Feliz sozinho: o prazer de se namorar

Você que é gay, ou heterossexual, já teve a experiência de poder sentir o prazer de se namorar?

Este texto é o terceiro, sequencial aos dois anteriores neste caso.

Creio que a felicidade no status solteiro e saber se namorar, sejam consequências diretas aos anos de relacionamentos em sequência, do jeito que contei – em resumo – nos dois posts anteriores. Talvez eu não me desse credibilidade para falar do tema “feliz sozinho: o prazer de se namorar” se eu não tivesse vivido os relacionamentos que vivi e as experiências que adquiri em meus namoros.

É com está primeira reflexão e referencial ao leitor que começo o post de hoje.

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Se namorar tem muito a ver com encontrar o próprio eixo com certa independência, conseguir conviver consigo sem os subterfúgios que nos conectem a um mundo ilusório, redes sociais ou tevê ligada por exemplo. É importante se ouvir.

Se namorar é conseguir encontrar as atividades específicas que ocupem nosso tempo e nos livrem de pensamentos fantasiosos, preocupações do dia seguinte ou lembranças de situações que não vão mais voltar. Assim, se namorar tem muito a ver com viver a cada minuto presente, deixando passado e futuro nos lugares que lhes cabem. As vezes, a gente acha que sim, mas não precisamos de terceiros para nos encontrar no “aqui e agora”.

O prazer em se namorar tem a ver com o preenchimento de nosso tempo livre com aquilo que realmente nos identificamos para nos bastar: leituras, viagens, cinema, seriados, exercícios físicos, um hobbie como cozinhar, caminhar, escrever, tocar um instrumento, praticar ioga, cuidar de um animal de estimação ou andar de bicicleta. A princípio, para encontrar o prazer da própria companhia, subentende-se não estar na companhia de ninguém.

Se namorar pode exigir certo esforço, de abdicar de manias, maus hábitos e costumes tóxicos, como ficar muito preocupado a respeito da opinião alheia sobre tudo ou quase tudo, por exemplo. Ou ficar de antena ligada na vida alheia. Quando você tem muito interesse na vida do outro, esquece de desenvolver um interesse por si, esquece de olhar para si.

Precisar sempre de alguém para ajudar a tomar certas decisões, das mais simples como onde comer até as mais desafiadoras como trocar de emprego, talvez, possa te afastar do ato de se namorar. Somos humanos e, as vezes, a opinião de terceiros cai como uma armadilha: diante nossas dúvidas antes de agir, pedimos a opinião alheia que, normalmente, tende a oferecer de bom grado; a ajuda de um amigo de confiança por exemplo. Daí resolvemos confiar na opinião, tal qual um “empurrãozinho”. Mas se o resultado não é o esperado – se vem a frustração – vamos sem querer (ou querendo) achar fantasiosamente que o outro, que nos influenciou, foi responsável também pela frustração.

O contrário pode ser igualmente resultado deste mau hábito: expomos o problema para alguém de confiança, ela dá sua opinião e resolvemos fazer o oposto. Acaba por não dar certo e a pessoa entra no velho e irritante discurso do “Eu te avisei. Eu te disse”. Ou ainda, o conselho cai como uma luva e a gente se irrita pelo fato do outro estar certo.

Normalmente estes maus hábitos tem relação com a necessidade de confrontar razões e certezas com outras pessoas. Quando a gente, de fato, precisa apenas encontrar nossas próprias certezas, pertinentes para situações de cada momento.

Para se namorar é importante perceber que o movimento é “de dentro para fora”. Temos que abdicar de nossos “vilões” com certo esforço, controlar o mal de achar que o ambiente, os pais, algum amigo ou a sociedade são os culpados principais por algo que não está funcionando da maneira correta com a gente, como se realmente existisse um jeito certo para as engrenagens da humanidade rodar. Para se namorar, antes de cobrar a empatia alheia, é necessário exercitar a própria perante os outros. Lembrando que essa cobrança de empatia, este nome bonito que está em alta, nada mais é do que a necessidade de ser compreendido. Dificilmente o outro irá compreender um indivíduo quando ele próprio não consegue se entender.

É necessário também se descolar mais deste conceito de “culpas e culpados” e, para isso, o começo é identificar as suas e tentar livrar-se delas. Controlar nosso ego e evitar crises, debates e discussões justamente com as pessoas que mais nos apóiam, tende a nos aproximar de um amor próprio. Não nos expomos por besteiras e evitamos o julgamento alheio. Julgamento pode ser um veneno e não deixa de ser um artifício “vampiresco” que alimenta o que é negativo nas relações.

Se namorar não quer dizer um isolamento social, mas quando se estiver só conseguir estar bem.

Se namorar é, acima de tudo, estar realizado com a sua própria companhia. Você se sente protegido e seguro consigo. Não precisa de vozes ou movimentos vindos da televisão, não precisa do movimento com o dedo – de baixo para cima – no celular, não precisa de alguma companhia para almoçar, jantar, ir ao cinema, a um show, teatro ou qualquer outro espaço público.

Se namorar é poder se conceder pequenos agrados todos os dias, daquelas coisas simples, como mandar uma mensagem para quem existe afeição, andar nu pela própria casa, ver um episódio de um seriado, jogar um pouco de videogame, cochilar por 10 minutos após o almoço, tomar um banho de chuva, escrever algumas linhas de pensamentos no papel, fazer uma caminhada, cozinhar ou comer algo que se gosta, passar um perfume, fazer uma limpeza de pele, brincar com seu gato, tomar uma taça de vinho ou abrir uma lata de cerveja, vestir uma roupa de seu agrado ou qualquer outra coisa, desde que se esteja fazendo para si, sem esperar algum tipo de reação alheia, sem esperar pela aprovação do outro.

Como gays, a cartilha heteronormativa de conhecer alguém, namorar, casar, montar um casa, ter filhos e um cão no quintal não funciona para uma boa parte. Ao mesmo tempo, na sociedade líquida atual, das relações voláteis, buscar por um equilíbrio sozinho me parece se fazer necessário. E ainda, mesmo com todas as aberturas e desenvolturas que o gay encontra hoje nas grandes capitais, muitos homens não se encontram em um único relacionamento. Me parece que as desculpas para não namorar a si, não viver de solitude e não estar bem sozinho acabam se exaurindo. Não há de ser regra, mas há de estar feliz, com a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo sem alguém certo para declarar namoro.

Se namorar vai fazer bem até o momento em que virar desculpa para não namorar. Aí, talvez, já tenha virado zona de conforto. Se namorar não tem que ser a resposta para não namorar. Pelo contrário: normalmente quando estamos enamorados consigo é que chamamos mais a atenção! O que fortalece outra ideia: se namorar e estar namorando são ações independentes e, ainda, podem naturalmente seguir juntas.

Assim, se você anda falando demais “estou tão bem sozinho, para quê namorado?”, saiba que normalmente a gente autoafirma aquilo que nos falta. :)

Sigamos humanos com as nossas contradições.


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Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

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