Minha Vida Gay: o som do silêncio


2017: um ano tão desafiador quanto vitorioso

Vitórias para quem tem 40 anos costumam ser silenciosas. Pelo menos para mim, gay, oriental e homem. Não preciso de festas, nem de reunião de pessoas próximas. Ou muito menos de fazer grandes exposições e comemorações autoafirmativas nas redes sociais, algo extremamente prático, do ímpeto e ao mesmo tempo volátil ou superficial hoje em dia. Me presto a deixar alguns registros em linhas pelo Minha Vida Gay, com a subjetividade que há entre eu e os leitores, sem o excesso de exposição.

Aliás, um dos grandes incômodos alheios, daqueles que atualmente se relacionam comigo com um interesse afetivo, é que eu não conto “vantagem” das histórias do meu dia. Tampouco compartilho meus problemas naquela necessidade de preencher espaços em silêncio. Isso é o próprio problema pois é o outro lado que aparece sempre com questões! As vezes, me parece normativo o desabafar da vida nas relações e a expectativa de “empatia” do outro para com nossas demandas é bastante comum.

***

Creio que já era sabido, até mesmo aos mais desavisados, que 2017 seria um ano de muita resiliência e/ou resignação. O “chão” do país, denominado estrutura econômica, estava poroso e fragilizado, para lá da fantasia do Brasil imbatível pintado por líderes que sumiram. E, hoje, restam poucas pessoas que ainda acreditam que não dependemos de uma economia estável para seguir a frente com o social. Ou qualquer outra coisa que seja.

A sensação que tenho é que, quem plantou resiliência e resignação, colherá coisas boas para o que está por vir. Não foi um momento apropriado para plantar a soberba e, consequentemente, quem o fez colherá diferente…

Assim, para a grande maioria, 2017 foi de muita paciência e luta. De uma maneira geral, a necessidade de sair da zona de conforto e aceitar mudanças tem vindo à consciência de muita gente. Não seria diferente de mim que, desde 2015 tenho mexido aqui e ali para manter minha empresa no eixo e que, ao mesmo tempo, tenho mexido aqui e ali na vida pessoal para manter a minha tranquilidade de alma.

A moral se mantém acima de tudo. A fé, igualmente.

Meus feitos e buscas dos últimos anos permitiram que eu chegasse a 2017 bastante preparado ou mais preparado do que antes. E isso é de dentro para fora, como elucido no texto anterior: (1) a mente, numa equação de equilíbrio entre razão e emoção importante, a ponto de me desvencilhar do vício do cigarro (os entendedores sabem da representatividade disso e a relação com a mente) me oferece sustentação para lidar objetivamente com o que for; (2) o corpo, mais elegante ou torneado de quando tinha 20 e poucos anos, envolto de práticas físicas regulares e uma reeducação alimentar há mais de 4 anos, colabora diretamente com uma necessária manutenção de alta autoestima e disposição e (3) o espírito, preparado para fluir e influir como nunca antes, em todos aspectos da minha vida, por meio da intuição ou da atuação, nunca esteve tão vigoroso e perceptível.

E o que parece um despejo de arrogância e ego é, na realidade, uma referência de que – mesmo diante as mudanças mais abruptas e indesejadas e dos desafios ou “combates” queridos ou inapropriados – somos capazes de perseverar e vencer. O blog Minha Vida Gay tem servido para este tipo de inspiração há anos. Ou para despertar a dor de cotovelo, há anos também…

Já passei por diversos momentos nos quais “perder era ganhar”, principalmente em situações em que os velhos e simbólicos sete pecados capitais (numa quantidade maior de três deles propriamente) se fizeram valer em excesso em minhas práticas. Mas este foi um ano em que “vencer foi vencer”. De uma literalidade ímpar. Literalidade que, a bem da verdade, não fui eu quem precisava provar. Como disse no primeiro parágrafo, prefiro as vitórias sutis. Necessidade de vitórias extremas sugere um maniqueísmo que eu desgosto. Ou uma loucura das bads, na real. Pecado capital.

