Crise dos 40?

Hoje meu ex, o Bruno – aquele que eu namorei quase 4 anos, vive casadinho recentemente com seu namorido e é meu parceiro em projetos – lançou algum assunto para tirar um sarrinho, sobre uma possível crise dos 40 anos.

Gay e a crise dos 40 anos.

Quando ele lançou o assunto, veio uma sensação estranha: “nossa, e não é? Cadê minha crise dos 40 anos?!”. Foi um pequeno choque pois, cruzei dos 39 aos 40, atingi os 41 anos e foi a primeira vez que tal tema pintou, ainda que em formato de zoeira-provocaçãozinha. Não ouvi de terceiros, tampouco senti sensações sobre este assunto nos últimos anos e veio assim, na brincadeira.

Resolvi trazer o tema.

Olha, acho eu, em minha humilde percepção de mundo, que a crise dos 40 anos bate a porta de alguns homens e mulheres, sejam gays ou não. Ou seja, está longe de ser um mito e circunda a realidade de muitos quarentões. Aqui, no cantinho do meu imaginário-reflexivo, faz sentido ser real, vivencial e experiencial para algumas pessoas. Parece bastante estranho achar que a crise dos 40 anos não existe só porque, de repente, eu não a esteja percebendo e tal tema, envolto de outros com a mesma idade, não venha à tona.

Talvez ela, a crise, esteja se manifestando e eu não esteja nem aí ou, provavelmente, a malvada não chegue nem aos pés da crise dos 30 a ponto de fazer sentido eu dizer: “estou vivendo uma crise dos 40!”. Bom, longe de mim entrar numa masturbação-neurótica sobre o assunto.

Nas devidas proporções, um ariano com 41 anos respondeu para o ex com o primeiro pensamento que veio a cabeça:

Com 40 anos você quer é desencanar de crises. Crise faz sentido para quem não cruzou os 40 ainda. Até uns 39, alguma coisinha ainda pode virar uma crise – claro que teve uma ironia, daquele leve ímpeto de tatear a ferida do Bruno, ele que recentemente cruzou por crises existenciais narradas a mim. A questão é que, apenas, eu rebati a bolinha. :)

Fora as sutis provocações que pautam parte da maneira que nos relacionamos, a amizade estabelecida com o Bruno, por exemplo, pode sugerir o por quê de não me rodear nenhuma sensação de crise existencial dos fourty: vai completar uma década a nossa amizade, algo que é gostoso de autoafirmar às censuras culturais existentes sobre amizade entre ex.

A amizade pode se dissipar em alguns meses, pode durar mais uma década e não importa muito o que irá acontecer, desde que as reais intenções fluam sem cobrança ou obrigação. Falo da minha parte e isto é a manifestação da minha lealdade. A gente alcança essa ótica quando, de fato, não vai julgar ou aguardar comportamentos de amigos ou ex-namorados com algum tipo de expectativa, birra ou chantagem. Assim, me parece difícil haver crise se o assunto é amizade.

A crise econômica realmente veio e ainda permeia a vida de muitos cidadãos brasileiros em alguma medida, em algum aspecto. Acontece que a crise econômica é externa e não é minha, internalizada. Eu poderia estar em crise diante da crise econômica se tivesse confiado no “fantástico mundo de Dilma” – por exemplo – e não tivesse me prevenido, achando fielmente que este mundo fantástico era a realidade.

Não fossem reservas financeiras e uma capacidade para “apertar o cinto” em diversos aspectos da minha empresa e da minha vida pessoal, eu poderia estar numa grande crise aos 40 anos. Muito gente, nestes contextos, tem um orgulho cego e não arreda o pé para recuar, cortar alguns prazeres, deixar de frequentar alguns lugares e gastar menos.

Eu pelo menos, com 40 anos, não tenho crise com esse tipo de coisa. Já não foi a primeira vez que, simbolicamente, troquei o “carrão importado por um 1.0 de 3 válvulas” e continuei feliz com a pessoa que sou. Eu, com 40 anos, aprendi a distinguir bem o que sou com o que quero aparentar. Aprendi a distinguir o que sou com a necessidade de ser alguma coisa para o outro, buscando atender expectativas alheias. O que sou é muito mais sustentado e delineado do que eu possa aparentar (que é, normalmente, mutável). Então, não tem crise do aspecto “eu com a sociedade”.

