a.C. e d.C.

Meus 33 anos, “idade de Cristo”, foi um marco para deixar registrado. Não sei se acontece ou acontecerá assim com todos, mas a percepção do meu entorno vem se transformando desde essa data.

Curiosamente, foram exatos 10 anos após ter iniciado minha saída do armário, aos 23. Por volta do dia 29 de março de 2010 celebrava meu aniversário, ilustrando o ápice das minhas vontades autoafirmativas como gay, microempresário, amigo, namorado, filho e indivíduo. Se eu pudesse desenhar uma curva de autoafirmação, o pico seria exatamente no dia em que fiz a maior festa que reuniu, a época, mais de 60 pessoas. Por algum motivo, ou muitos deles, convidei todos meus ex-namorados e – para a minha surpresa – todos se reuniram na mesma noite. Tenho até foto registrada de quase todos juntos (exceto um que já tinha ido embora na ocasião) para relembrar, as vezes, daquele momento emblemático.

Sempre fui de desafiar padrões e modelos comportamentais, embora antigamente fosse algo inconsciente. Manter amizade com ex, reunir ex-namorados num mesmo encontro (rs)… certa transgressão às normas de conduta, ou pelo menos, me questionar o por quê de seguir determinadas normas, sempre envolveu a minha personalidade.

Amanhã faço os 39 e, de lá pra cá, a necessidade de autoafirmar meu ego para o mundo tem se escasseado. Na realidade, noto que faz um tempo que se iniciou um movimento contrário, da busca da solitude, de eu me bastar comigo. Depois da grande festa dos 33, as comemorações dos anos seguintes foram ficando menores. Algo dentro de mim começou a mudar e, como já citei em alguns posts pelo Minha Vida Gay, minha comemoração dos 33 anos me pareceu uma despedida de parte de mim. Com 34 fiz uma festinha para uns 10 amigos e tal número se repetiu até o ano passado. A preguiça foi pendendo mais na balança. Virou uma função e deixou de ter o prazer de ser “o meu dia”, dia do ego, dia meu. Esse ano, depois de pensar algumas vezes a respeito, mais por uma certa “obrigação” de lembrar que é meu aniversário (das pessoas lembrarem por você), talvez amanhã eu jante com um amigo apenas. E no final de semana devo almoçar com meus pais.

Quem é jovem e está fazendo essa leitura, deve pensar: “ai, que triste!”. E realmente, do ponto de vista de quem vê e que não está na minha pele pode entender como algo deprimente! Eu diria, modestamente, que é um alívio (rs).

O que eu quero dizer com o post de hoje e com o post desta madrugada, é que todos nós deveríamos nos questionar – as vezes – os por quês das coisas. É um tipo de treinamento da mente que a gente acaba aprendendo ao fazer meditação, terapia ou até mesmo seguindo alguma religião (o problema da religião é que ela entrega e sempre irá entregar o baralho pronto. Se você não tiver um senso crítico mais apurado, acaba seguindo um ditado feito e não adquirido pelas próprias reflexões). A cultura de uma sociedade não deixa de ser um apanhado de padrões definidos para convívio e aceitação.

Exemplos de padrões nacionais:

  • É cultural celebrar o Natal. Embora muita gente conteste o feito “hipócrita” das reuniões forçadas de final de ano, é algo normatizado;
  • É cultural a celebração do ego, do “meu dia” que é a data de aniversário;
  • É cultural o hábito de ficar muito. Mas, culturalmente, não é tido como algo promíscuo (a não ser que você viva alguma religião);
  • Promíscuo, culturalmente, é ir na sauna gay e para quem é religioso, sauna, é a própria manifestação das almas pouco evoluídas;
  • É cultural, para a maioria das pessoas, viver na função da fidelidade. Ou seja, ficar a mercê de uma traição iminente que também é cultural;
  • É cultural tratar política igual a partida de futebol, incluindo aqueles que buscam não se envolver e que ficam “só da janela” espiando a galera “se matar” pelas redes sociais. Na verdade, a disputa em campo e os espectadores olhando “por cima” representam a falta de cultura política. “Falta de” também dá os contornos da nossa cultura;
  • É cultural, também, buscarmos heróis, que um dia já foi o Lula e me parece que será o Moro agora. O impulso ao maniqueísmo, de alguma maneira idolatrar um político, é parte da maioria da gente;
  • É cultural o gay brasileiro ser tão apegado (ainda) às questões de “ser passivo” e “ser ativo”, fazendo associações com essas preferências com “ser mais homem” ou “menos homem” em algum nível subconsciente;
  • É cultural o brasileiro achar que comida japonesa é sushi, temaki e sashimi. Descendentes de japoneses, na maioria das vezes, preferem os pratos quentes;

Sobre esse último tópico, que na realidade exemplifica como nos comportamos em todos os pontos acima (e muito mais), lembro que há uns anos atrás comer peixe cru era algo mal visto para uma grande maioria dos meus amigos da faculdade. Ouvia críticas severas, naquela época em que o hábito de comer comida japonesa estava se iniciando. Hoje, aqueles mesmos que rechaçavam são os que mais autoafirmam as benesses da culinária. Eram então, extremamente apegados a negativa da representação do sushi e, agora, são extremamente apegados a positivação. Em suma, apegados.

Tendemos a funcionar assim para todos os tópicos acima e outros mais. A questão é basicamente o quanto há de aceitação social e o quanto cada um precisa ser aceito por ela, desde positivar um sushi porque é norma cultural fazer isso, até se questionar o quanto o “antro” da sauna tem realmente todos os significados (para si) que a mesma sociedade define.

Se questionar os por quês das coisas e encontrar suas respostas são ações que tendem a levar um indivíduo a uma felicidade libertadora, aquela que não depende e nem se submete ao julgamento do outro para se conceber como felicidade. É a felicidade de você para com você mesmo. É o inteiro.

Quanto mais estamos na função da aceitação do outro, vibramos com aqueles que vivem no mesmo nível mental. Mas a negativa de alguém, daquele que vive em outra caixa, nos gera muito incômodo. Estamos, basicamente, presos a uma felicidade condicionada e loteada.

Filosofia. E é mais ou menos seguindo por esses caminhos que eu chego aos meus 39 anos. Quem sabe, um dia, a maior instituição seja você por você mesmo.

1 comentário Adicione o seu

  1. Charlleston D Esquivel disse:

    Cara, eu nem sei como vim parar aqui, não conhecia seu site, mas achei interessante sua forma de pensar, pensamos bem parecido, pude constatar isso depois de ler varios de seus post. Estou preste a fazer 32 anos e como sempre fui desprendido dos conceitos gerais de certo e errado, o famoso “do contra”, sempre paguei muito caro por ter opiniões próprias e nunca querer a felicidade comum. Vou morrer lutando pelo direito de viver minha singularidade.

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