Isso é sobre naturalidade

Uma referência da naturalidade de ser gay

Minha experiência em NYC, desta vez sozinho, tem sido interessante. Não há ponto turístico que eu queira conhecer ou descobrir, não há o êxtase da novidade, nem certos imprevistos pela falta de experiência. Hoje, enquanto caminhava aleatoriamente pelas avenidas e ruas simétricas de Manhattan, me dei conta de que estava seguindo o caminho perfeito de volta para o apartamento sem ter que pensar “que rua é está? Estou na direção certa? A avenida é está mesmo?”. Comecei a dar risada sozinho pois, mais do que ter a mínima autonomia da língua para poder conversar com as pessoas – e não somente lançar perguntas e obter respostas -, a gente percebe que nossa alma se acostumou/se adaptou com uma nova realidade quando a gente deixa de pensar para fazer as coisas. Dou rolê a pé em NYC como se estivesse dirigindo meu carro em São Paulo e isso, até certo ponto, foi meio assustador.

Weird but good now.

Estar em solo conhecido e ter este tipo de afinidade com o ambiente estão me permitindo fazer tudo o que eu gostaria de fazer – da cultura, gastronomia, compras e diversidade – e ao mesmo tempo reservar algumas horas do meu dia para dar sequência aos assuntos importantes que abri para a minha empresa antes de sair do Brasil. Meu sócio continua firme e forte com a manutenção de tudo que já existe e, eu, não poderia deixar de dar continuidade a novos projetos e relações que se iniciaram antes de minha saída. Então, é como se eu estivesse acolhendo o trabalho também, mas em Manhattan. Isso é novo. Sozinho, não tem aquele amigo dizendo “deixa disso, você está de férias!”. Posso exercer meu lado entusiasmado com o trabalho sem precisar dividir a atenção. Posso fazer isso, também, porque não existe mais uma empolgação pela novidade.

The size of me.

Mas o ponto alto até agora perante esta desenvoltura e descompromisso, neste mix de férias com trabalho, foi ter encontrado meu amigo Jean que mora colado a NYC junto com seu marido e suas três lindas filhas. A casualidade é que eles são gays. Tão casual que nem cheguei a lembrar que este tema poderia ser detalhado no Minha Vida Gay e que esta reunião que aconteceu poderia ser recheada de perguntas do tipo “quais são os highlights de um casal gay, pais de três filhas?”.

A real é que o teor desta pergunta e seus subtemas são um pouco preconceituosos dependendo do ponto de vista, embora sem maldade e diferentes da normatividade cultural brasileira. Prato cheio para nutrir de informação parte do público do MVG que tem curiosidade de saber sobre o cotidiano de um casal gay que vive junto há 21 anos e que adotou três meninas, uma com 8, outra com 9 (se não me engano) e a mais velha com 12 anos.

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Tenho até que pedir certas desculpas aos leitores se o meu viés/radar sobre as nuances da vida gay já não são mais como de antes. Quando o Jean veio me buscar, pontualmente, e saltei para dentro do carro para fugir do frio da rua, eu abracei meu amigo e não propriamente meu amigo gay. Durante o trajeto para sua casa, ele deu várias gargalhadas sobre a maneira que eu falo “Fox News”, dizendo que é muito comum as pessoas pronunciarem “Fucks News” sem notarem, já que a diferença é sutil e normalmente só quem tem o Inglês como língua nativa consegue diferenciar. Citamos a Fox pois, dias antes, ele me recomendou participar da passeata pelo desarmamento que aconteceu em Manhattan, no dia 24 de março. A Fox é tida como simpática ao Trump e ao porte legal de armas e, quando eu passava em frente da filial da emissora em NYC, havia um aglomerado de americanos elevando o dedo central gritando “Fox sucks!”, ou, de acordo com a minha pronúncia, “Fucks sucks” (rs).

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Quando chegamos e suas filhas vieram nos recepcionar, eu não lembrei que elas eram de um casal gay. Lembrei imediatamente da minha sobrinha e dos meus novíssimos sobrinhos gêmeos univitelinos e da energia que é ter uma família. Tampouco me lembrei que eram adotadas e quando respirei o ar da casa, logo me veio o sentimento da vocação da paternidade, deles, do meu irmão e da minha cunhada. Vi o quarto da filha mais velha separada das irmãs, com seus brinquedos e pertences coloridos espalhados pelo ambiente. Vi o quarto das irmãs mais novas próximo ao dos pais, com a beliche e novos artefatos coloridos. Notei o pequeno dog Oscar que, para variar, foi bastante com a minha cara e, por fim, a sensação comum de estar na casa de gente como eu. Jean adora eletrônicos como eu.

