Perpetuação das espécies

O olhar da Biologia é interessante pois, quando realmente aplicado, tira o antropocentrismo da frente. A natureza não julga, já que o ato do julgamento é ação ou reação de alguma consciência humana de si. Mas se ela o fizesse, julgasse ou enxergasse, ou algo do tipo, não veria distinção entre um homem, uma pedra e um cocô de pomba. Ao “olhar” da natureza, o homem, a pedra e o cocô de pomba fazem parte de um mesmo complexo de energia – pura – átomos, prótons, elétrons, neutrinos e assim por diante. Energia, sem romantismo porque, novamente, quem bota romance é o homem.

Quem aprendeu a metabolizar valores, sentidos, conceitos, regras, protocolos, dentre tantos outros para dar alguma ordem para a sociedade fomos nós, Homo Sapiens, a partir de instintos e características herdadas de nosso último ancestral. E tais reflexões reverberam da obra de Yuval Noah Harari, autor do livro Sapiens.

Não são propriamente achismos de quem escreve este post.

Regras, protocolos e padrões. Ser heterossexual, ainda hoje, está contido nesta maioria. A dúvida de “por que eu sou hétero?” para quem é hétero, não existe e não tem sentido manifestar. Dúvida, a gente leva para aqueles outros jardins, daqueles que não fazem parte do normativo.

Não fazer parte do normativo, também me afasta das reflexões corriqueiras ao normativo: foi um tipo de surpresa, quando a minha psicóloga me contextualizou que é normal pais (héteros) pensarem a respeito da sexualidade dos filhos – referindo-se a este tema quando eu comentei a ela que meu irmão, pai recente de três filhos, disse a mim, espontaneamente, que tanto fazia seus filhos serem gays ou héteros e que existia uma vontade de que um deles fosse gay (“gay” mesmo, porque até o politicamente correto de pronunciar “homossexual” não me pertence e meu irmão sente isso).

Ser “tanto faz” é diferente de aceitar ou rejeitar, se por ventura o filho se manifestar homossexual em algum tempo. Ser tanto faz é passar mais distante de qualquer situação do tipo: “eu já sabia e vou continuar te amando de qualquer jeito (por você ser diferente)” ou “que desgosto, saia já de casa”. Ser tanto faz é elevar a compreensão e a consciência da homossexualidade ao nível da heterossexualidade: inquestionável.

Neste mesmo momento em que meu irmão revelou esse posicionamento, refletindo sobre a sexualidade de seus filhos, veio o mais do mesmo da caixinha do WhatsApp que contém meus amigos e colegas da faculdade mais próximos. Nesses dias, o Temer esteve na ESPM para participar de alguma apresentação por lá e é claro que teve pimenta na caixinha. Um de nossos amigos é professor da faculdade e foi questionado sobre tal visita.

Me incomodou. Me incomodou a masturbação, eu que – diante todo contexto social e político – assumo uma posição de bronca ao populismo e ao intrínseco teor maniqueísta que o populismo suscita. Estou aguardando a hora da louvação a Ciro Gomes ou Boulos, dentro da caixinha, para eu pular fora dela.

Resolvi tirar meu amigo da saia justa e aproveitei para levar o tema “Pais que aceitam seus filhos gays”, em um insight oportuno e correlato ao momento em que vive meu irmão, ciente de que uma grande maioria dos pertencentes à caixinha optaram por seguir a cartilha mais conservadora e tradicional.

Poucos se manifestaram e os que se manifestaram diante meu questionamento responderam, em um primeiro momento, conforme dita o sistema operacional: se autoafirmaram para mim, demonstrando aceitação a minha orientação. Não satisfeito com a resposta, reforcei: “ok, eu estou bem resolvido com vocês e comigo. A pergunta não foi essa: eu quero entender de vocês, que são pais héteros, se a sexualidade de seus filhos tanto faz. Tanto faz se for gay, se por ventura for trans ou qualquer outro rótulo que possa surgir. E não precisam me responder. A reflexão é essa, diante nosso contexto social e político” – em resumo, foi exatamente essa a minha intenção pois, na boa, eu realmente não preciso de respostas.

O fato é que, depois que reforcei a pergunta, o bug no sistema operacional anterior já tinha me respondido: não é fácil tratar de uma potencial homossexualidade, quando em vias de fato, aponta para o jardim do Homo Sapiens.

Como bons brasileiros, rapidamente o teor mais sério do assunto foi tomando espaço para as piadas. E tudo bem!

Cara de pau, o tipo de “invasão” o qual me permiti, de colocar em conteste certas doutrinas as quais meus amigos optaram, reforça para mim a maneira que devemos exercer política: em nosso entorno. É inevitável, embora eu não faça a mínima questão de saber os detalhes, que meu irmão passa a assumir o “tanto faz” a partir de alguma percepção sobre mim. E este é o tipo de política que me faz crer em resultados práticos.

Ora, os contidos na caixinha do WhatsApp, na maioria, são formados em marketing, este braço forte do Capitalismo que vira-e-mexe é colocado como vilão pela ala “de esquerda” pertencente a mesma caixinha. A mesma ala que, vira-e-mexe, projeta suas frustrações mais ordinárias nos inimigos como Temer e suas louvações a tipos como Ciro Gomes, nesta necessidade (humanamente) primitiva de reverenciar divindades e confrontar argumentos apontando o dedo para terceiros ou quartos.

E o próprio umbigo, está higienizado? A autoimagem “do cara de esquerda” abarca o “tanto faz” se o ponto for a sexualidade das crianças do próprio jardim?

O silêncio da maioria, no caso, não diz respeito a um consentimento. Custamos para entender nos últimos anos, mas muitos captaram que não adianta ficar tratando política como partida de futebol. A época, publicamos nossas verdades absolutas, nossos ranços emocionais perante o outro lado e depois calamos.

Sobre a minha faculdade de marketing que forma, ora bolas, marketeiros > que convidou Temer e sua oratória > que sempre foi mais conservadora do que liberal > e que devido a isso, também, não deu nenhuma liga para que os gays da minha geração se assumissem a época, não está fazendo nada mais, nada menos, do que dar continuidade a cultura do neoliberalismo. Qual a novidade, Brasil?

Ao mesmo tempo, como bem disse meu ex-namorado Bruno, num jantar que realizamos para updates de vida ontem mesmo, a minha querida ala “de esquerda” da ESPM está “perdidinha”. Bruno está casado com um rapaz que convive, somente, com a “bubble de esquerda” e tem bastante referência para afirmar.

Quando a chuva cai no lote do Homo Sapiens, é difícil manter a autoimagem e o discurso acolhedor, das rosas e das poesias de Chico Buarque, mesmo com Bia. O tema, “pais héteros que naturalizam a sexualidade e/ou a identidade de gênero do filho”, sugere ainda um tipo de trincheira difícil de ultrapassar até mesmo para os mais icônicos esquerdistas da minha turma. Não é à toa que “a ala” esteja perdidinha e, talvez, silenciosa. Ninguém vai querer expor certa hipocrisia e tudo bem também. Em alguma medida, essa esquerda é vítima da própria cultura do “politicamente correto” pulverizada pela própria.

A cartilha doriana é outra Constituição que, pela natureza da própria Natureza, merece boas mudanças. E tal tema, graças ao bom Universo, passa mais longe do bandido do Capitalismo, o que me poupa um pouco da tradicional e irritante masturbação política.

Eu, particularmente, não preciso de respostas. Não sou eu que vivo de questionamentos e expectativas em relação a perpetuação da nossa espécie, da continuidade ao sobrenome, do time do futebol e etc., etc. e etc.

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