Não é porque eu sou gay…

O Minha Vida Gay completa 7 anos!

Não é porque eu sou gay – vou comemorar com um post mais acessível, revisitando o primeiro vídeo daquele trio de gays que fez sucesso no YouTube (pasmem, esqueci o nome do programa!). Ah, sim… Põe na Roda! rs

A brincadeira do “Não é porque eu sou gay…” acaba por ficar com um jeitão de MVG:

Não é porque eu sou gay que preciso ser mais querido (ou obviamente odiado). Quantos pais ou amigos supervalorizam (ou nos protegem) para além da conta, pelo fato de sermos gays? Na casca, isso parece ótimo, humano ou empático (palavrinha que entrou na moda na mesma velocidade que saiu). Eu quero que as pessoas gostem de mim pelo pacote completo e não por um ponto que, justamente, a sociedade me diferencia. A “luta” não é por uma igualdade? Privilégio não está contido na igualdade.

Não é porque eu sou gay que eu preciso necessariamente me identificar, por exemplo, com Ru Paul e documentários como “Dream Boat”. Mesmo porque gênero e sexualidade são assuntos separados. Convivo naturalmente com quem se identifica, mas tenho certa cautela com um tipo de ditadura que diz: “se você não gostar dessas ‘tendências’, você está fora de um clubinho”. Posso, por exemplo, além de desejar o Thor do Avangers, me identificar com ele ou quem sabe até com o Harry Potter e estará tudo bem com a minha homossexualidade.

Não é porque eu sou gay que eu não possa adotar algumas lições vindas de uma religião, como o Cristianismo. Não vamos esquecer que a base cultural nacional é fundamentada no Catolicismo há mais de 500 anos e, hoje, intensamente influenciada pela religião Evangélica que é igualmente uma vertente Cristã. Inclusive, não houve na história contada por aqui alguém mais empático que Jesus Cristo. Se alguém exerceu da tal da empatia foi ele. Ou pelo menos é o que conta a história. Assim, embora particularmente eu relute um tanto, com alguma consciência, sobre essa influência, pensamos e agimos como Cristãos sem nos darmos conta.

Não é porque eu sou gay que eu preciso ser masculinizado ou afeminado. Embora, a mim, esse tema seja clichê e exaustivamente comentado nas “rodinhas” por aí, inclusive aqui no Blog, sobre os méritos e deméritos de ser assim ou assado, a expressão de gênero não tem correlação direta com a sexualidade. Tenho amigos heterossexuais que se expressam de maneira mais feminina, assim como amigos gays que estão longe de apresentar feminilidade.

Não é porque eu sou gay que estamos isentos de exercer o preconceito. Pelo contrário: o gay que vive mais colado aos arquétipos e esteriótipos, ou até mesmo aqueles que se encantam mais pelos padrões midiáticos, têm como hábito (ou cultura) negar outras etnias, a não ser aquela pintada e pulverizada pelo Renascimento: branco, loiro ou moreno de pele clara. “Sou amigo de fulano, que é oriental. Mas orientais não me atraem” – já assuntei por aqui que este “jargão” é bastante aceito, pronunciado e normatizado. Porém, internaliza a segregação/divisão/exclusão em algum aspecto pela etnia.

Não é porque eu sou gay que a minha vida toda precisa girar em torno das questões da minha homossexualidade ou que eu deva ser um ativista perante a causa. Embora para muitos – principalmente aqueles ainda não bem assumidos ou resolvidos – o tema esteja pulsando forte no radar, outros tantos atingem um nível de normatização/naturalidade quanto a própria homossexualidade. A gente costuma lembrar que é gay em ambientes sociais ou quando estamos nos relacionando em algum nível com um terceiro. Mas não querer viver desta neurose é tudo questão de mindset. É totalmente possível nem lembrar que se é gay e este ponto apagar do próprio radar.

Não é porque eu sou gay que sou obrigado a assumir um tipo de “personagem”. Muitos amigos, principalmente pelas redes sociais, buscam positivar a própria autoimagem explorando o ponto da homossexualidade. “Fãs de gays” há aos montes hoje em dia e basta a gente expor um porte físico atraente, um rosto ajeitado, que nos vendemos conforme dita o protocolo da ditadura da estética, conhecida, debatida e etc., etc., etc. Mas não é porque eu sou gay que, mesmo com atributos físicos e um rostinho O. K. eu tenha que entrar na osmose. O ser humano, independentemente da sexualidade, tem a oportunidade de expandir inúmeros potenciais além do físico. Cabe cada um se propor a tal, afinal, até para manter a beleza é necessário esforço.

