Oferta relâmpago

O que anda acontecendo com os gays de 35 a 45 anos?

Já é a segunda pessoa com quem eu inicio um relacionamento que me traz um referencial bastante interessante e um tanto surpreendente a mim para falar a verdade: homens gays de 30 e poucos anos a 40 e poucos que, em um primeiro ou segundo encontro, já pedem em namoro.

Até conhecer o Gabriel – estamos saindo há quase um mês – o Rafa, meu ex, já havia trazido este referencial. Rafa, com 27 anos, sempre teve predileções por caras mais velhos. O mesmo acontece com Gabriel. E ambos, em momentos e contextos de vida diferentes trouxeram essas experiências, no final um reforçando as colocações do outro de que este comportamento, de gays com idades entre 30 e 40 anos que pedem em namoro logo no préfacio da história, a mesa de jantar ou bar.

O que será que anda acontecendo com parte dos gays da geração a qual eu pertenço? Será meramente a sensação de carência que nos impulsiona a buscar no imediatismo uma solução? Será a convicção de um formato de relacionamento, no aguardo de apenas um indivíduo que se conecte e de sentido à fórmula mágica? Será a pressa para preencher logo uma lacuna feita de solidão? Ou será uma simples preguiça de ter que viver por todo início de relação, das conquistas, de conhecer um ao outro e de viver os sentimentos incertos dos começos?

A impressão que eu tenho, quando pessoas (no caso gays) que já não são mais adolescentes e estão cruzando a fronteira entre ser jovem e ser adulto começam com estes hábitos, fazem por dois motivos básicos: beleza física (em primeiro lugar) e desejo sexual. Se estes dois quesitos em alguma medida se preenchem, já dá para ser namoro. Posso estar enganado, mas penso que seja impossível ter assertividade, quando não em um tipo de roleta russa (que inclusive pode gerar excitação) e garantir uma boa relação trocando mensagens por uma semana e realizando um ou dois encontros.

O resultado é que Gabriel e Rafael recusaram todas as ofertas deste tipo de pretendentes mais velhos. Mas e aqueles jovens gays, entre 20 e 30 anos que aceitam? Não vou especular sobre os rapazes dessa idade, embora saiba que muitos aceitem essas ofertas relâmpago.

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Poderia dizer, talvez, que os hábitos entre Sugar Daddies e Sugar Boys apontem para tal costume com certa naturalidade. Me parece, ainda sem análise muito aprofundada, que a procedência, valores e cultura de ambas as partes são menos relevantes, desde que um lado possa exercer a conquista por meio de dinheiro, restaurantes, presentes, conforto e viagens e o outro lado traga a beleza física e a fantasia da virilidade sexual. A par de um juízo de valor mais contundente, relações entre sugar daddy e sugar boy é pautada, por ambos, pelo aspecto material: um entra com condições financeiras e o leque de opções que estas podem proporcionar e outro entra com o objeto que é em si, como um indivíduo que chama a atenção e inspira sexualidade.

Pode haver amor nesta conjunção? Quem sou eu para determinar ou definir o amor a ponto de dizer que não há disso neste tipo de relação? De qualquer forma, em casos assim, me parece fazer bastante sentido o convite de namoro no primeiro ou segundo encontro.

Aos 41 anos, eu e acredito que milhares de outros homens gays na mesma faixa de idade, não tenham entrado neste tipo de cultura, da oferta relâmpago. Como não me sinto apto para julgar quem faz, posso deixar algumas linhas que justificam o porquê de não pedir alguém em namoro nos primeiros dias.

Por que não pedir alguém em namoro logo nas primeiras semanas?

A primeira reflexão talvez seja a mais “matadora”, colocando em cheque a vontade de qualquer apressadinho, independentemente da idade, ultrapassando até mesmo a relação entre gays mais velhos e mais jovens.

