Tanto faz se você é gay ou hétero

Quando para os pais tanto faz ter um filho gay

O último post termina com este relato pessoal: meu irmão, pai de uma menina de 3 anos e de dois meninos gêmeos de 5 meses disse a mim, espontaneamente, que tanto fazia se seus filhos fossem gays ou não.

Na realidade, ele comentou para sua esposa que gostaria, inclusive, que o mais novo dos gêmeos (que saiu do ventre por último) fosse gay.

O cenário ilustrado neste caso já fez parte do meu imaginário, inclusive em um dos posts transcritos por aqui: quando para os pais tanto fizer o filho ser heterossexual ou gay, culturalmente instituído, nosso entendimento de “ser gay” com as nuances, problemas, virtudes, necessidades autoafirmartivas e fantasias, possivelmente, seria totalmente outro.

Pais que normatizam a sexualidade, no sentido do “tanto faz ser um ou outro, ou ser o que for de interesse” tornaria a nossa vida bastante diferente, o que não quer dizer – particularmente – isenta de problemas, no momento em que o ser humano, por natureza, está sempre inquieto com o estado vigente das coisas.

Mas, sim, os problemas seriam outros.

Problemas e soluções que, talvez, eu poderei acompanhar em algum nível durante o processo de educação e desenvolvimento dos meus sobrinhos.

Minha terapeuta lançou algo que não era perceptível a mim: “é natural que pais pensem sobre isso, a sexualidade dos filhos. Seu irmão já está elaborando a respeito e exteriorizou a você a maneira que ele lidará com a homossexualidade, no caso”.

E pelo visto, sua postura diante da sexualidade do(s) filho(s), se conclui na frase que ouvi dele, com a maior naturalidade: “Meu filho pode ser gay e pode ser hétero e tanto faz. Ia ser legal se o Tim Tim fosse gay”.

Em que medida houve a minha influência para meu irmão chegar nessas definições, talvez, não seja necessário desvendar. O que vale é o resultado, a normatização de meus sobrinhos que nascem em um berço onde ser gay é como ser heterossexual.

O resultado, enquanto levei alguns anos da minha vida para conquistar uma naturalidade em relação a tudo ou quase tudo que gira em torno do fato de eu ser gay, me livrando de autoafirmações, arquétipos, esteriótipos e uma busca juvenil de identificação com modelos, representações e tipos, meus sobrinhos tendem a levar esta naturalidade desde os primeiros ímpetos de consciência e, não somente isso, possivelmente terão o acolhimento natural da família, livre das fantasias sobre rejeição neste aspecto. Não terão que passar por situações como: “meu filho, eu vou continuar te amando do mesmo jeito” ou “filho meu é homem. Que decepção eu tenho de você”.

Claro que essa transformação na cultura de uma família ainda é atípica e minha própria teraupeta lidou com estranheza, nos primeiros minutos do relato, a postura do meu irmão, até ela refletir sobre meu raciocínio. Não foi algo natural, imediato. A realidade no sentido da maioria, ainda, por mais que tenhamos amigos incríveis, é que “o fulano pode ser gay, mas eu vou estranhar se meu filho for”.

Estamos falando de uma transformação cultural. Fica aqui o relato verídico cujos desdobramentos estarão por vir. O mais importante é que já começou.

***

Conversando rapidamente com a minha mãe hoje, sobre um assunto correlato, falávamos sobre a histeria que certos representantes populistas provocam nas pessoas e como, diante de seus discursos inflamados ou radicais, o quanto o ser humano, no geral, entra num processo fantasioso-neurótico de retrocesso ou pavor. De um lado os Comunistas. Do outro os ditadores. Logo em seguida questionei a ela:

– Mãe, me diz a sua opinião: o que eu já conquistei em relação ao fato de eu ser gay com você, com o pai, com o meu irmão e todos meus amigos que mantenho perto, enfim, com o mundo que gira a minha volta, vai se transformar por causa desses líderes aí, seja de esquerda ou direita, porque eles tem opiniões retrógradas sobre gays?

– Claro que não. O que é aprendido e apreendido não se muda por influências assim. Nem mesmo seu pai que demorou mais tempo para entender…

Pois bem. Acredite quem puder. Estou mais interessado no resultado da minha relação com meu irmão do que no discurso absoluto sobre as incertezas.

1 comentário Adicione o seu

  1. Dhiego Borges disse:

    Quando decidi contar a minha mãe sobre mim, eu meio que senti dela varias coisas. Primeiro o fato dela ter ficado com medo do resto da familia saber e isso por minha sgeurança em risco e tambem a propria inaceitação dela perceptivel epla frase”Não criei filho para ir pro inferno”.
    Não foi algo facil e ainda hj não é, mas esta bem melhor. Eu acredito que ainda vai melhorar essa questão de tanto faz ser gay ou não, mas tambem isso ja melhorou um pouco. O que resta é manter a esperança que as proximas gerações não tenham que passar por essa dificuldade que a nossa tem passado.

    Abraço forte! (^^,)

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