nos fazem sentir vivos, acolhidos e afagados. A palavra “empatia” que anda em alta em sites de autoajuda ou na boca de uma nova geração que ainda não completou os 30 anos, talvez seja a tradução de algo básico, infanto-juvenil: “estou querendo a sua atenção” – dita de um jeito formal e “floreado” pelo conceito “o empata se coloca no lugar do outro, sente o que o outro sente”. E vamos combinar que é basicamente porque o outro projeta o desejo de ser compreendido.

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É possível sentir-se vivo, acolhido e afagado em um estado de solidão? Talvez este bem estar e sentido de completude aconteçam na manifestação da solitude. A solitude é um diálogo construído entre você e você. É um tipo de acerto de contas com a solidão: “você não precisa ser reativo ou arredio por achar que eu, a solidão, vá te arrancar a felicidade. Esteja realmente bem com você antes de achar que pode estar bem apenas se estiver acompanhado”.

É claro que nem todas pessoas alcançam ou querem alcançar este tipo de estado. O juízo de valor não determina aqui o que é melhor ou pior, bem ou mal. A ideia é, apenas, quebrar com os estigmas biológicos ou culturais de que – por exemplo – “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Ou que o caminho da felicidade é necessariamente o heteronormativo-cristão.

Não há dúvidas que o viés romântico acima, exemplificado em um micro trecho de “Wave” de Tom Jobim, é um tipo de tempero interessante, criado pelo homem em diversos cantos do mundo e que pode ser experimentado por todos em uma ou mais fases da vida. Dá prazer e falo isso por experiência própria. Mas talvez, com a clareza de estudos, pensamentos, processos psicológicos e da tendência evolutiva do ser humano como Sapiens, vamos entendendo que não é de romantismo que se perpetuará as sociedades ou relações intimistas. As coisas mudaram e não temos o controle. As coisas, talvez, tenham evoluído.

Em outras palavras, devemos estar cada vez mais aptos e atentos a um tipo de enfrentamento de medos (ou enfrentamento das tendências primitivas), a favor de um bem estar individual menos dependente. O romantismo, sinto em dizer, cultua a dependência. Novamente aqui, sem o juízo de valor.

Ao mesmo tempo de outra vertente, certa filosofia oriental fala há gerações da “felicidade de dentro para fora”. Enquanto espanhóis, italianos e portugueses – os latinos no geral – sempre carregaram uma cultura de que “a felicidade esta lá fora, na alma gêmea a ser encontrada, nos bens erguidos ou conquistados, no empoderamento de famílias ou grupos, na transmissão dos valores e tradição” (ou seja, em situações que raramente se está sozinho), vem de parte do outro extremo do mundo a ideia de que, enquanto um indivíduo não estabelecer consigo uma paz independente do meio, um desapego de pessoas, formas e objetos, não será feliz.

Com essas linhas – e embora não exclua o ato de interagir e socializar – solitude é um estado de felicidade e paz consigo sem a necessidade de interação humana. Em um terreno ocidental e moderno, tal qual o Brasil, ser feliz não é apenas viver de solitude, nem ter que passar por uma militância para alcançar algo assim. Não vamos desprezar nossa cultura. Mas você se permitir ficar em casa algumas horas, ausente da presença de outras pessoas fisicamente ou pelo celular, pode ser um bom treinamento.

Isso se você, talvez, quiser entender mais sobre a solitude. Nos últimos três ou quatros anos, vivendo relacionamentos muito mais curtos do que antes deste tempo, eu acabei me encontrando comigo algumas vezes. No ritmo que foi e pela naturalidade das coisas, não teve como entrar na função social, de regaste ou formação de amizades. Foi aí que tomei consciência de que antes dos 23 anos, quando eu não era assumido, passava a maior parte das minhas horas livres no “quartinho dos fundos” da casa dos meus pais, meu esconderijo de filmes, música, seriados e entretenimentos individuais, sem ninguém por perto. Eu era muito bem acompanhado por mim.

Hoje, com 40 anos, descobri – apenas – que este quartinho dos fundos é o mundo. Estar acompanhado em minhas andanças e aventuras é uma opção e, não mais, uma determinação para caracterizar a minha felicidade.

Dizem que eu não sou propriamente um empata, mas que eu acredito tanto em certo mundo “cor-de-rosa” que acabo contaminando terceiros ou quartos com essas cores. Pois bem: nós somos a maneira que acreditamos o mundo. Quem está disposto a vir comigo?


coach-de-vida-gay

Hoje, meio Coach de Vida, meio Flávio.

6 comentários Adicione o seu

  1. Eu! – Texto ótimo e reflexivo. #Teamsolitude…acabei descobrindo a minha doença (risos)

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelo entusiasmo! :)

  2. Luciano disse:

    Olá Flávio, descobrir seu blog hoje…muito bom! Me identifiquei tanto com a sua escrita que gostaria de ter um amigo tão eloquente igual a você. Abçs.

    1. minhavidagay disse:

      Aqui estou Luciano! Abraço

  3. Oi Flávio,

    Já estava sentindo falta dos seus textos. Nos últimos dias, estava entrando todos os dias aqui para ver se tinha texto novo. Fantástico essa sua visão. E eu ainda sofro muito pela angústia da solidão. Identifiquei-me com o trecho: “Mas você se permitir ficar em casa algumas horas, ausente da presença de outras pessoas fisicamente ou pelo celular, pode ser um bom treinamento”. Ausente de pessoas físicas eu até consigo ficar, mas do celular, redes sociais etc.,é bastante difícil. A tecnologia é assim: ou você a domina ou ela domina você. Já tava tentando esses exercícios alguns dias de deixar o wi-fi do celular desconectado por alguns momentos, acho que é bom investir nisso. E também o meu maior remédio é a escrita. Quando escrevo não sinto só. No momento que estou escrevendo esse comentário, estou concentrado nele e é com ele que passo esse momento. Acho que é isso passar momentos só comigo, mais nada e estar feliz, vibrando energias boas! Paz!

    1. minhavidagay disse:

      Veja só, Danilo!
      Você sabe quando está em comunhão consigo. Escreva mais e fortaleça essa relação! :)

      Paz!

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