GDaddy: Sugar Daddy e Sugar Boy


GDaddy: um “novo” aplicativo para relacionamento entre gays, Sugar Daddy e Sugar Boy.

Grindr, Hornet, Scruff e Tinder – conhecidos aplicativos de relacionamentos para o público gay – por mais que tentem novas funções, vão caindo no modo “sem graça”, pelo menos para quem carrega no bolso tais recursos há 3 ou 4 anos. Naturalmente, os usuários vão modulando comportamentos e hábitos nestes meios e, quando a gente menos espera, cai na rotina, cansa e passa a perder a aura da novidade. Claro que há os viciados, os habitués que são, no final, a minoria. Agora que o “manda nude” é um apelo, talvez a coisa tenha ficada mais chata para alguns.

Costumamos estar em todos ou pelo menos em dois e, ao mesmo tempo, incorporamos a cultura de cada um deles. Resumidamente, no Grindr é possível notar um comportamento mais bruto, instintivo, do sexo. Sugere uma praticidade nos encontros e, até não muito tempo, era onde os “gostosos sem cabeça” mais se concentravam. Sugere também que lá, pelo Grindr, se reúnem os mais “machos”, título conferido por eles próprios. O Grindr, talvez, “inspire” mais masculinidade e brutalidade no meio gay.

O Hornet foi incorporando recursos baseados nas principais redes sociais. É notável hábitos mais adolescentes, das selfies que atraem curtidas e das curtidas que atraem as selfies. Há um clima mais juvenil, inclusive no design e nas cores, e um alto investimento em parcerias fora da telinha, vinculando usuários a descontos em eventos e baladas destinados ao público gay.

Tinder, dizem, é onde as pessoas se cruzam para “algo mais sério”, como se não estivéssemos nos demais aplicativos assumindo os comportamentos convenientes a cada uma dessas interfaces. Alguns mais, outro menos, costumamos a fazer uma linha de “bom moços” no Tinder.

Tais apps já são manjados para uma maioria, a partir dos 16 anos. Ou pelo menos para aqueles homossexuais que não se reprimem nem temem por expor pelo menos uma fatia da própria imagem. Distante do julgamento moral ou ético, a tecnologia hoje provê uma agilidade para trazer recursos novos e, ao mesmo tempo, a mesma velocidade faz com o que o novo perca a graça rapidamente. Para alguém que nasceu no final da década de 70, como eu, 4 anos de vida para um aplicativo não deveria ser nada e poderia preservar uma aura de novidade. Mas, hoje, 4 anos pode representar algo totalmente envelhecido.

E é neste contexto de sociedade – banhada pela velocidade da informação e tecnologia – que vou comentar sobre um novo aplicativo de relacionamento para gays, o GDaddy. Quem comentou foi meu ex, o Rafinha. Curioso, fui espiar o funcionamento.

O GDaddy (“G” de gay, provavelmente) é um quinto, sexto ou sétimo aplicativo de relacionamento orientado ao homem gay. Traz a promessa de unir um “Sugar Daddy” com um “Sugar Boy” e declara abertamente a existência de homens que, inicialmente, bancam a vida de gays mais novos e gays mais jovens que buscam por homens com algum tipo de estrutura material (e emocional?) para poder prove-los. A troca se estabelece por sexo e companhia.

Sugar Daddy e Sugar Boy

Seja no universo hétero ou gay, tais conceitos de Sugar Daddy e Sugar Boy estão estabelecidos entre as pessoas fora das telinhas dos aplicativos há bastante tempo. Susana Vieira e Marília Gabriela poderiam comentar. Mas vamos falar apenas do contexto homossexual: é bastante comum encontrar homens gays, executivos, diretores ou outros fora do ambiente corporativo (mas que já estejam com a vida mediamente estabilizada), relacionando-se com gays mais jovens com algum atrativo físico. Enquanto o Sugar Daddy oferece a estabilidade financeira materializada em favores, presentes, viagens e certo status, o Sugar Boy confere a seu Daddy a atenção e sexo. Essa é a ideia primordial desse tipo de relação, ou melhor, é assim que inicialmente se explica.

Mas é claro que este contexto pode ultrapassar o materialismo envolvido (seja dos presentes ou da objetificação do mais novo). É possível falar em amor e afeto? Provavelmente sim, em alguns casos mais específicos.

O fato é que o GDaddy (dentro outros existentes com o mesmo propósito) acaba por ter um papel de sacramentar, normatizar e facilitar este tipo de relação. Me cadastrei no app e, se o assunto é recurso, assume uma mistura entre Tinder e Hornet. O usuário pode arrastar para a esquerda os perfis descartáveis e, para a direita, os de interesse, vislumbrando o match. Há um limite para ficar “brincando” com esse álbum de figurinhas.

Timelines visíveis dos últimos posts de usuários e a possibilidade de curtir os perfis de interesse assumem um jeitão de Hornet. Algo que me pareceu diferente, é que usuários do mundo inteiro conseguem enxergar facilmente seu perfil sem a necessidade de uma busca muito específica (talvez ainda pelo número reduzido de usuários?) o que favorece contatos estrangeiros. Saber escrever em inglês acaba ampliando os contatos.

Mas o mais interessante é a abordagem das pessoas. Me cadastrei como Sugar Daddy e não demorou muito tempo para surgirem os primeiros contatos, os Sugar Boys. Alguns são mais sutis e discretos na abordagem materialista, em busca da benevolência de “maduros” já estabelecidos financeiramente. Da ideia, aparentemente regular, de construir a vida a dois, sem o interesse prioritário em sustento financeiro, mas um apoio moral e emocional. Outros já expõem objetivamente em seus perfis e no bate-papo o interesse claro voltado aos atributos materiais. Alguns dos boys falam de companhia e viagens pelo mundo. Outros, de fazer compras em shopping todos os meses ou fazer uma faculdade.

Novamente, a par dos valores morais e éticos, é notável que muitos gays (que um dia foram casados ou não com mulheres) seguem, as vezes, por uma vida solitária a contragosto. Distantes da cartilha heteronormativa (basicamente do casamento – filhos – netos – aposentadoria), muitos de nós, na faixa dos 35 anos, não sabemos muito bem como nos posicionar socialmente. Baladas e coleguismos começam a perder o sentido. A amizade de todas as horas talvez não nos proporcione o nível de afetividade almejado. Acumulamos um punhado de relacionamentos traumáticos ou nos tornamos mais preguiçosos para entrar na função de encontrar alguém que nos encante. Vamos acumulando certa estabilidade devido ao trabalho, mas não temos com quem compartilhar.

GDaddy pode ser uma opção? Talvez.

A novidade é que aplicativos com estes propósitos atestam formalmente a existência de “pais e filhos” em busca de algum tipo de felicidade e troca. E isto é um fenômeno mundial que me parece, a princípio, ter independência das bolhas sociais de nosso país.

Aquele caso advindo da fofoca, do amigo do fulano que assume um perfil Sugar Daddy mas que não se viu pessoalmente até então, deixa de ser um mero vislumbre da imaginação, um achismo ou um mito e passa a se tornar realidade. GDaddy é a normatização deste comportamento. Doces pais e doces filhos que, talvez, em vias de fato, contenham menos açúcar do que se gostaria. Se a ideia é a praticidade, quem sabe?

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