Mentalidade 41


“Ah, que chato, Flávio! Você tem escrito repetidamente sobre suas vivências aos 40 e poucos anos, seja como gay ou não! Não tem outro assunto não?!” – pois é, meus queridos leitores! O Blog Minha Vida Gay sempre foi um reflexo das minhas tensões ou energias internas e hoje, o “disco riscado” tem trazido muito dos conceitos e assuntos que venho descrevendo nos posts mais atuais. Gay (or not gay), são estes temas que tem preenchido meus pensamentos, no departamento do cérebro voltado a tais filosofias. Desculpem! Mas é o que há para o momento! :)

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Esses dias me peguei lendo furtivamente uma chamada em algum site de notícias de que os homens amadurecem a partir dos 50 anos. Certamente eu estava entre uma agitação e outra de trabalho e não dei o clique na matéria. Mas me coloquei a pensar sobre aquele título: “se eu já me sinto maduro hoje, constatado de maneira imparcial – ao máximo – em minhas sessões de terapia, como estarei aos 50? Um sábio oriental gay com as barbas brancas e esvoaçantes, kimono rosado com temas florais, sobre uma rocha no Himalaia?”.

Gay aos 41 anos. Vou completar este ciclo no dia 29 de março próximo e estarei fora do Brasil sozinho e me autoproporcionando cenários e cituações “mais do que merecidas” se for considerar a percepção daqueles que torcem a favor. Porque neste tempo de 41 voltas do planeta em torno do Sol, colecionei aquela meia dúzia de gatos pingados – criados inclusive por mim, seja a época com luzes para a própria sexualidade, seja para crescimento profissional – e que torcem o nariz hoje com algum teor rançoso (aproveitando a palavra – ranço – que está na modinha e que muitos gays com a mentalidade teen tem utilizado).

“Fale mal, mas fale de mim serve? Serve!”. Gay aos 41 anos, descobri que não dá para simpatizar enternamente com todos, nem ter o controle sobre o julgamento daquilo que pesa mais para cada um.

E por falar em “simpatizar eternamente com todos”, acho que faz parte da falta de maturidade que permeia os 20 aos 30 (e que segundo a chamada do artigo só preencheremos aos 50), acreditar que seremos um poço de amizades para sempre. Meu pai um dia me alertou: “no futuro, não pensa que você vai ter esse tanto de amigos como hoje”. E ele, no auge de seus 60 e poucos anos a época, tinha uma plena razão.

Não é que a gente briga com todo mundo, responde a desaforos ou amarga o coração. É que dos 20 aos 30 a gente precisa muito autoafirmar aquilo que nos parece destacar de qualidade da gente. A gente demanda de pessoas, pessoas demandam da gente. A gente precisa confirmar um pouco todas as semanas que somos seres sociais queridos, amados, múltipla escolha que acolhe até o NDA. Costuma ser em quantidade e não entendemos ainda bem sobre a qualidade das relações. Pelo menos comigo foi assim, entitulado de “ONG” dos meus 20 aos 30 e poucos. Eu era um gay que vivenciou o sair do armário explodindo para a vida. Eu demandava de muitas vontades, necessidades e desejos que – até então – estavam potencializados. Quem se atreve a ler os primeiros posts do Minha Vida Gay (de 2011 até 2015), ou até mesmo se presta a comprar o e-book, vai encontrar parcelas deste Flávio. E está tudo bem, tanto quanto encontrar as minhas “viagens em busca de eu mesmo”, como também eu ter sido assim, rueiro, baladeiro, agitado. Não tenho vergonha do que fui, embora com 41 eu – humildemente – me sinta muito melhor. Trocar o Sangue de Boi pelo vinho tinto francês, sem perder a transparência ou quiçá a humildade, é perfeito. E claro que para isso foi necessário muito trabalho!

Acontece que euzinho optei por olhar para dentro, ressignificar a ideia de solidão, repensar a importância dos relacionamentos, ver e rever minhas percepções sobre o fato de ser gay, dar um ponta pé em diversos modelos comportamentais ditados pelas mais velhas cartilhas dos primatas hominídeos e por um fim em um punhado de crenças limitantes pessoais nos últimos 5 anos. Associe toda essa movimentação ao fato de eu ser empresário, consultor, Coaching e ter lidado nestes 17 anos com milhares de pessoas dos 19 aos 75 anos na esfera profissional? BOOM! É muito difícil permanecer o mesmo “para sempre”. É muito difícil se manter em zonas de conforto, por mais que se queira.

Estes conceitos dogmáticos, como “para sempre”, “eu tenho controle”, “é do meu jeito”, “é da maneira que eu acredito”, “a verdade”, acabam por virar grãos de areia que, fragilmente, se perdem ao vento de, quem sabe, um universo maior de sabedoria. Acabei por entender a importânica de viver mais o “aqui e agora”, o presente e deixar passado e futuro em suas respectivas dimensões. Quando vivemos o presente, aproveitamos, desfrutamos e exploramos ao máximo de tudo que nos é possível no momento e adquirimos certa habilidade da prática do desapego, do deixar ir, do deixar voltar, de fluir e de confluir. Poupamos quilos de unhas roídas! E para isso, euzinho, não precisei me apegar a templo, religião, dogma ou filosofia. Não precisei me vincular ao Hare Krishna. Não preciso de representantes. Não preciso mais acreditar efusivamente naqueles que me cercam.

