Quem conta um conto: Minha Vida Gay


O Minha Vida Gay, MVG, faz 7 anos em 2018.

Um piscar de olhos. E eu que tinha 33 anos quando comecei a contar histórias e relatos pessoais e trazer reflexões sobre a vida gay, fito esta tela de alta resolução e me impressiono: 7 anos de blog! Este é o tempo que tenho acumulado, numa relação com um público específico de homossexuais que se presta a ler “textões sem fotos”. Mais de 1 milhão de visitantes e mais de 1,9 milhões de leituras. Quase dois textos por usuário.

7 é um número valioso, poderoso e positivo em diversas esferas. Este post é pré-comemorativo pois, o aniversário mesmo é em maio.

O que eu poderia trazer de relevante por aqui? Agora que sou Coach, fico cheio de dedos para escolher temas para não me expor demais e não quebrar com a seriedade do serviço. Mas sou ousado, então será de conteúdo pessoal. Memórias e presente. Mas não será sobre a “minha vida gay” e hoje eu mudaria o nome do Blog apenas para – sei lá – “minha vida”. Ou “MVG”. Faz anos que não tem mais sentido me estratificar como gay ou me referir a assuntos exclusivamente a pessoas gays, se é que algum dia realmente teve sentido. Teve, se é que vocês me entendem. Há quem goste, há quem não.

Assim, o “teor gay” flui na subjetividade do olhar de cada leitor.

Quem fui eu aos 33 anos.

Olhar para si e conseguir enxergar-se foi e é um dos propósitos da minha vida. Está até configurado no meu mapa astral: um desejo intenso e constante pela busca do autoconhecimento. Com sessões de terapia há mais de uma década, Coach e um compulsivo blogueiro que alcançará a marca de mil posts escritos este ano, talvez eu tenha atributos suficientes para arriscar tais traduções. Talvez… depende mais da sua impressão do que o meu ego gostaria.

Aos 33 anos eu namorava o Bruno, cujo nick utilizado por aqui fora Beto (e ex-Beto). [Atenção, são dois Brunos (Betos) diferentes!] Eu tinha acabado de comprar minha casa, o momento da minha empresa antecedia um de seus auges e eu estava vivendo as benesses – junto com meu namorado – de ser um casal querido por todos: pais, irmãos, tios, primos e amigos, de ambos os lados. A gente era tão bem visto (e aceito) que inclusive meu pai – que levou uma década para se conformar com a minha homossexualidade – teve a iniciativa de convidá-lo para seu aniversário. Fomos apenas Bruno, eu, minha mãe e meu pai no restaurante japonês preferido deles. Foi leve e me afastou um pouco mais da ideia diferenciada de ser gay.

Aos 33 anos eu ainda tinha muito de um menino de 23. Era o comportamento e a mentalidade, embora as horas de vôo como empresário – a época com 10 anos de experiência acumulada – me atribuísse outras visões. Mas pessoalmente eu ainda me sentia conectado as diversas demandas, expectativas e pontecialidades de quem ainda tinha 23 anos.

Meu namoro com o Bruno durou 4 anos e foi daqueles encontros de crescimento mútuo: enquanto eu o ensinava a empreender, ele me ensinava a rever determinados rigores, principalmente aqueles relacionados à viagens de longa distância (rs). Curioso: até então, meu tesão era pegar o carro e percorrer estrada a fora. Ele veio com a ideia de usar mais avião. Patagonia Argentina até o fim do mundo, Chile, Buenos Aires, Nova Iorque. Mais de uma vez em alguns destes pontos. E assim eu aprendi a voar.

Crescemos bastante juntos. Eu sei exatamente o que significa uma relação na qual ambas pessoas se positivam e uma transforma suas potencialidades em realidades a partir do estímulo do outro. Prestem atenção: uma transforma suas pontecialidades em realidades a partir do estímulo do outro. Parceria, amizade e companheirismo. A troca era bastante de igual para igual. Manter a amizade e sermos hoje parceiros de trabalho seria uma recorrência natural. A não ser que caíssemos na história de orgulho ferido ou na cultura de “ex bom é ex morto”.