Vivemos a modernidade líquida (de Bauman) e a partir do aceite desta realidade, da concordância sobre as novas regras do jogo social, a palavra “namoro” pode assumir um nível de seriedade – ou até mesmo pesar – que já não é bem visto entre as pessoas como antigamente. A medida que a sociedade foi se transformando, o sentido romântico do namoro foi dando espaço para muitos outros sentidos e significados. Namoro, para alguns, pode apontar compromisso e, compromisso, pode levar o indivíduo a sentir um peso de responsabilidade que já não é mais determinante para se relacionar. Namoro, para outros, pode significar traumas, situações não bem resolvidas ou até mesmo o temor pelo fim do próprio namoro. Explico: proporcionalmente, existem poucas referências em nosso entorno de casais gays que vivem relações de décadas. O que existe, na maioria das vezes, são exemplos de relações curtas que acabam, as vezes se reiniciam, mas não chegam a durar 10 anos. Diante desta realidade, é natural a gente (serve para gays ou heterossexuais) acreditar muito no fim de um relacionamento, talvez mais do que na própria relação. Quem é que quer ou está disposto a lidar com términos, a não ser um grupo minoritário de pessoas corajosas espalhadas nesta liquidez?

Por isso, constumo orientar os gays que se aproximam pedindo dicas ou conselhos sobre relacionamentos, que abidquem, em alguma quantidade, da necessidade de formalização. Dou este conselho, inclusive, para heterossexuais. A formalização que hoje ainda pode ser encantadora e romântica para alguns, pode ser motivo de insegurança (de diversos tipos) para outros.

Então, o que sugiro, é que não se deixe de viver namoros, no sentido prático e emocional, de sentir as experiências entre duas pessoas que podem constituir-se em um casal; das intenções que levam à prática de encontros. Mas que a pronúncia da palavra idealizada em um ambiente acolhedor seja trocada por atitudes, dia-a-dia, convívio, troca de interesses e conversas para que, de repente, um chegue ao outro e simplesmente constatem algo do tipo: “então, estamos namorando, não é?”.

Assim é natural e natural, hoje, é muito mais bem visto.

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Feita a explanação mais profunda, “matadora”, vamos às trivialidades:

  • pedir em namoro logo no préfacio pode parecer um tanto imaturo, impulsivo, precipitado. Como citei anteriormente, em sã consciência, existem muitos gays que transcenderam a objetificação, o materialismo e certas culturas carimbadas entre gays. Mesmo jovens, muitos querem o conteúdo em detrimento a forma ou a idealização;
  • foi-se o tempo em que a ideia de ser gay era uma clausura estética e sexual. Algo fadado a sexo, a admiração da beleza e ao convívio restrito a quatro paredes. Existencialmente, alguns homens que se prestam a ter experiências homossexuais podem entender suas vivências cercadas de tal forma e isto os conforta. Mas jovens gays, mesmo que bem ou mal vividos, tendem a querer explorar situções da porta para fora. Os pais, hoje, criam muito mais os filhos para o mundo do que para si, embora este segundo aspecto conservador ainda seja presente entre pais jovens;
  • sair para tomar um sorvete, assistir um filme, jantar, caminhar, fazer pequenas viagens, cozinhar juntos, dividir a cama para outras ações como leituras, carinhos, seriados e conversas – além do sexo – é a maneira enriquecedora que dará preenchimento e sentido para um namoro. Quem entende namoro como um trabalho construído a quatro mãos, tende a não compreender o pedido de namoro em um segundo encontro;
  • dialogar, por mais que muitos gays misturem a ideia de conversas com discussões, é uma das boas maneiras de desenvolver um relacionamento antes de uma formalização. E estamos no tempo de aprender que não adianta nos restringir a apenas assuntos que nos interessam e não entrarmos em temas que interessam ao outro, seja por insegurança de lidar com certos tópicos, ou por um natural individualismo, ou por falta de conhecimento sobre o assunto. É na troca de ações práticas ou discursivas que vamos descobrir sobre compatibilidades e incompatibilidades. Se não há paciência para isso, ou se está solteiro ou se está pedindo alguém em namoro em um primeiro encontro, possivelmente. Por mais que exista atração física, a falta de sintonia de gostos, cultura e valores, me parece dificultar a construção de uma relação;
  • “idealizar menos e humanizar mais” é um pensamento básico para quem não vai ver com bons olhos uma oferta relâmpago.

coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Texto muito rico, profundo, que só a experiência permite escrever e perceber a verdade dessas linhas.
    Poderiam ser colocados em negrito dois trechos, a saber, “Assim é natural e natural, hoje, é muito mais bem visto”,
    como também “idealizar menos e humanizar mais”.

    1. minhavidagay disse:

      Ei Lebeadle! Com algum atraso, venho dar minhas boas vindas, de novo. :)

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