Dream Boat


Quero dar certo na vida

A medida que vou desbravando os anos da minha vida, as dúvidas e demandas relacionados aos temas gay, homossexual, sair do armário, relacionamentos homoafetivos, desejo sexual, encarar ou não os próprios desejos íntimos, entre outros que envolvem nossas vivências, vão saindo de meu radar, embora dimensões como retratadas no filme/documentário “Dream Boat” que está no Netflix, são realidades para gays acima dos 40, 50 ou 60 anos.

Digo dimensões porque, a cultura gay, tão arraigada (ou problematizada) na vida de seres como nós, tem feito cada vez menos parte dos meus interesses íntimos, embora façam parte da vida de tantos outros. E como sei que não sou único – nem em caráter de superioriedade, tampouco de achar solitária esta minha dimensão – dá pra dizer que muitos gays não navegam pelas ondas de “Dream Boat”. E está tudo bem. Só não pode achar que é só de um jeito, que é uma realidade única e qualquer coisa que for diferente dos standards midiáticos não diz respeito a quem é gay.

Porque essa coisa de dar certo na vida, ser realizado com o que se é e com o que se escolhe e bancar todas as dificuldades que possam pintar pela frente (com maior ou menor teor dramático), é “Dream Boat” e muitas outras embarcações.

Próximo aos 41 anos e com alguns desejos à vista, nem que sejam voltados à manutenção das realizações que conquistei até agora, um conhecimento ou outro novo por aí, o encantamento por novas paixões e amores, o saborear de lindas canções que – vez ou outra – são criadas, dentre outros pequenos desejos, entendo que o mundo, hoje, faz dessa história de “dar certo na vida” algo com um sentido bem diferente do que já existiu.

Para meu avô, que percorreu o oceano entre o Japão e o Brasil durante 3 meses, sozinho em seu “Dream Boat” e com apenas 17 anos, dar certo na vida era construir alguma riqueza numa terra prometida, esta, (ludicamente) vendida nos países pobres – antes da Segunda Guerra Mundial – como uma mina de ouro.

Ele passou forme por aqui e não sabia nada da língua nativa. Então, dar certo na vida era ter o que comer todos os dias sem conviver com essa situação e, ao menos, se comunicar com o básico para não ser ludibriado ou zombado por algum espertalhão, como fora algumas vezes.

Talvez, para ele, tenha sido a possibilidade de ter o que vestir e calçar sempre, um trabalho garantido todos os dias em seu ofício de marceneiro, uma família alicerçada pelo mínimo, uma boa esposa que cuidasse dos filhos, administrasse bem o dinheiro feito de seu trabalho e que cozinhasse minimamente bem.

Talvez, para ele, dar certo na vida era conseguir oferecer uma educação na integralidade para seus dois filhos, já que ele nunca tivesse conquistado o nível superior. Talvez, fosse o esforço para que estes mesmos dois filhos pudessem ter as condições mínimas para ingressar na vida como advogados, médicos ou preferencialmente engenheiros, das três profissões que a época eram louváveis.

Meu avô teria hoje 107 anos, a completar 108 em novembro.

Depois, neste meu relato, veio o “dar certo na vida” para a geração dos meus pais. Meu avô conseguiu fazer meu pai engenheiro. Minha mãe formou-se professora numa época em que dar aula era tão bem pago como ser engenheiro. Eles ajudaram a dar forma a geração “Baby Boomer”, aquele perfil clássico, heteronormativo e que, em alguns casos, é determinado como capítulo principal da cartilha de muitos por aí: uma casa grande, filhos, cães, eletrodomésticos, televisão, aparelho de som, telefone, cama king size, os rebentos visitando a Disney entre os 16 e 20 anos, se possível uma casa na praia e um novo carro a cada 4 anos, suficientemente grande para comportar toda tropa.

Dar certo na vida para a geração dos meus pais era garantir os estudos dos filhos até a formação superior, ter o inglês como uma segunda língua fluente (e se coubesse uma terceira língua seria interessante) e praticar algum esporte: judô, natação ou tênis. Naquela época, a cultura metropolitana de “geração saúde” e ir regularmente a academia eram ideias embrionárias.

Meu pai tem hoje 75 anos.

Um pouco antes da minha geração, algo comparável hoje a quem está na faixa dos 50-60 anos (meu primo, por exemplo), surgiram os Yuppies ou Geração X. O semblante destes caras é nítido ainda para uma maioria: Steve Jobs, Bill Gates, Tom Cruise, Brad Pitt e até mesmo o (esquisitão) Donald Trump. Um filme que expressa bem o sentido de “dar certo na vida” para esta geração é “Jerry Maguire: A Grande Virada”, estrelada pelo próprio Tom.

As pessoas sonhavam em ser milionárias e independentes, altos executivos ou empresários de sucesso, bem casados, ou melhor, afeitos a nova onda de divórcios e – ao invés de casas grandes – preferiam as coberturas dos edifícios ou condomínios mais ostensivos.