2017, que poderia ser triste, depressivo ou obscuro, caso eu “perdesse” certos confrontos, preenche-se de Luz e um sentido proporcional e direto a vitória, cujas evidências levariam laudas de texto para explicar. Aqui, deixo os resultados emocionais apenas. Como eu disse, a minha moral não saiu do lugar e isso é o mais importante.

Não bastasse o contexto econômico, comum a todos, houveram as nuances: o namoro com uma pessoa que eu sentia que era para a vida – na intenção de longos anos – acabou. Fiz o melhor, desejei o melhor e sei que – se dependesse de mim – iria para muito além, do crescer junto, do enfrenter tudo e mais um pouco na base da parceria. Mas não deu.

As problemáticas intensas e quase que “de filme”, da vida do meu braço direito na empresa, vazaram na própria e tive que praticar “contorcionismos” para tudo continuar nos trilhos, ajudando-o a dividir – pacientemente – o joio do trigo. Estive ao lado, para o afago e o apoio e, mais do que isso, para a “porrada do acorda”. Melhor do que pescar pelos outros é ensinar a pescar. Nem que para isso, fisgue o dedo e inflame. Foi assim comigo, foi assim com todos os gestores de projetos e não seria diferente com ele, um amigo que conheço há mais de uma década e que estava há 8 meses desempregado.

E por fim, mas não menos representativo, enfrentamentos inesperados e inapropridados vieram até a mim, de pessoas que (notoriamente) abri caminhos e portas em um passado recente, me desafiando mais um pouco e colocando em conteste a crença de que tenho no ser humano. Vieram numa “manada” ou numa versão tupiniquim de máfia, como se a quantidade sobrepujasse a qualidade dos fatos. Como se o caráter pudesse ser vencido por um tipo de força do “amor parental”.

Porém, nada disso – nada – tirou de mim a certeza da minha boa fé diante os desafios e pessoas que estão ou estiveram no meu entorno, nem a minha essência particular de acreditar no mundo “cor-de-rosa”; do ser positivo. Nestes embates, impostos, talvez terceiros ou quartos tenham saído acreditando mais no cinza, achando o mundo mais injusto, presos numa onipotência por continuar acreditando que tinham razão e que são detentores da “verdade”.

E sei que, quando determinados jogos relacionais continuam, numa insistência de provação de quem “é o lado certo ou é o lado bom”, o tombo maior não será meu neste caso, não porque sou um privilegiado perante a sociedade, não porque sou “o certo ou o bom” a todo momento, ou qualquer fantasia que possa justificar a minha silenciosa “vitória”. Mas porque… bem, porque neste caso, não sou eu que devo elucidar. Caiu na chuva há de se molhar o quanto quiser se molhar! Há de se tomar a responsabilidade como nunca antes se for preciso, há de se cair na boca de terceiros como é normal – entre humanos tendenciosos e falíveis que somos – e há de se cumprir o julgo que não será o meu na verdade.

Chuvisco ou tempestade, estarei lá se ocorrer um novo convite.

Há uma diferença tênue embora determinamente entre ser jovem querendo brincar de adulto e ser adulto, sendo adulto. A vida é feita de escolhas e entre ser bom e bonzinho, há anos prefiro o primeiro. E prefiro também, com 40 anos, a vitória em silêncio, solitário. E prefiro também as loucuras que me libertam. As que aprisionam servem para aqueles que se montam de adversários para causas egoístas. Uma pena fazer parte de um maniqueísmo sem acreditar no poder do mesmo. Mas, uma vez na arena… “eu não nasci para perder”.

“Meu anjo da guarda me avisou, no dia em que eu recebi o primeiro convite: será sua luta contra três ‘caídos’. Não se preocupe. Mesmo. Sua vitória já está escrita”
– para quem acredita, veio em sonho, nítido de som e imagem antevendo toda essa história.

2017 foi desafiador e vitorioso. Mas não gasto mais tempo para ficar contando essas vantagens para terceiros ou quartos que obviamente me encherão de moral. Então, eis um texto geral no Minha Vida Gay, para íntimos desconhecidos ou para aqueles que se furtarem a ler e, em alguma medida, tomaram partido nessas histórias.

Partidos, partidos, partidos… um erro na relação íntima entre pessoas. Nunca haverá um vencedor realmente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s