Gerações gays

Gays que eram jovens nos anos 80, 90, 2000…

O convívio com meu namorado, além de entender um relacionamento como um mundo de nuances, detalhes e aprendizados, trouxe também um convívio mais frequente com seu tio gay, casado há mais de uma década com o marido.

Coloque para conta o Gabriel, nascido em 1995, eu – nascido em 1977 – e seu tio que hoje está entre os 50 e 60 anos e a gente tem aqui, no Minha Vida Gay, retratos bem interessantes de como essas “dimensões”, com o passar dos anos e conforme a sociedade vem se configurando em tempos diferentes, influenciam mais ou menos as nossas vidas.

Não vou entrar muito nos motivos psicológicos e de personalidade que nos fazem assim ou assado e vou detalhar mais a maneira que nos apresentamos ao mundo, mesmo porque costumo dizer que o mundo gira da maneira que a gente acredita. Então, mais do que influências externas, somos o que somos devido a nossas exclusivas escolhas.

Então, vamos lá:

O tio do Gabriel viveu a maior parte de sua vida na “vida louca”. Posso afirmar com todas as letras que ele é a verdadeira representação da palavra gay, que literalmente significa alegre, feliz. Foi sossegar (mesmo) somente quando conheceu seu marido e, pelas conversas que peguei com o canto de ouvido, dele mesmo, até então era ferveção.

Toda vez que eu o encontro, me pergunto de onde ele tira tanta energia para se apresentar daquele jeito, meio palhaço, cheio das gírias e trejeitos que sugerem o arquétipo, das frases impactantes, dos rebolados e das graças e que, dificilmente, não entretém e não diverte. Já dei altas risadas com ele.

O tio do Gabriel passou por todo processo de aceitação familiar que, como a época sugeria, tinha um “não aceito, não concordo” bem determinado e que duraria anos para se reverter. Não que a negativa não continue em alguns lares, mas é inegável que as coisas mudaram, principalmente nas grandes capitais.

Ele viveu os anos áureos do rock nacional e internacional com a presença marcante de Cazuza, Renato Russo, Freddie Marcury e beldades globais como Lauro Corona. Todos esses, representantes homossexuais, tiveram a AIDS como divisor de águas em suas vidas, época em que a moléstia era tida como “doença dos gays”.

Não foi diferente para o tio do Gabriel e seu marido que, graças aos medicamentos modernos, se mostram hoje totalmente assintomáticos.

Ele esteve na primeira Parada Gay que aconteceu em São Paulo. Rapidamente me contou que, naquela época, a meia dúzia de gato pingado que se juntou na Parada, acabava por se fantasiar e se travestir já que, no dia seguinte, teriam que lidar com suas obrigações e responsabilidades perante a sociedade. É interessante que eu conheço pelo menos uns três que foram na primeira Parada. Cada ótica é uma totalmente diferente da outra.

Conviver com o tio do Gabriel é divertido. E ele faz a linha fun 90% de seu tempo. Será que por trás dos grandes palhaços se enrustem as durezas mais profundas? Talvez…

***

Gabriel vai fazer 23 anos e, curiosamente, é do signo de escorpião e comemora no mesmo dia de aniversário do meu pai.

Ele diz que sofreu bullying na escola pelo fato de carregar uma expressão gay desde novo. Mas diferente de muitos rapazes os quais me relacionei, mais velhos do que Gabriel, a maneira que se manifesta os possíveis traumas é diferente da maioria (pelo menos daqueles que me relacionei).

Ele não faz a linha ativista como tantos que carregam as durezas da época estudantil fazem. Ele não é do mi-mi-mi, da linha vítima e dos melindres por ter passado pelas mesmas situações que tantos jovens hoje passam, sob esse termo moderno, mas de fato que sempre existiu que é o bullying.

Um dos motivos positivos de estar com o Gabriel é que, desde que eu o conheço há quase 6 meses, a gente não lembra que é gay. E isso, talvez, faça toda diferença para um relacionamento progredir. Gabriel é um exemplo do jovem bem resolvido – quando o assunto é a homossexualidade – que nasceu em um contexto familiar cujo tio foi a primeira “trincheira” para lidar com todos conflitos e reações contra aquilo que não era normativo a época.

Gabriel é gay, sempre foi, mas essa palavrinha e todo discurso possível que possa se emanar dela, não vira assunto entre nós. Nossas questões atuais, em 6 meses de relação – que é um marco de durabilidade a ele e é o prefácio da história para mim – giram em torno de outros assuntos. Por exemplo, estamos notando hoje como vamos agir perante as nossas diferenças, já que a intimidade começou a se estabelecer e estamos enxergando que somos bastante diferentes. Gabriel é mais conservador e de estilo “clássico”, se assim posso nomear.

As preocupações individuais dele são outras: como a maioria dos jovens de uma geração de classe média atual, ele presa os estudos, o trabalho e o futuro que estes dois pilares podem oferecer a ele. Suas autoafirmações juvenis se concentram basicamente nestes temas.

É um menino vidrado em games, não pelas plataformas conhecidas como Playstation, Xbox ou Nintendo Switch. Ele é da geração do tal “PC Game”, cujos emuladores permitem o acesso a todos os jogos, de todas as plataformas no mesmo computador.