Naquela época ainda eu ia bastante a baladas, bebia muito, batizava a privada e não tinha parcimônia para degustar outros aditivos quando pintassem. Enquanto nos divertíamos muito em diversos âmbitos – de festinha de família à Lôca – sabíamos também passar horas deitados na cama vendo filmes. Quer dizer, Bruno conseguia esta façanha e eu sempre preferia bater perna, rever amigos, estar na rua. Mas ele conseguia me segurar, a sua maneira, gentilmente manipuladora. :)

Bruno se assumiu gay para toda família durante nosso namoro (fui seu primeiro namorado) e eu tive a ousadia, muitíssimo bêbado, de “preparar” seu pai para a realidade de seu filho na primeira conversa que tivemos! Registro memorável no meu currículo que, na fluência dos fatos que se seguiram, Bruno não sabia se me louvava ou se me matava. Formas loucas as minhas, mas de intenções essenciais libertadoras!

Enfrentei barras fortíssimas com o Nikolas, ex-amigo de Bruno. Conheci o “Nike” na D-Edge, daquele jeito bêbado e intenso de trocar olhares devoradores e sair beijando sem perguntar o nome. Ficamos algumas poucas vezes, Nikolas começou a namorar com um rapaz, Nikolas era amigo de Bruno e, assim, conheci Bruno. Mas para Nikolas não caiu bem “eu e Bruno” em determinado momento de sua vida e as gay entraram todas em DR. Com 30 e poucos eu encarava bem ainda essas bagunças, ou melhor, lidava com essas situações como alguém de 20 e poucos anos, ou seja, sem muito jeito para lidar.

Mais estrelhinhas para meu currículo.

***

Antes de Bruno, com os nomes reais agora, teve Luiz (um namoro 2 anos), Daniel (1 ano e meio), Diego (um casamento de 3 anos) e Renato (um ano e meio). Depois de Bruno teve André (8 meses), Rafinha (8 meses), Bruno (6 meses) e Rafa (11 meses).

Vamos fazer as contas: 9 relações. Eu, namorador, cujo julgamento alheio pode sugerir “galinha”, “puta” e “vadia” ou, simplesmente, namorador. Fora as ficadas e transas furtivas em fases de solteirice. Nem saberia contabilizar…

***

AB e DB.

Vou tomar como marco meu relacionamento com o Bruno, por ter sido o mais duradouro e por coexistir com a transição de alguém que se sentia com 20 e poucos anos para alguém diferente disso. De começo, é curioso perceber que DB meus relacionamentos foram muito mais curtos do que AB. Volto a devanear mais sobre este tema a frente.

Com 33 anos eu ainda percebia o mundo como alguém de 20 e poucos anos, como disse. Com 37, eu já me sentia com 40. Assim, minha passagem real para alguém que eu poderia olhar para o espelho e dizer “pronto, você não é mais um menino. Você já acumulou maturidade suficiente para entrar em bagunças ou desafios e organizar a casa com o mínimo de perdas, arrependimentos ou cagadas”, durou 4 anos. Porque em linhas gerais se tornar adulto é isso: (1) bagunças, merdas e desafios sempre vão pintar, (2) a maneira, forma ou jeito de lidar com elas é que nos define [mais adultos ou mais infantis] e (3) determinadas merdas ou bagunças a gente aprende a evitar!

Fui naturalmente fechando a banquinha de me expor demais em merdas e bagunças. Fui aprendendo a entrar em determinados assuntos com namorados para que tais contextos não virassem grandes DRs ou joguinhos de ego. Fui trocando cerveja e destilados por vinho. Fui deixando o carro para viagens para pegar mais avião (rs). Fui aprendendo a guardar mais dinheiro. Fui entendendo melhor a relação entre colegas e amigos. Fui deixando de conviver com os colegas e mantendo a relação com amigos. Fui deixando de fazer academia por estética e muito mais pela saúde. Fui aprendendo a não mais namorar por namorar, embora eu tenha muita sorte pelas lições e aprendizados que todas minhas relações trouxeram. Como dizia e penso assim hoje, eu sou o indivíduo que me tornei graças (também) a todas as pessoas que entraram (e sairam) da minha vida (porque a gente aprende demais também com as saídas). Fui aprendendo a lidar melhor com o material, o emocional e, talvez o mais importante, o espiritual.