Seus filhos partiriam para estudos no exterior, Estados Unidos, Inglaterra, França… tanto faz. A vida orientada para o trabalho dificultava bastante a proximidade com seus rebentos. Era melhor deixá-los em período integral na escola ou ocupados com inúmeras atividades: curso regular, aula de inglês, francês, natação, academia, dança, aula de algum instrumento musical, etc.

Sou fruto da transição entre os Yuppies à Geração Y e tais nomenclaturas geracionais continuam: Millennials, Z (Gen Z), Alpha. Cresci no analógico e, hoje, me sustento com o digital. Não bastasse, prefiro me relacionar com pessoas mais novas, estas que acabam (indiretamente) me alimentando com informações, hábitos e tendências do que está mais atual em âmbitos comportamentais.

Eu poderia afirmar que, hoje, a ideia de “dar certo na vida” transcendeu sua própria caixinha.

***

Voltando ao nosso universo gay, os conceitos de dar certo na vida e estar resolvido consigo com independência de modelos, me parecem cada vez mais fundidos. Como comentei, tenho uma tendência a me relacionar com rapazes mais novos, o que me garante uma visão mais real do que uma nova geração tem procurado para alcançar a felicidade.

Não faz tanto tempo atrás que o entretenimento gay, numa cidade grande como São Paulo, estava dividida entre as baladas nacionalmente conhecidas, The Week, Lions e Yacht – por exemplo – e uma ou duas festas tidas como “underground”. A comunidade gay (não somente ela) se segregava de maneira mais nítida, assim como nos anos 80 e 90 os punks, roqueiros, yuppies, góticos e clubbers faziam.

Um número cada vez menor de jovens gays, hoje, têm buscado as baladas restritas ao público. Na mesma proporção, não se ouve mais músicas específicas e segmentadas como antigamente, em ambientes exclusivos para estas sonoridades. É bem capaz de se entrar numa casa na Augusta, aberta a todos os tipos de público sem necessariamente levantar uma bandeira LGBTQIA+ e poder ouvir música eletrônica, funk de favela e axé. A par da qualidade musical, o discurso é sempre o mesmo: “não gosto de balada que só tem gay”.

No contexto profissional, já está no chão a ideia de que “gay acaba sendo artista, dançarino, designer, cabelereiro ou arquiteto”, um olhar um tanto Baby Boomer ou Yuppie para falar a verdade. Estou me relacionando com um rapaz que faz Química. E quantos não foram aqueles com os quais eu troquei uma ideia mais superficial e que atuam na área de Direito ou Finanças?

De ponta pé inicial, o que significa para eles esta ideia de dar certo na vida afinal?

***

Muito anteriormente a crise conhecida, as pessoas já andavam se desprendendo dos standards, da ideia da casa grande com o carro na garagem ou da cobertura, fruto de uma vida orientada ao trabalho e ao divórcio. Zygmunt Bauman, citado algumas vezes por aqui, representante legítimo da geração anterior aos Baby Boomers, deixou um amplo legado (com um tom um tanto quanto sombrio) sobre assuntos que, de certo, acabam por espirrar na ideia de “dar certo na vida” ou “estar resolvido consigo”. A modernidade líquida, termo criado por ele, está sim um tanto quanto desprendida dos pilares éticos e morais os quais, outrora, eram alicerces fundamentais para que as sociedades se sustentassem. Mas eram esses exatos pilares os quais sustentavam a ideia de que, na geração do meu avô, os negros deveriam utilizar banheiros separados ou acentos específicos em ônibus. Eram os mesmos pilares os quais, na geração dos meus pais, permitiu anos de Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos, modelo que reverberou no Brasil em formato de ditadura militar. Eram os mesmos pilares os quais, na geração do meu primo ou de Bill Gates, a máxima era enriquecer sobre todas as formas. E foram os mesmos pilares os quais, na minha geração, tratou a AIDS como a “praga gay” e que, possivelmente, mantém a clausura comportamental e cultural de dream boats da vida até hoje.

Talvez, que seja assim, líquida, para dar certo na vida. Já parou para perceber que, hoje, não precisa atender expectativas de ninguém nem seguir fórmulas prontas para ser feliz?

Tenho amigos de 25 anos e outros com mais 40 largando o corporativismo para viver algo novo com pequenos empreendimentos. Tenho outros amigos buscando uma luz fora do país. Tenho colegas gays que não largam a vida noturna em meio a dezenas de colegas divertidos e outros casados, com filhos adotados e com base em relacionamento monogâmico. Tenho amigos gays doutrinando outros para a fidelidade “suprema” e outros, cometendo lá seus deslizes e buscando seus caminhos para conciliação.

Para que Dream Boat se é infinitamente possível ser feliz fora dele? Nenhuma vida é o melhor dos mundos a não ser a sua. Cuide dela.


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

3 comentários Adicione o seu

  1. anonimo666 disse:

    Eu gostei do cara cadeirante.

  2. Jonathan Santos disse:

    Sempre com os melhores textos que nos fazem refletir um pouco mais sobre a vida!

    1. minhavidagay disse:

      Ei, Jonathan! Bom ter você por aqui :)
      Obrigado pela gentileza. Espero que este texto tenha feito algum sentido positivo a você.

      Abração!

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