A vida gay aos 40 anos

Felicidade aos 40 anos

Não tem jeito. Por mais que eu queira trazer assuntos mais juvenis, ou que atenda expectativas do gay que tem menos de 37 anos, do gay de “dentro do armário”, do jovem gay cheio de questões, expectativas e fantasias, se tornou um esforço tremendo fazer disso hoje. O MVG é bastante autoral, embora tenha já temperado de informações e sutilezas a mente dos passantes jovens que buscaram conteúdos temáticos populares e gerais, da lista de 100 temas da realidade gay mais quentes ou frequentes para uma luz sobre a própria homossexualidade. É autoral e o autor hoje está com 41 anos. :)

Tive a satisfação de ajudar muita gente a sair do armário e, outros, a sair da vida heteronormativa. Parece que não, mas estes dois temas são bem diferentes.

Por um lado, missão cumprida. Por outro, o que fazer do MVG daqui para frente?

Estou vivendo certa “crise” e tenho escrito pouco pois ainda não achei um novo tom para trazer por aqui. A fagulha tem me faltado, embora não esteja desesperado por isso. E isto é apenas um desabafo e não uma declaração de tombamento do Blog. :)

Era mais fácil escrever, contextualizar e proporcionar assuntos bastante comuns para o gay. Era tão simples trazer o mesmo tema, ilustrando o mesmo com pontos de vista diferentes. Eu me alimentava dessas diversas situações a todo momento, na rua, utilizando os aplicativos, nas esquinas, nos bares, baladas e saunas. Vivia experiências inéditas com namorados, ficantes ou paqueras. Amigos traziam vivências que, até então, eram novidades mais surpreendentes. Existia uma (quase) compulsão para servir de referencial aos leitores sobre acertos, erros e (sobre)vivências. Sobre os medos, sobre os impulsos e as necessidades que um jovem gay como eu – a época – poderia transpor a terceiros e quartos que estivessem em busca de uma referência.

Mas há o lado bom de tudo isso: o “escritor” do Minha Vida Gay em 2011, ano que isto começou, não é mais o mesmo em 2018. Não sou mais tão jovem assim (RISOS) e assumir este conceito, subentendendo que o mundo tende a fazer dos mais velhos algo (possivelmente) mais periférico, é um triunfo. Em sete anos, preencheram-se as lacunas das potencialidades e das cabeçadas por realizações e experiência. Claro que muitas das vontades juvenis não se realizaram, mas aquelas que eram potenciais e não aconteceram, eu nem lembro mais o que eram! Supõe-se, então, que não eram tão importantes assim.

Hoje, como Coach, tenho ajudado individualmente aqueles que me procuram e investem no tipo de serviço. Serviço = servir = atender demandas de terceiros. Continuo desempenhando esta função.

Estou namorando há três meses com o Gabriel e não me parece fazer sentido expor fatos e detalhes de nossa relação. Não porque ele é alguém qualquer ou porque a relação não traz novidades, pelo contrário. Continuo achando que cada indivíduo que entra em nossas vidas é um universo rico em detalhes a ser explorado e que, sempre, a gente avança, desenvolve e evolui em algum aspecto ao se permitir relacionar. Esta crença não pretendo ressignificar.

A relação dos meus pais com o fato de eu ser gay nunca esteve mais normativa. Minha mãe, semana passada, veio me perguntar:

– Como está o namoro? Como ele chama mesmo? Rafael?

– Não, mãe… Rafael foram outros dois e já foi (rs). Agora é o Gabriel…

– Ah, sim, Gabriel. Agora é o nome de outro anjo, né?

Com meu pai, a relação nunca esteve mais amistosa, respeitosa, afetiva e serena. Quem acompanha o Minha Vida Gay sabe como a nossa relação caía em um modelo clássico, do gay que não se dá bem com o pai ou é “indiferente” e que tem algum tipo de relação edípica com a mãe. Papai não fala de assuntos pessoais e íntimos desde que eu o entendo como pai. Então, conversamos sobre as novidades eletrônicas e tecnológicas, de filmes marcantes, do cenário musical atual em relação ao contexto do passado, da boa ou má atuação de artistas, dos bons e ruins restaurantes descobertos e de videogame. Meu pai adora viver nesta dualidade ética-moral do “bom e ruim”, do “certo e errado”, algo possivelmente herdado do meu avô. Tudo isso é como (mais ou menos) sempre foi, antes mesmo dos hormônios sexuais se manifestarem dentro de mim.

