Aos 40 anos: uma nova forma de me relacionar

Quem conta um conto: Minha Vida Gay

No post anterior comecei a narrar alguns trechos de como era a minha vida aos 33 anos, quando iniciei o Blog Minha Vida Gay e passei a perceber com mais consciência que eu não era mais um “jovem gay” e sim um adulto, muito além do estrato da minha homossexualidade.

Aqui está a continuação.

Conheci meu ex-namorado Bruno em 2009. O namoro aconteceu no final deste mesmo ano e seguiu até 2013. Ele foi o cara que acompanhou minhas mudanças, daquele meninão de 32, prestes a fazer 33, para alguém que virou “gente grande”. Ou pelo menos passou a se sentir diferente.

Depois de nosso término, passei de 8 meses a 1 ano revendo e fazendo o balanço de (quase) 4 anos de relacionamento (3 anos e 11 meses, na realidade), com uma característica tão peculiar (heteronormativa?) de ter familiares e parentes tão influentes. De tudo aquilo que a gente havia crescido juntos, uma parte eu levaria comigo e, outra, eu queria um tempo por um bom tempo.

Pela influência da relação, por experiências gerais da vida, terapia e por tudo de novo que estava fluindo dentro de mim, eu saí do namoro com o Bruno com uma sensação de autossuficiência e alta autoestima, provavelmente, nunca antes vivenciadas. Já não era mais um “meninão gay” que saia de um namoro carente para curar a dor com um novo amor, ou algo parecido com isso. Eu estava vivendo um momento de uma sensação nova de independência emocional.

Já havia acumulado também uma experiência relacional com o Luiz, Daniel, Diego e Renato. O mínimo era florescer certas certezas sobre a importância de um relacionamento, manifestadas por meio de ações e reações que não levassem a crises e desgastes energéticos desnecessários em um namoro. Evitar certas cagadas, como mencionei no post anterior. Em outras palavras, optei pela leveza e me coloquei a proposta de – da minha parte – ser mais suave, fugir dos “dramalhões”, evitar a projeção de muitas expectativas, não querer controlar demais e nem deixar-se ser controlado e – acima de tudo – não alimentar o gênio ruim das pessoas, passando a entender que amar não é fazer todas as vontades, tampouco entrar em pequenas chantagens emocionais que provocassem inseguranças em mim para que o outro tivesse segurança. Ser eu e, ao mesmo tempo, aceitar o outro como é. Pé no chão, sem fantasias. Pé no chão, sem me perder da minha individualidade.

Acontece que, depois de tantos relacionamentos + a chegada dos atributos de alguém com 40 anos, o filtro é outro. Não se trata de arrogância ou ego inflado. É que a gente evita ao máximo entrar em questões e debates que podem gerar ruídos na relação. A gente não busca provocar ciúme ou entrar em joguinhos de ciúme. A gente evita projetar as chateações, irritações e desgastes do dia no parceiro. A gente lida com mais neutralidade ou imparcialidade os desabafos ou surtos alheios. A gente percebe quando o outro quer assumir certo controle e sabe sair com certa elegância. A gente evita que alguma insegurança pessoal se manifeste em algum ato mais controlador. A gente entende que, as vezes, é maior (maior mesmo e não melhor) ser leal do que ser fiel. A gente fica mais aberto para falar sobre todos os assuntos, mas não responde da maneira que o outro quer ouvir e, sim, da maneira que a gente acredita. A gente evita ao máximo entrar em debates de quem tem razão. A gente evita entrar em situações de competição. A gente não fica entrando em neuras porque o outro pensa diferente da gente. A gente aprende a enxergar mais o outro como ele é do que como se gostaria. A gente olha para o outro e diz “vai sim cuidar da sua individualidade”. A gente aprende a dizer não e ter mais jeito com as coisas.

Deixamos de colocar o outro como um objeto idealizado. Humanizamos até mesmo o mais belo dos príncipes.

Aprendemos, na prática, a dar uma vazão mais ampla ao sentido de companheirismo e respeito. Consequentemente, a gente adquire um radar mais apurado quando a falta de companheirismo e o desrespeito se manifestam.

Aprendemos, também, a identificar quais são os nossos excessos pessoais e, na medida humana possível, poupamos os outros de nossos exageros.