Entendi um pouco sobre o fascínio/fantasia que algumas pessoas tem sobre o estilo de casa norte-americana! Tudo culpa do “The Sims” (rs). Brincadeiras a parte, pouco fiquei fascinado pela casa – fofa e aconchegante por sinal – mas amei (com certa inveja) ver a ausência de muros e grades, o jardim amplo fundido ao dos vizinhos. Que bom se pudesse ser assim na minha casa…

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Quando Joe desceu, ao contrário do que a gente imagina do americano, ele apertou minha mão e logo se projetou para um abraço. Caloroso por sinal. Não passou pela minha cabeça o fato dele ser gay, mas sim, a surpresa por ele – an american descedent of Irish people – oferecer um abraço aconchegante! Meu palpite internalizado foi de que o Jean deveria ter ensinado algumas coisinhas…

Foi com eles que pude, enfim, ver a quantas andava o meu Inglês e acho que consegui transcender o esquema “pergunta e resposta” (rs). Quando sentamos a mesa de jantar, pairaram alguns minutos de um silêncio estranho que, rapidamente, a filha mais nova se prestou a quebrar com a presteza que cabe a uma criança.

De qualquer forma, por algum motivo a cozinha acaba inspirando mais os brasileiros e, depois do almoço, foi por lá que prolongamos muitos outros assuntos, sobre uma Joelma, sobre as impressões do Joe do Brasil e sobre as nuances culturais. Mas ninguém lembrou que éramos todos gays. Eu pelo menos, nem por um instante.

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Foi durante a carona de volta para casa que por breves minutos falamos, eu e Jean, sobre as caixinhas que os gays costumam a entrar. De que ele talvez não fizesse parte de nenhuma caixinha mais conhecida no Brasil, mas que no final ele estava em outra caixinha, a da “vida mais hétera”.

De repente eu vou percebendo que a grande questão nem são as caixinhas. O Homo Sapiens precisa delas pela naturalidade que nos define. O importante, pelo menos para mim, é poder me propor a acolher e conviver sem medo as diversas que existem por aí, sem julgamento, sem interesse, sem fixação ou reatividade. E para isso, as vezes, é importante se soltar do terreno conhecido, do dia-a-dia, da rotina, das “verdades” que nos conduzem, de uma necessidade de pertencimento a um grupo específico, de padrões ou expectativas esperadas por terceiros. Temos que nos propor a passar por momentos importantes, talvez sofridos ou angustiantes, para entender o que queremos hoje com o mínimo de influência.

Será que, as vezes, deixar todo contexto e partir para um outro lugar é um caminho? Para alguns sim. Jean é um amigo querido que exemplifica este movimento.

Ser gay no Brasil (e posso falar para parte de quem é brasileiro), é ter que conviver com diversas camadas externas (de interesses alheios) e internas (as mais desafiadoras, na minha opinião) que nos cercarão de expectativas para funcionar de um jeito, sendo que – no final – queremos funcionar de outro, normalmente sem saber por onde começar. E no meu “auge” dos quase 41 anos, proposto (inicialmente) a completar aqui em Manhattan – sozinho – no dia 29 de março, posso dizer que é necessário um tanto de coragem para, depois, naturalmente cairmos em novas zonas de conforto e – de novo – nos desafiar.

Auto-naturalizar a nossa homossexualidade a ponto de nem se lembrar (nem para a supervalorização ou a negativação) é só mais um dos desafios a frente. Eis a essência do Minha Vida Gay: para o gay que busca ser além de gay. Quem me dera que o MVG não fizesse sentido!

Sozinho, sem direção para seguir, ao máximo sem querer exercer o controle das coisas e com alguns insights em mente, deixo aqui meu recado.

Free as much as possible.

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Henrique disse:

    Ei MVG, ainda estou terminando de ler seus posts antigos, é quase um livro haha. Nota-se muito amadurecimento de sua parte nessa questão de “ser gay”.

    Sempre excelente seus textos. Não pare de nos escrever :)

    A propósito, você se mudou pra NY de vez?

    Um grande abraço!

    1. minhavidagay disse:

      Que bom! Realmente… de lá pra cá, a cabeça mudou bastante rs… não mudei não! Estou aqui só de passagem, em mini-férias e para passar meu aniversário :)

      1. Henrique disse:

        Que ótimo! Aproveite e se namore muito em NY haha!

        Curta bastate, e parabéns querido MVG! :)

      2. minhavidagay disse:

        Muito obrigado! 🙏😄✌️

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