O meu olhar sobre o fato de eu ser gay, particularmente, mudou muitíssimo nos últimos anos. E quando mudou o meu olhar, mudou o comportamento das pessoas ao meu redor. “Quando você muda, o mudo muda” e ainda, está frase registrada por meio de uma aula para Coachs, define bem parte de minhas crenças. É incrível este fenômeno e me parece real. Aliás, passa a ser real depois que a homossexualidade deixa de ser algo de misterioso, esteriotipado, fantasioso ou arquetípico. E vamos combinar que, para muitos, ser gay será sempre algo misterioso, esteriotipado, fantasioso ou arquetípico, por mais que os (bons) psicólogos ou terapeutas tentem encaminhar diferententemente. Muitos gays preferem acreditar que ser gay é algo diferenciado ou que inspira diferenciação. Eu, particularmente, sai desse circuito e está tudo bem com aqueles que continuam.

“Certo e errado”, “bom ou ruim” são percepções que desembocam dos julgamentos. Julgar é um tipo de artifício para se relacionar, assumido pelos nossos ancestrais primatas, que eu tenho tirado da minha vida numa fantasia de que, assim, eu talvez seja mais evoluído. De qualquer forma, o gay vive muito tempo da própria vida em um processo inconsciente de autojulgamento pelas diversas e particulares nuances de ser gay, da maneira que cada um entende isso.

Quando leitores, Coachees ou pessoas próximas se aproximam com questões diversas sobre o gay, eu normalmente tenho uma opinião formada a respeito, embasada em alguma vivência ou algum conhecimento. O que não quer dizer que a opinião não mude com a aquisição de novos referenciais e com o próprio conhecimento que é mutável e orgânico. Porque na realidade mutável e orgânico é o ser humano. Eu estou intrisicamente disposto a viver mudanças.

Isso tem a ver com personalidade.

***

Com 41 anos, por exemplo, sei quem é Pablo Vittar mas não sei quem é Pablo Vittar. Para quem trabalhou com música, como sócio de uma produtora de áudio e de uma escola de música no passado, este rapaz está fora da minha tolerância musical, daquela que abrange as inspirações criativas, culturais e desenvolvimento intelectual. Agora, se a questão é a política por traz de sua expressão, caso Pablo Vittar sobreviva mais dois anos a frente, talvez, o discurso de que o discurso político é que é importante e válido, fará sentido para mim. Do contrário, morrerá como um produto de entretenimento. Marketing puro, sem lastro (efetivamente) cultural ou político. Já dá para perceber o que será de Pablo Vittar daqui a dois anos?  Pois bem…

Entreguemos ao tempo a resposta.

Com 41 anos, continuo sendo bastante crítico mas muito mais quieto, principalmente no que diz respeito a necessidade de exteriorizar opiniões sobre quase tudo. Uso meu Facebook para opinar sobre o comportamento da sociedade perante o atual cenário sócio-político. Gosto de viver certo “prazerzinho” de perceber que tudo que acontece hoje, eu já esperava que acontecesse.

Uso meu Instagram para apresentar meu lado amador-cantor. É divertido, é a minha terceira terapia, sendo a primeira a própria psicologia e a segunda a academia. Escrever, no atual contexto, está em quarto lugar, mas está.

Uso o MVG para, ao máximo, trazer à tona minhas camadas mais profundas, organizar minhas ideias e, ainda, levar referências a pessoas, sem muitas parcimônias ou com a preocupação com o julgamento de terceiros. O texto, numa dimensão brasileira que cada vez menos se apropria da capacidade de interpretação textual, é quase que um esconderijo aberto: está lá, todo mundo vê mas poucos enchergam. Nestas, aqueles que enchergam (e são alguns milhares por mês graças ao Google) vivem mais perto da dimensão atual onde me encontro. A afinidade é mais imediata, assim como gosto musical.

E é entre estas indas e vindas e lapsos maiores por aqui, no Minha Vida Gay, que eu encerro o post de hoje. Sem um tema específico, sem algo conclusivo ou determinante. Gay, aos 41 anos, eu tenho preferido deixar mais solto. Sofrer pela necessidade de controle, viver das limitações de grandes convicções e verdades, é coisa para quem tem 20 ou 30 anos.

Próxima fase! :)

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