O homem controlador


Essa necessidade constante do controle

Quem acompanha o Minha Vida Gay deve ter notado que a minha jornada neste ano foi muito menos material (dinheiro, consumo, realização de desejos sexuais, etc.) e muito mais filosófico e espiritual. Por um lado, “da carne”, a maioria das minhas práticas foram repetições e, sendo repetições, assumem um aspecto mais normativo, rotineiro. Pelo mesmo lado, é inevitável que a redução hormonal aos 40 anos coloca um homem gay como eu a buscar e priorizar outros aspectos da vida.

Bom saber que eu não sou tão movido assim por hormônios e que a coisa anda por outros estímulos!

Por outro lado, do aspecto emocional e sentimental, meus últimos três relacionamentos – de 2015 para cá – foram muito positivos, ou pelo menos é assim que eu tendo a deixar na balança.

Com o Rafinha, brotou uma amizade há quase 3 anos. Final de semana passado e o próximo, estou numa “função” de ajudá-lo na mudança, da saída da casa de sua mãe em São Bernardo do Campo e a consolidação de seu ninho (ou motel, como já insinuei algumas vezes – rs) no seu bairro adorado: a Liberdade. Ele tem me “pagado” com comida japonesa e perpetuado um dos melhores hábitos entre nós como (ex) casal e, agora, como amigos íntimos: comer e comer muito bem! Brincou por esses dias que sou seu “marido de aluguel” e gostei da ideia, desde que bem alimentado. Engordamos um tanto na época do namoro.

Depois do Rafinha, veio o Beto. Tenho contatos mais esporádicos e uma sensação de que ele se esquiva de uma maior frequência de encontros, mas foi com ele que pude vivenciar uma paixão adolescente vulcânica. Com 39 anos! Perceber que toda aquela volúpia de arrancar meus pés do chão poderiam residir em mim ainda, me encheu de um sentido adolescente e vívido. Foi lindo, como fogos de artifício e foi muito mais fantasioso, como convém a paixão.

E o Rafa, do meu último relacionamento, me ajudou a redescobrir a sensação de querer viver junto por longos anos, da ideia de uma relação pela construção. Embora tenha sido rápido, apenas 11 meses, foi a vibe de nosso namoro que abriu intenções para interseccionar amizades e até família. Sem a obrigatoriedade da intersecção, mas uma sensação de que “se rolasse, seria bacana”. Fazia tempo que eu não tinha interesse nestes assuntos, de crescer junto como fiz em outras histórias.

Não menos importante, foi com o Rafa que novas luzes direcionadas à espiritualidade se acenderam. Conscientização e clareza que se revelam no post anterior e em outros anteriores também.

Gays e a ideia de controle

E foi por essas experiências e outras também que eu convivi (seja como agente ou receptor) com a necessidade que o homem tem do controle quando estabelece um relacionamento. Não me refiro particularmente ao homem gay, ciente que a intenção do domínio (dominação, dominante) é algo bastante comum entre heterossexuais também.

Não consigo visualizar com clareza tais características entre as mulheres, salvas raras exceções. Mas vem à tona com facilidade – em lembranças nas situações vivenciadas em meus relacionamentos – quando este sentido de controle se manifestou de formas diferentes.

Primeiro, é bom dizer que controle é diferente do ciúme. Controle é a necessidade que o homem tem de deter as rédeas das situações, fazer as regras do jogo e jogar somente quando o controlador tem vontade ou quando as regras estão sendo devidamente cumpridas.

Segundo que, a forma, na vida real, não precisa ser como em novelas, dramas ou suspenses. Não precisa ser agressiva, com o dedo em riste, pau na mão e fechaduras supervisionadas. Pode vir em conta-gotas, de maneira sutil, em uma conversa sedutora na mesa do McDonald’s, em carícias depois da transa.

Terceiro que, para o controlador exercer a função, fatalmente espera-se o complemento: alguém que – por um motivo ou outro – permita “entrar neste jogo”.

Primeiro, segundo, terceiro e parece que o controlador é um vilão. Mas não é bem assim. Não creio na cultura do maniqueísmo, embora as vezes somos obrigados a entrar – em casos raros há a obrigação – quando uma das partes acredita, e por isso levanto sempre a bola de que se existe um lado aparentemente controlador, há também aquele que – por um, dois, três ou muitos motivos – se deixa levar. Normalmente depositamos a “culpa” na paixão, aquela que nos cega. Ou carência ou a falta de experiência. Mas não é nenhuma delas e, sim, nós mesmos, controladores e controlados.

Há alguns meses, eu acreditava piamente na “nova onda”, dos indivíduos inteiros que se davam a oportunidade de caminharem juntos em um relacionamento, cada um construindo sua individualidade, somando e multiplicando quando juntos. Tal conceito, que é bastante atual, joga contra a ideia da “tampa e panela”, da “metade da laranja”, o que me levava a crer na extinção desta segunda ideia, coisa antiga, que foi perdendo forma a partir dos anos 70.

Mas hoje revi este valor e o que existe é uma coexistência: indivíduos que, sim, visam prioritariamente a construção da individualidade para o sentido de, juntos, somar e multiplicar e indivíduos que buscarão o aconchego na cultura da “tampa e panela”. E tudo vai dar certo, dependendo dos propósitos e interesses de cada um. Tudo terá prós e contras. Posso sugerir que aqueles que precisam exercer a energia do controle tendem a buscar por relações da metade complementar. Há segurança no imaginário do controle e há segurança na fantasia de “alguém que cuida de mim”.

Como um holofote poderoso, muito próximo a mim, brilhou essa consciência por meio de um casal e, como conclusão, percebi: “eles dão certo assim!”. Pelo menos hoje. Se posso nomear, são relações meio desorganizadas, repletas de micro-chantagens emocionais, existe uma maior tendência à procrastinação (as coisas se desenrolam com vagar), conferindo uma impressão aparente de quem está no comando e quem está sendo comandado mas que, nas entrelinhas, implica em negociações íntimas aquém a aparência. Um alimenta o “gênio ruim” do outro, mas nessa equação há o equilíbrio! Fantástico!

Fantástico a mim que, por convicções e propósitos, venho trabalhando há anos para uma autonomia mental, emocional, material e espiritual, crente que dois indivíduos inteiros juntos formam os melhores dos mundos! E continuo firme com a ideia pois, embora ame tal casal-referência, o cotidiano desorganizado, com micro-chantagens emocionais, de tendência à procrastinação e da aparência de quem manda, chega a me dar urticária.

Aparentemente, eles parecem dormir tranquilos todos os dias. Que bom.

Confesso que, pessoalmente, desvio, fujo, esquivo a qualquer sinal deste elemento, o controle, diante um radar cujo banco de dados tem um acúmulo de 17 anos de informações indexadas, equivalente a 10 namoros. Alguém poderia dizer: “ah, te peguei! Você está traumatizado!”. Se fosse a minha terapeuta constatando, eu poderia até acreditar.

Não é bem por aí. Com 40 anos e um banco de dados de 17 anos, eu – simplesmente – sei bem o que eu quero e o que não. A manifestação de controle, cultural ou biológica, é uma realidade e sou, apenas, um daqueles que se importa e vai pensar o que fazer com isso quando precisar.

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