Então, a gente não deixa de amar os amigos embora aprenda a acreditar mais na transitoriedade. Joga-se um maior sentido de incondicionalidade em cima disso que é o tal do amor. Aprende a aceitar as mudanças, os movimentos e o fluxo natural das pessoas sem impor – de formas variadas – algum tipo de chantagem emocional. Fora que o tempo nos proporciona um filtro mais apurado e a peneira acaba por ser (quase) inevitável. Trocamos, assim, “todo mundo” por um universo muito mais particularizado.

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Continuo materialista, buscando estar perto das mais engenhosas tecnologias, dos restaurantes e das viagens nacionais e internacionais e, ao mesmo tempo, sou capaz de vestir a bermuda surrada e colecionar bolhas nos pés depois de uma escalada de 8Km a 2.000 metros do nível do mar em Minas Gerais. 7h30 de percurso, sujo, cheio de barro e jovialmente feliz de poder dar goladas deliciosas, diretas da água do rio e, quem sabe, tonificar a minha espiritualidade ao me deparar com a vista da natureza a 2.000 metros de altura.

Amanhã, este rio de água pura, no meio da trilha do pico, talvez não esteja mais por lá. Vítima de pessoas que, certamente, não estarão saboreando o “aqui e agora”.

Sobreviverei sem este rio, (orgulhosamente) feliz por te-lo desfrutado e respeitado. Assim como sobrevivi a inúmeras idas e vindas, baixas e altas sem enaltecer o tom vitimista, daquele tipo que precisa sempre apontar para um culpado com todas as justificativas possíveis e se isentar ao máximo de responsabilidades de qualquer relação que tenha acabado mal.

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Dinheiro faz bem, trabalho faz bem, amigos seletos fazem bem. Amor faz bem, desenvolver a espiritualidade faz bem, cuidar e manter o físico – que é material – faz bem. Beber uma taça de vinho todos os dias faz bem. Ter um animal de estimação faz bem, manter boas relações com os pais e a família faz bem e se desprender da vontade do julgamento faz bem. Desenvolver o intelectual – a sua maneira – seja jogando partidas de videogame ou indo a exposições fazem bem. Já entendi que nenhuma dessas importâncias são melhores ou piores. Já entendi que nenhuma delas merece destaque em relação as outras. O amor não é melhor que o dinheiro. Amigos não são melhores que a própria família e vice-versa. Se entreter com games não é melhor do que ir a um show. Ir ao um show não é melhor do que um seriado.

São todos estes fragmentos que, numa equivalência, somatória e equilíbrio, formam um pilar único para dar sustentação a pessoa que sou e que pretendo manter (manter, no sentido de manutenção, vale o reforço) para os próximos anos.

Assim estou, gay, com 41 anos.

***

Eu tentei passar meu próximo aniversário sozinho. Para celebrar, inclusive, este nível de autossuficiência que conquistei nos últimos anos. Mas uma amiga que mora naquele país quer se encontrar comigo de todas as formas. Na real, queremos! Apresentei a ela a data de chegada e partida e a deixei a vontade para que escolhesse o dia. Ela irá percorrer quilômetros para o encontro. Foi escolher bem no dia 29.

Irônico.

Na onda, um outro amigo que mora bem próximo de onde estarei, ficou sabendo que ela se encontrará comigo no dia de aniversário. Fez questão de comparecer também. E está tudo bem assim. São queridos e, eu e ela, nos veremos pessoalmente depois de quase 2 anos de contato virtual.

Tudo bem, porque eu descobri duas coisas nessa minha jornada de autoconhecimento: (1) não bloquear um fluxo natural que o Universo nos propõe. Ela escolheu o dia, sem o propósito consciente de que em 29 será meu aniversário. Meu amigo veio na trilha, achando que ela se encontraria comigo inclusive para celebrar (este, não esquece a data! Um amor!) e (2) certa completude interior é de dentro para fora. Com todo respeito que presto a estas lindezas de amigos, a celebração já acontece dentro de mim e a conquista se sacramentou no dia que escolhi por fazer assim. Não há sentido nenhum em me esforçar, praticar peripécias ou tomar atitudes para evitar esta reunião só porque eu buscava pela simbologia da solitude em 29 de março.

Se fluiu, que seja assim, entregue ao meu descontrole!

Aliás, esta viagem foi programada deste jeito: sem programação. Não sei absolutamente nada do que eu vou fazer ao por os pés em solo estrangeiro. Saberei do dia de amanhã apenas no dia que o anteceder. Não é interessante não ter que definir monumento a ser admirado, restaurante a ser conhecido ou ponto popular a ser avistado? Eu acho isso uma maravilha; um tipo de prática autoconcedida para o exercício do descontrole! Não faço nem ideia do que farei com meus amigos, só me restando o excitante desejo de decidirmos tudo na hora!

Decidirmos, no plural, porque penso hoje, que as vezes, celebrações de aniversário são especiais para os amigos que fazem a festa.

Isso tudo forma uma bela fantasia de liberdade!

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