Relacionamento é um lugar para cultivar a tranquilidade, a amizade e a equivalência de concessões. Foi isso que percebi como importância na transição para os meus 40 anos. E percebi que dá trabalho. Quando a gente não tem experiência ou está arriscando para ter alguma, a gente acha um atalho: se a pessoa depender da gente é a garantia de sucesso! Uma “louca” teoria de que se o outro gostar mais estamos feitos. E a dependência, por exemplo, não quer dizer mandar mensagens 5 vezes ao dia. A dependência é fazer o outro entrar no nosso esquema de vida e achar que, assim, ela gosta da gente. Que temos certas garantias. Uma comodidade que maquia as nossas próprias inseguranças pois, conseguir também entrar no esquema de vida alheio, é o que caracteriza um relacionamento.

Hoje, com consciência, percebo que depois do Bruno, os meus príncipes que vieram conheceram um Flávio bastante diferente. Um cara que se envolveria com o mínimo de dependência emocional e o máximo da ideia de fazer da relação um lugar de paz e tranquilidade. Uma leveza de companhia e que evitaria, com certeza, entrar em discussões desnecessárias ou situações enroladas. Um cara que, no acumular das experiências e com o passar do tempo descobriu o prazer de se namorar!

Atingir essa sensação de emancipação emocional, física e espiritual tem prós e contras. Como comento por aí, em nenhum aspecto tudo é um mar-de-rosas. É questão de escolha.

O principal pró é conviver com a sensação bastante constante do “ego que se basta consigo, que não precisa praticar muitos desabafos, reclamações da vida e partilhar tristezas, dificuldades ou tensões”. Em alguma medida, simbolicamente, a gente aprende a se autorregenerar. Aprende a se bancar.

O principal contra (e que ainda lido constantemente) é que – numa situação em que André, Rafinha, Bruno e Rafa tinham suas demandas e questões para trazer, desabafar e as vezes, sem querer, projetar – eles sempre pareciam os “inconformados com algum caso pessoal” e essa sensação de ser o “reclamão” da história, com o passar do tempo, é bastante incômoda. Parece que na maioria do tempo um lado sempre está mais vulnerável e o outro está sempre bem ou controlado.

André vivia desabafando as dificuldades com a mãe, avó e a irmã, por exemplo. Rafinha, sobre seu trabalho e um inconformismo muito grande sobre a diferença entre determinadas ideologias que tínhamos, como se fosse inconcebível eu pensar de tal modo. Bruno vivia na “sofrência” por ter pais excessivamente controladores e Rafa virou o maior crítico/julgador do meu modo de ser, tinha surtos-piscianos de braveza e costumava dizer com ênfase que eu o irritava, mas nunca conseguiu me explicar exatamente os motivos para que eu tentasse compreendê-lo. Piscianos (rs).

Claro que na retrospectiva eu olho com bom humor, sempre, mas em algum lugar da cartilha da vida a gente aprendeu que relacionamento serve (também) para ficar descontando ou projetando excessos, tensões ou frustrações pessoais, enquanto – por exemplo – expomos o melhor da gente nas redes sociais.

Talvez, este desnivelamento de comportamento entre eu e meus ex – cada relação com suas sutilezas e nuances – tem sido o principal motivo das minhas relações hoje serem mais curtas. Curtas, embora proveitosas.

Não busco me relacionar com um “Buda”, mas penso que talvez seja cultural a ideia de que, na relação, a gente tenha que ser full-time-empático em relação as durezas da vida alheia e/ou 99,9% de acordo com determinados critérios ou expectativas de compreensão e atenção. Começam as críticas e julgamentos e, invariavelmente, críticas são cobranças enrustidas.

No meu caso, cada vez mais entendo que os ônus e bônus vibram dos mesmos lugares. De todo modo, com quase 41 anos, sigo em frente e vou continuar com a sensação de que tenho hoje, do namorar-simples.

Namorar-simples. Com 41 anos, se é para ser, há de ser simples. As responsabilidades da vida, do trabalho, já nos cobram demais para que em nosso “ninho” tenha mais treta.

Não me contento com a ideia de que os gays são complicados, esta generalização. É bem provável que o ser humano, como um todo, seja. Enquanto isso, encontrei na solteirice o prazer da solitude, embora – em alguma medida – eu sempre esteja acompanhado.

Enquanto isso, eu me namorar é uma prática que a cada dia me confere mais boas experiências. Gostaria que todos soubessem, na real, o que é isso. O próximo post vem no formato de Coach e o tema será “Se namorar”.

Até.

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