As novas gerações gays

Mensagem as novas gerações gays e nem tão gays assim

Como costumo dizer e reforçar: namorar com gays mais jovens do que eu – fora a natural atração determinada há anos – me permite ter acesso a um olhar sobre o mundo diferente, embora as emoções, a natureza de carne e osso e a nossa conexão com o prime Homo Sapiens permaneça intacta ou, quiçá, imexível.

Para dialogar com as novas gerações de jovens gays faço uma trajetória no tempo e deixo registrado aqui que, um dia, já fui também alguém vivendo de potencialidades, daquele contexto de que sonhos ainda estavam para se realizar. Já fui dependente de pais e, durante os 3 primeiros anos, minha primeira empresa não gerarou lucro nenhum ou, talvez, o mínimo de retorno para bancar as contas básicas.

Mas o mais importante é que, como gay, jovem e descendente de japoneses, assumido gay apenas – e somente apenas – com 23 anos, fato que me honra bastante hoje, eu também fiz parte das expectativas de adultos com aquele discurso global de que “o futuro da humanidade está nas mãos na mentalidade desses jovens que estão chegando”. E vou dizer: a cada geração o jovem vai ouvir, em maior ou menor grau e certamente por meio da web e outros adultos, esse tipo de discurso. Esta roda tem girado no mesmo lugar há bastante tempo e existe uma fé (naturalmente inexplicável) que vai apontar certas responsabilidades de mudança para aqueles que virão.

Então, relaxe um pouco com isso.

Fiz parte de um grupelho de alunos da ESPM – instituição mais conservadora do que liberal – eu, dito “de esquerda”, mesmo sabendo que, como bem define Rita Lee e me aproprio, sou “um ex-hipponga com o pezinho no Imperialismo”. Assim, assumindo esse posicionamento, caí nas marés do 3o. setor, fazendo parte daquele grupelho que – a época do primeiro ano do governo Lula – começou a ampliar a consciência social, de igualdade, entre outros conceitos que – hoje – é de domínio para muita gente.

Em 1999, o termo ONG, por exemplo, era uma palavra que as pessoas estavam aprendendo a se acostumar. De lá para cá, vieram novas ideias como a Sustentabilidade, economias sustentáveis, dentre outros que cantam e encantam aos velhos e novos ditos “de esquerda”.

Dentre tantos assuntos que a humanidade (e não somente o Brasil) precisa desenvolver para uma consciência social mais igualitária, não poderia deixar de citar que me tornei empregador. Me tornei sócio de cinco outras pessoas que tocam, hoje, duas empresas diferentes e foram sociedades em épocas que os mesmos cinco nada tinham de empreendedores. Em ambos negócios estive presente em torno de 3 anos e, assim, por mais que a maior parte do louro seja deles ao passar dos anos, não deixa de ser uma vaidade manifestar a ideia de que o embrião (da cultura, da maneira de pensar e do tipo de visão para desenvolver empresas) se formou sob a minha tutoria.

Mas atuar ao lado do 3o. setor durante anos, ajudar a criar líderes de empresas e empregar não me bastaram nesta inquietação que é a própria vida. Foram, de certa forma, participações pontuais com começo, meio e fim. Foi aí que, inicialmente sem propósito, surgiu o Blog Minha Vida Gay. Levando um conteúdo variado sobre os mais diversos temas da homossexualidade, comportamento, sociedade, cultura e política, pipocaram manifestos sobre colaboração e “luz” de gays, bissexuais e outras variantes que chegam na casa das centenas. A partir do MVG, encontros pessoais sem compromisso trouxeram mais alguma luz para um punhado de pessoas que, posteriormente, tornaram-se meus amigos.

Por fim, profissionalizei esse tipo de tratamento por meio de processos de Coaching e atuo hoje assim.

Outra mensagem que eu gostaria de deixar no post ao público que se prestar a ler, principalmente para as novas gerações gays (e não tão gays assim) é que uma parcela de atenção ao social – seja a que for – doação, voluntariado, serviços à comunidade, textos de inspiração e incentivo, independem de partidos políticos ou recursos financeiros. Depende, basicamente, de tempo a se doar com a intenção – e somente a intenção – de trazer algum tipo de bem a alguém. É algo muito mais relacionado a uma conscientização que acaba por transcender a autoimagem, currículos ou afins e, talvez, esteja muito mais voltado ao encontro de uma completude, de um tipo de paz e – quem sabe – da espiritualidade do que qualquer outro motivo.

Ajudar a alguém próximo (ou distante) não coloca de lado a nossa própria necessidade de ser ouvido ou confortado. Pelo contrário, acaba por ajudar a preencher as nossas próprias lacunas.

Longe de mim fazer deste texto um discurso religioso e que seja julgado, então e no máximo, como um discurso filosófico.

