Xangô: 2018, o começo

Minha Vida Gay também conta essas ludicidades

Maria Inês é a senhora que eu conheço há mais de uma década – a encontro pelo menos uma vez ao ano – e trabalha com esoterismo e terapias holísticas. Ela é cria da religião africana e sãos os Orixás seus principais guias para quando é recorrida para oferecer aconselhamentos. A trouxe em casa depois de sete anos para fazer uma limpeza e, junto, ela faria a leitura dos búzios para meu novo ano que, de fato, se inicia no final de março de 2018, quando completarei 41 anos.

Mãezinha veio com os detalhes sugeridos pelos Orixás sobre os assuntos básicos: trabalho, dinheiro, saúde, campo afetivo e família. Depois do geralzão para 2018 que, segundo ela, é o melhor momento da minha vida que está por vir (e de fato, nunca tinha a visto se expressar de tal maneira), eu entrei em pontos mais específicos.

Comecei logo questionando um lance que ocorreu na véspera da virada de ano – de possível interesse aos leitores do Minha Vida Gay – e que se desenrolou nos primeiros dias do novo ano: “meu reecontro com o Rafa, me ex, teve alguma influência espiritual?”.

***

Quem acompanha o MVG pode ter notado a fluência energética que se desenrolou em 2017 na minha vida, sobre o Universo presente, um sentido de Equilíbrio e Justiça que o próprio Universo parece estabelecer em meio a todos nós; desprendidos dos valores e signos criados pelos homens. Cada vez mais acredito menos em coincidências. Tampouco acredito no destino sacramentado. O que me parece haver é uma conexão entre todos nós por intermédio do que alguma religião ou filosofia pode chamar de Universo. Com algumas pessoas teremos conexões mais abertas e fluidas, mas estamos todos conectados. E foi namorando com o Rafa que fui tomando mais consciência de uma ligação diferenciada, neste sentido, a qual eu poderia nomear de energia.

***

– Meu reencontro com o Rafa teve alguma influência espiritual? Porque achei muita “coincidência” o Tango – meu cachorro – ficar muito doente às 22h do dia 30 de dezembro e a primeira pessoa que eu poderia recorrer era ele, que é veterinário de um hospital 24h perto de casa.

Maria Inês jogou os búzios e disse:

– É… foi a Justiça. Xangô que aparece aqui representa a Justiça e foi ele quem ajudou a conduzir esse reencontro por intermédio do seu cachorrinho.

– Justiça… Xangô tem andado bastante presente na minha vida nos últimos tempos, né?

– É filho… o Universo está sempre buscando o equilíbrio das coisas, você sabe, né? Vocês estão com a conexão aberta ainda e o Universo usou seu cachorrinho para reaproximar vocês.

Justiça. Eu me sentia meio injustiçado por, durante 11 meses de namoro, eu ter que parar na rua ao lado do hospital, ou para deixá-lo ou para pegá-lo, já que ele tinha vergonha ou bloqueio de eu deixá-lo na frente ou esperá-lo na recepção.

Não só entrei naquela casa, como conheci alguns de seus colegas durante o tratamento e só fui reencontrá-lo realmente na terceira visita, quando rolou um papo assim por WhatsApp:

– Ei, boa noite! Ele comeu bem, não vomitou e só fez um cocô fedido que só por Deos! Ahahahah… o mais fedido da história que catingou a casa inteira rs… você quer que eu leve para uma olhada final? Você me diz… ah, um dos cocôs estava levemente mole – ter cães há anos, ter amigos veterinários e um ex da área nos coloca em diagnósticos com estes detalhamentos.

– Boa noite! Se ele estiver bem não precisa. Mas se você achar que ele não tá bem pode levar. E eu aproveito e mato a saudade dele hahahahah.

– Tá! Ele tá bem, mas eu levo pra você matar a saudade e dar uma olhada geral. Chego aí umas 23h30 – meu ex é plantonista do hospital.

– Tá ok.

Então a ideia era o Rafa matar a saudade do Tango. De consciência, eu sabia que não precisaria mais levá-lo, mas fiz pois, enquanto ele matava a saudade do meu cão, eu mataria a saudade dele.

Fico de férias até hoje e tenho que agradecer ao Universo por ter tido tempo de sobra para cuidar do meu filhote. Foi praticamente uma semana de atenção.

Chegando lá, o trato não foi de um cachorro que ia ao veterinário. Ele patinou na casa inteira, brincou com os funcionários, estagiários e o Rafa pôde matar suas saudades com os apertos conhecidos. Ele tem alergia a cães de pêlos curtos e disse ter até tomado antialérgico para a situação. Tango é grande, musculoso e dócil, daqueles que dá para esmagar sem partir em pedaços.

Ficamos por lá uns 40 minutos, eu e Rafa trocamos breves assuntos sobre a vida e, no final, ele fez sua vez de veterinário. Passou uma receita para uma leve otite e disse assim:

– Se você não melhorar em três dias, volta aqui.

Não pude perder a confusão nas palavras e respondi com meu humor conhecido:

– Ah sim… eu vou superar.

Imediatamente ele ficou da cor de um tomate. Em 11 meses de namoro eu não tinha visto ele daquele jeito e cheguei até a virar o rosto por alguns segundos para deixá-lo mais a vontade. Não esperava aquela reação – ele comentou depois que também não – e todo aquele sentimento de timidez, por mais subjetivo que fosse, me deixou confortável. Ninguém estava assumindo tipo nenhum naquele momento, ou se estava, caiu por terra. Confesso que horas antes de levar meu cachorro, eu havia pedido ao Universo algo simples: “não precisamos de camadas. Que os verdadeiros sentimentos e as verdadeiras intensões fluam naturalmente”.

Assim, uma das primeiras pessoas que vi em 2018 foi meu ex-namorado. Xangô provavelmente mexeu seus pauzinhos. Não posso negar que a energia da Justiça (faço questão de escrever com o “J” em maiúsculo) esteve ao meu lado, de um jeito diferenciado, o ano inteiro de 2017. Uma “força maior” (e provavelmente final; Xangô me reservava esse último serviço) deu um empurrãozinho para que eu retomasse contato com o Rafa e assim o fiz. Nessas horas, é tão inerente uma energia que põe de lado o passado, o orgulho ou qualquer sentimento mal resolvido que pudesse não cair bem. Mas acho desnecessário entrar nestes detalhes. Basta o leitor tentar se colocar no meu lugar. Ou no dele.

Meu ano de 2018 se iniciou com essas histórias. Algo de começos ou recomeços. Assim como foi reencontrar no Brasil meu ex-sócio de férias por aqui, que acabou de se tornar meu cliente lá no Japão. Algo como falar com o Rafa no finalzinho de dezembro e reencontrá-lo pessoalmente no comecinho de janeiro para “tratos caninos”.

Para que ter o controle, quando nossas particulares e mais profundas intenções conduzem nossas vidas por intermédio de uma conexão direta com o Universo? Podemos confundir a nós mesmos ou aos outros, maquiando sentimentos e intenções por meio de nossas camadas ou por um desejo humano de controle. Mas o Universo, ah, meus queridos leitores… este realmente capta tudo, seja com a ajuda de interlocutores como Xangô, Exu ou Oxalá, ou seja por meio de qualquer outro signo ou símbolo que lhe conforte por acreditar.

Aceitar este descontrole me parece bom, o que não quer dizer fácil. Bom e difícil, nessa coisa humana de precisar dar formas e nomes para que outras pessoas possam se referenciar.

É de desejo que a essência deste texto reverbere.

Lindo 2018! :)

Deixe uma resposta