Fui aprendendo a bancar os mais variados problemas sozinho sem procrastinar demais. Sem ser “filho” para meus namorados, sem ser filho para meus próprios pais.

Aos 41 anos

Diante destas transições e metamorfoses, aprendi que a vida pode ser difícil. Mas ela também pode ser fácil. Que ela pode ser boa e ruim ao mesmo tempo. Que ela é uma eterna gangorra e a gente pode até achar que tem controle sobre situações ou pessoas. Aprendi que se a gente tentar ser (ou ser naturalmente) mais positivo, ter uma fé (ou mais de uma), largar da intenção do controle e acreditar no ser humano (apesar de todos os pesares) a gente tende a ser mais feliz.

O autoconhecimento traz uma lição muito importante (dentre tantas) para quem busca: não temos controle de quase nada, mas se reconhecermos nossas intenções essenciais, desprendidas de nossas camadas de ego, medos, superficialidades ou traumas, a vida (ou o Universo, é tudo uma questão de nomeclatura) nos conduzirá bem. Olhar para dentro e se reconhecer pode ser duro, difícil, uma jornada bastante solitária (solidão, aquela bandida que todo mundo tem medo). Mudar, sem achar que o outro tem que mudar para satisfazer as nossas vontades ou loucuras, talvez seja ainda mais difícil.

Mas o resultado é nos tornar pessoas maiores.

***

Saindo do papo chato de adulto ou filosófico demais (rs), fiquei de escrever das minhas relações DB, que duraram menos. André (8 meses), Rafinha (8 meses), Bruno (6 meses) e Rafa (11 meses). Mas o post está de bom tamanho e este assunto, então, eu deixo para uma outra oportunidade. =P

O que posso adiantar é que amei todos eles de um jeito diferente. Mas tive uma conexão com o Rafa para além do que já vivi nestes anos. Assim, posso afirmar também, com quase 41 anos, que duração de relacionamento não determina as descobertas, ganhos e qualidades. :)

Viver é um enorme fluido de subjetividades. Aceitar isso, potencialmente, pode também nos fazer mais felizes.

3 comentários Adicione o seu

  1. Gostei muito do seu blog, e aprendi lendo vc. Sou um assinante novato, mas sempre que posso eu passo horas lendo o que já rolou. Me inspirei em vc e comecei a escrever textos mais confessionais no meu blog, porque eu acredito que a nossas vivências e progressos podem ajudar a evoluir outras mentes e corações.

    Viva a revolução e feliz 2018! Saúde e vida, a nós e nossos sites!

    Um beijo no coração,
    Diego.

    1. minhavidagay disse:

      Muito obrigado pela gentileza, Diego! Acredito bastante nessa ajuda por meio de relatos reais. Pelo menos funciona como referência a quem procura.

      Um lindo ano e que os caminhos de 2018 estejam abertos para todos nós!

      Beijo,
      Flávio

  2. Ângelo Frederico Diniz Moura disse:

    Eitxa!!! Tbm tenho uma conexão fora do normal com um Raphael. Não sei o que é, mas sei q aos 43 anos de idade, após amar muitos outros homens, cada um a sua maneira, meu Raphael mexeu muito comigo. Esta vida de gostar de homens é interessante: sofremos, mas por serem dois homens a relação é fantástica! Não consigo entender, mas amar um homem é, de longe, a mais deliciosa e empolgante sensação. Digo isto porque já amei uma mulher na vida… Enfim, se pudesse escolher hj sobre minha preferência em termos de amor e sexo, sem sombra de dúvidas, optaria por continuar a me ligar emocionalmente a outros homens…

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