No post anterior, citei um comentário de como está naturalizado o fato de eu ser gay para a minha mãe, por exemplo. Ela confundiu o nome do meu namorado Gabriel pelo nome de um ex, o Rafael. Ela mesma concluiu que, no final, “é um anjo com o nome diferente agora”, se referindo a essas denominações bíblicas. O diálogo ilustra um tipo de situação tão corriqueira que, na real, me afasta de qualquer crise sobre a minha sexualidade perante minha família.

Ano retrasado indiquei uma ex da minha empresa, que tinha papel declarado de braço direito, para ex-sócios os quais lidam com uma outra empresa a qual fundei juntamente. Resumidamente e assim, ela começou a trabalhar na minha antiga empresa e, em algum nível, mancomunada com os próprios ex-sócios, resolveu me processar. Simples assim. Foi a primeira vez que a emoção da traição + inveja + maldade (essas exatas três manifestações humanas) afloraram a minha frente de uma maneira nonsense e improvável, não fosse o fato de ter acontecido.

No final, tive que entrar em um confronto “do bem e do mal” que, ao mesmo tempo que me tirava do sério pelo natural desagrado por estes valores maniqueístas menores, me pôs a pensar sobre o caráter do ser humano de uma maneira mais drástica.

Eu que sempre acreditei num mundo cor-de-rosa. Eu poderia me sentir traído, invejado e vítima da espécie de caráter daqueles que, por ironia, foram minhas “crias profissionais” e, em alguma medidade, foram confortados por mim em momentos pessoas bastante críticos, sejam financeiros ou morais.

O fato prático é que tirei todos os louros de uma batalha judicial que não pedi para entrar e que, se dependesse da clareza intelectual minha e alheia, poderia ter vindo de qualquer forma mais amistosa. Sempre fui favorável a conversa, embora a conversa – a mim – exija bons argumentos.

Ganhei o joguete fazendo o mínimo esforço diante o juiz, se falei 5 palavras foi muito, arrebatando aquela “pequena máfia” que, por seus motivos fantasiosos, invejosos, cheio de soberba e desleais, acreditavam em uma vitória certa e de valor abusivo.

Virei o jogo de algo que poderia virar uma soma de sentimentos ruins e entendi que o inferno, este que reside dentro de cada um de nós e se manifesta a quem permitir, não é capaz de ludibriar o Universo. Vitória aos justos e uma percepção mais apurada dos sinais do Universo. Que crise dos 40 anos, minha gente?

Crise dos 30, crise da meia idade, são manifestações de quando a gente olha para trás, olha para o presente e pensa: que futuro é este que estou construindo? As vezes elas são inevitáveis e nos colocam a questionar os por quês de estarmos depositando tempo, energia e vida em determinados pontos, ocupações e projetos que – plim – perderam o sentido.

Quantas pessoas que, ao atingir a faixa dos 40 anos, resolvem abandonar o corporativismo para buscar algo mais suave e encantado em meio a natureza? Ou homens casados com suas esposas e com filhos, no íntimo gays e que se deparam com uma necessidade (quase) vulcânica de largar todo modelo construído para começar uma outra jornada?

A avó do Gabriel é prima de primeiro grau da Monja Coen. Em uma reunião familiar no sábado passado – outra normatividade que eu entro ou não entro e se entro não faz mais sentido nenhum pra mim algum tipo de chamariz sobre a minha homossexualidade – Dona Emília passou um bocado de tempo contando a história da Coen.

A mulher foi de um pólo ao outro, literalmente. Do “sexo, drogas e Rock’n’Roll” para o semblante que muitos de nós conhecemos hoje. Esse movimento emblemático ilustra bem essas tais crises, que podem vir em formato de manada para alguns ou conta-a-gotas para outros. Pode doer, pode dar algum prazer. Mas normalmente dói e querer fugir desta responsabilidade tende a fazer doer mais.

Aceitar e respeitar as crises, sejam as que forem, advindas de morte, rejeição, falta de grana, conflitos, nos garantem uma vida mais leve. Aceitar e respeitar não quer dizer que elas não virão, mas é a maneira que lidamos com elas que pode fazer toda diferença. Agradeçam por suas crises. São a partir delas que podemos nos tornar pessoas maiores ou, no mínimo, diferentes do que somos hoje.

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