Não é porque eu seu sou gay que eu sou necessariamente de esquerda e tenha que erguer a bandeirola para tipos como Jean Wyllys. Independentemente da minha posição política, é de ciência geral, hoje, que existem gays mais favoráveis ao Bolsonaro, por exemplo. Ou ao Temer. E muitos que se deparam com essa realidade, tendem a manifestar o mesmo tipo de inconformismo: “não consigo entender como um gay pode ser a favor de alguém como o Bolsonaro”. O “não consigo entender”, na realidade traduz um verdadeiro “não quero entender”. Assim, não é porque eu sou gay que eu estou sempre aberto às diferenças, as aparentes constradições, complexidades e subjetividades humanas. Há gays que são radicais, seja o lado que for. Pessoalmente, eu sou a favor de uma desenvoltura para abarcar as diferenças.

Pode parecer infantil ou redundante voltar a este ponto, mas não é porque sou gay que preciso ser cabelereiro, dançarino, artista, designer, professor ou arquiteto. Apesar da infantilidade do tema, essa ideia corre solta no imaginário de muitas pessoas ainda, gays e heterossexuais.

Não é porque eu sou gay que eu preciso que terceiros, heterossexuais no caso, fiquem autoafirmando a mim a aceitação. Aceitar um terceiro, amigo, é muito mais simples do que, por exemplo, elevar a homossexualidade ao nível da heterossexualidade, no sentido de “tanto faz” ser gay ou hétero, quando o assunto é a própria prole. Tenho trazido sobre este tema, aqui no MVG, justamente porque sou tio recente e uma grande maioria de amigos se tornou mãe e pai recentemente. O movimento, se é que eu possa dizer que sou uma espécie de ativista, há de transcender as próprias zonas confortáveis do lugar comum. Uma das maneiras de não se produzir mais homofóbicos ou potenciais jovens gays complexados, aponta para os brotos que estão germinando hoje. Uma coisa é o filho hétero ter uma consciência e uma responsabilidade de nivelar sua compreensão a respeito da homossexualidade alheia. Palmas para ele e os pais já têm produzido crianças assim há algum tempo. Outra coisa é o próprio filho ser gay ou se identificar com um outro gênero, diferente daquele o qual – normativamente – se estabeleceu pela cartilha.

7 anos de Minha Vida Gay é combustível suficiente para mais 7 anos. Não fosse o movimento orgânico e natural da sociedade, que jamais ficará no mesmo lugar e – talvez – não fosse meu olhar antento e curioso sobre estes mesmos movimentos, não existiria este blog.

O nome Minha Vida Gay, como já acentuei em outros posts, não me atende mais, particularmente. A bem da verdade, quando segmentamos alguma coisa como gay, vida gay, balada gay, namoro entre gays, contos gays, entre outros, praticamos de uma segregação. Apertamos as paredes e prendemos justamente aquilo que gostaríamos de ver mais solto. A minha vida, no decorrer destes 7 anos, começou mais emparedada e hoje não enxerga mais propriamente as barreiras que muitos ainda notam a frente.

É por essas e outras que a sigla MVG me agrada muito mais. Porque MVG pode ser o que o leitor quiser.

PS: mais de 2 milhões de visualizações. Mais de 1 milhão de visitantes. Como costumo autoafirmar as vezes, para um blog de textão e que não tem intenção nenhuma de monetizar, está de ótimo tamanho! :)

2 comentários Adicione o seu

  1. Cara, muito obrigado! Eu comecei a te acompanhar em 2012, lendo teu blog eu decidi fazer o meu para falar da minha vida. Claro que com o tempo, eu não tive mais forças para continuar. Mas é incrível a qualidade com que escreves e a qualidade do que escreves. Quero te agradecer por todos esses anos que venho acompanhando tuas postagens, tu és demais!

    1. minhavidagay disse:

      Muito obrigado querido Ricardo!

      A frequência de textos caiu porque os temas saturaram um pouco para mim. Fora que tenho encontrado outros meios de expressão. De qualquer forma, o blog não deixará de existir. Sempre que pintar um tema que eu sinta que caiba aqui eu vou trazer!

      Agradeço muitíssimo esse tipo de fidelidade! Agradeço também a gentileza pelas palavras!

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