Uma habilidade que Gabriel tem é saber conversar. De tudo. A ponto de, em quase 6 meses, nenhum tipo de debate ter virado briga, ofensa ou melindre. É ciumento mas não descontrolado. Isso faz uma baita diferença.

Dizem que escorpião e áries tem formas parecidas de lidar com as coisas. Talvez esse seja o sorvete de nossa história, embora ele – muito mais do que eu – tenda a acumular um cardápio de questões para trazer tudo ao mesmo tempo! Escorpião guarda. Mas não por tanto tempo.

Ele carrega uma visão mais pessimista das coisas. Talvez pelo fato ser da geração digital que teve acesso a tudo pela tela e, que assim, acaba perdendo um pouco da ingenuidade, daquela que a minha geração tinha por não ter a acessibilidade ao mundo que se é possível hoje. Ele enxerga os problemas do universo de uma maneira mais abrangente, um tanto quanto diferente quando eu tinha a mesma idade, embora na mesma idade eu já estivesse me aventurando com a minha primeira empresa e estivesse prestes a assumir um casamento, de morar com o namorado no mesmo teto. Casamento.

***

Flávio é um ex-porra louca que curtia de Abba a Zappa e que, de vez em quando e para sempre, libera o gay que nele reside. Hoje, já não se autoafirma para quase nada. Mas precisou se autoafirmar em diversos níveis e aspectos. Frequentou diversas baladas, saunas e festas. Já bebeu bastante de perder a caixa preta e, sobre drogas, só não utilizou aquelas que geram uma dependência mais imediata.

Gabriel morria de insegurança para saber se Flávio e se o tio iriam se dar bem. Tio invasivo, agitado, “bichona”, cheio das frases de efeito e uma tirada na manga a toda hora. Na cabeça do Gabriel não daria certo com o Flávio que é hoje, empresário, centrado, organizado, dicreto, sem expressões emocionais excessivas (para o bem e para o mal) e afeito a alguns momentos de silêncio no decorrer do dia.

Deu super certo porque, antes de mais nada, Flávio está aberto para entender as pessoas. As pessoas, não necessariamente precisam entender Flávio porque ele já chegou em um nível que não se importa quase nada com o que os outros vão comentar, pensar ou falar. Mas Flávio, naturalmente, vai querer entender as pessoas quando elas precisarem ser compreendidas. E elas normalmente precisam.

Ser vacinado de pessoas não é um movimento simples tampouco rápido. É fácil criar laços com gente que pensa como a gente. Difícil é se relacionar com pessoas de dimensões diferentes. Como Gabriel. Ou seu tio.

Mas Flávio exercita desde seus 23 anos. A natureza do trabalho, como empresário, o fez servir pessoas das 9h às 18h (na média) de segunda à sexta. Pessoas de áreas de atuação, idades e maneira de se portar diferentes. Flávio, ainda, montou um Blog (tem atualizado bem pouquinho isso aqui porque os temas realmente brilhantes – ou que ele achava que brilhavam – se exauriram) que deu acesso a milhares de casos e situações distintas, de pessoas diferentes do Brasil inteiro.

Não fosse o suficiente, teve sócios em outras duas empresas distintas.

E se não bastasse, namorou, casou, namorou de novo e namorou mais um pouco.

Flávio está acostumado com as pessoas, embora hoje foque energia no essencial e não perca mais tempo com possíveis caminhos, discussões e comportamentos que irão, definitivamente, queimar a comida da panela.

Ele, há alguns anos, tem visto seus amigos mais próximos casando, com filhos. Nessa onda, involuntariamente virou tio de três, quase ao mesmo tempo e descobriu um amor indescritível por seus sobrinhos.

Estava até agora pouco na casa de seus pais para almoçar, rotina que tem nos últimos anos, ciente que os velhos estão a caminho dos 80 e, não vai demorar muito para que eles naturalmente se desconectem do mundo.

Sua sobrinha mais velha estava lá, pequerrucha entre seus 3 e 4 anos. Ela descobriu que no tio pode trepar, bater, brincar de monstro – assim como faz com seu pai – e agora, parece que tudo está virando “o tio aqui e o tio ali”. Vovó já teceu algum ciuminho.

De amigos para todas as horas, Flávio tem pouco hoje e conta em apenas uma mão. Mas está longe de se deprimir por isso porque foi escolha e descobriu também que, nessa onda de Flávio servir pessoas, ficaram aqueles que – numa dose equilbrada – correspondem com serviços e não apenas trazem suas mazelas e lamentos. Para aqueles que precisam se lamentar ou se autoafirmar, Flávio oferece hoje um serviço chamado Coaching.

Esses dias, uma das amigas da palma de uma mão, o convidou para ir dançar eletrônico puro na D-Edge. Fazia 8 anos que ele não ia. Foi, dançou, usou os aditivos comuns a quem entra na onda da música eletrônica com tudo e, nas horas de muitos papos, na cobertura da casa, falaram todos sobre espiritualidade. Contradição? Pelo contrário: abrangência e um desapego muito grande aos signos tradicionais que determinam que certos temas precisam ser praticados em determinados templos.

Vimos o dia nascer e foi lindo.

Flávio está atento hoje a isso: sinais, intuição, autoconhecimento e mais combustível, vindo desse plano incerto que chamam de Universo ou Deus, para dar continuidade a vida.

Eu sou o meu templo.

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