Eu posso afirmar, como gay, oriental, filho, tio, empresário, empregador, amigo e namorado – um cara de 41 anos com as virtudes e defeitos que cabem ao meu tempo – que, apesar da vida ser uma eterna gangorra e que o estado de felicidade transite entre o tédio, apreensão e a tristeza (para todos), são as nossas intenções positivas para com os outros, por mais que a gente acredite que algum outro não tenha positividade nenhuma para retribuir, que fará o Universo reinvidicar a nosso favor.

Stephen Hawking, muito antes de ir este ano, envolto de projeções catastróficas, já havia deixado algumas declarações da impossibilidade da física de negar Deus. Pois bem, Deus ou Universo, minhas crenças estão muito mais relacionadas ao olhar da ciência do que a um apego ao culto.

Não sou milhonário e talvez nem tenha esse tipo de ambição. Mas posso afirmar que tudo que eu quis ou quero fazer com a minha vida sou capaz de realizar e, não tenho dúvidas, que as intenções das ações são influentes o suficiente para que o tal Universo me ajude a alcançar os meus sonhos. As intenções internalizadas, no final, valem qualquer julgamento alheio, sabendo que o julgamento exterior é a necessidade do outro se esquivar de alguma (própria) falta.

Por essas e outras fica outro recado: parem de perder tempo, energia e vitalidade para tentar mudar os outros antes de mudar a si. As dores do mundo são de responsabilidade de um paradoxo: de todos mas ao mesmo tempo de ninguém. Não é curioso?

Neste paradoxo, sobra apenas você, as suas necessidades, as suas vontades, demandas e a sua própria busca de consciência de mudança interior para, depois, uma capacidade, uma energia e uma segurança de transformar o seu entorno. Não espere o outro te aceitar antes de se aceitar. Não espere o outro te abraçar antes de você abraçar. Não espere o outro sorrir antes de você sorrir. Não cobre a empatia alheia antes de você realmente entender essa palavra e praticar. Não trate a empatia como moda vigente e, sim, como algo a ser exercitado por toda vida e, para inclusive, ser utilizada a sua maneira. Não espere a pessoa que você gosta reagir se você antes não agir.

Não espere.

Esperar = expectativa. Nos coloca em uma posição muito confortável.

Fico parado, apenas vendo o movimento: assim você detém o poder do julgamento. Julgando, você acredita que o outro julga e isso pode ser um tanto vicioso.

Saio do lugar, passo a atuar junto a aqueles que se movimentam: assim, você detém o poder da autoria. Não tem muito tempo para perder com fofocas.

Saio do lugar, passo a atuar mas as coisas não vêm rapidamente: assim, você está dominado pela ansiedade. O mundo não vai girar na velocidade que você ordena.

Existe um fosso entre a realidade e a expectativa, muitas vezes.

“Quando você muda, o mundo muda”.

Que isso se torne um mantra.

***

Esses dias ouvi que as novas gerações são mais sensíveis e mais cobradas.

Questionei os motivos de se sentirem assim.

Ouvi como uma das respostas o bullying.

Não acho.

Ouvi como uma das respostas o excesso de informação.

Não acho.

Ouvi como uma das respostas a ausência dos pais.

Quem sabe?

Substuir a presença por presentes ou atividades não é amor.

Substituir a presença por ausência não é amor.

Substituir por atividades, presentes ou ausência é a mesma coisa.

Achar que permitir tudo é o must na educação não é amor (Içami Tiba que o diga).

Educar é um sacerdócio complicado.

Sou tio de três e tenho acompanhado isso de perto.

Certa vez, quando minha cunhada só tinha a minha sobrinha ainda, ela me questionou o por quê de eu não querer ter filhos.

Respondi que eu precisava ser muito responsável para isso. Que qualquer manifesto meu poderia educar ou deseducar, em um mundo com tantas variantes, opiniões, tendências e julgamentos.

Ela comentou: “ah… ninguém pensa nessas coisas”.

Eu penso.

Possivelmente, hoje, ela pense como eu penso.

***

Ela sempre foi em prol a minha homossexualidade. Adorou quando soube que teria um cunhado gay.

Mas meu irmão chegou e disse a ela certo dia: “ia ser legal se o Tim Tim fosse gay” – se referindo ao gêmeo que desembocou por último e que tem traços mais delicados e é mais emotivo.

Ela: “ai, por que você está pensando assim do seu filho? As pessoas não pensam assim dos filhos”.

Meu irmão pensou! Sem querer e com a emoção nos olhos neste momento, meu irmão aprendeu:

“Meu filho pode ser gay e pode ser hétero e tanto faz. Ia ser legal se o Tim Tim fosse gay”, ele reforçando isso para mim com a maior naturalidade do mundo, enquanto lavava a louça.

Daí brinquei: “olha que sendo univitelinos, os dois poderão ser, hein?! Ah ah ah!”

O que eu achava que poderia ser um futuro, na minha vida é hoje.

Embrião.

“Quando você muda, o mundo muda”.

Que isso se torne um mantra.

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