A ideia é namorar, não importa muito com quem

Gays, prestem atenção: o outro é muito mais do que a mera aparência

Quanto mais buscamos pelos caminhos do autoconhecimento, mais nos conscientizamos de que parâmetros de comportamentos são necessários para que o indivíduo tenha segurança em determinado grupo. E ao mesmo tempo, a consciência – a medida que se desenvolve – nos garante uma libertação e uma flexibilidade, no sentido de conferir desenvoltura para adentrar em outros grupos, outros contextos e – por consequência – ser aberto a indivíduos diferentes daquilo que outrora nos parecia incerto ou improvável, distante de nossa realidade.

Naturalmente, a medida que essa elasticidade perante ao outro é adquirida, acabamos vibrando uma energia muito mais abrangente ou, minimamente, diferente do que era. É cientificamente comprovado que as nossas crenças e os sentimentos nelas contidos, configuram os neurônios de nosso cérebro e determinam a consciência das células de todo nosso corpo. Do pé ao fio de cabelo.

Assim, quando a gente vibra diferente, atrai pessoas com a mesma vibração ou que se sentem envolvidos por ela. Os filtros passam a ser outros e assim sucessivamente, entendendo que o autoconhecimento é um processo interminável pois estamos em mudança a todo tempo.

É inevitável, nesse caminhar de consciência, “esbarrar” em valores de espiritualidade. Mas esse tema fica para depois.

Nessa jornada, conheci uma pessoa interessantíssima que traduziu numa frase algo que era percebido por mim, mas nunca antes tão bem elaborado: “os caras (gays) estão mais interessados em namorar do que conhecer e se envolver por alguém específico”.

Ele se referia a homens dos 30 aos 40 anos, últimos que havia conhecido. E o que o fez chegar nessa conclusão foi o fato curioso de pedirem-no em namoro no primeiro encontro. Três ou quatro caras, numa sequência. Achei novas e intrigantes tais experiências relatadas, mas que definitivamente exemplificavam com nitidez a minha percepção: há muitas pessoas interessadas em namorar – viver o status de par – como que se num “desespero”, não se prestassem a conhecer realmente o outro.

“O lance é namorar, não importa muito quem”.

Tal postura naturalmente assusta pois subentende uma fixação pela aparência. A estética é a única qualidade que pode se configurar de imediato e, mesmo assim, com um mínimo de consciência de valor, não banca relação nenhuma.

Entendo o comportamento (gay) de ser assim. Tal postura subentende também uma maneira infantilizada, algo do tipo: “parei no tempo porque vivi muitos anos a Síndrome de Peter Pan”. Existe uma diferença drástica entre manter o espiríto jovem e permanecer infantilizado.

A medida que ouvia os relatos, fiquei pensando em quantos caras da minha idade viveram longos anos dentro das baladas, cultivando apenas relacionamentos superficiais, pautados na aparência, na rotatividade e nos joguetes comuns do ego e do status. Pensei também que, com o passar do tempo, atingir 30, depois 40 anos, a nossa fisiologia, hormônios, metabolismo, se transformam irremediavelmente. E finalizei refletindo que, um cara que viveu (infantilmente) esse padrão comportamental, seria bem capaz de atingir os 35 anos, olhar um rapaz bonito e charmoso como o que estava a minha frente, e pedi-lo em namoro no primeiro encontro apenas por sua beleza.

Não vou julgar se isso é feliz ou triste, mas sim que é um fato narrado e que – na minha percepeção pautada em vivências – é uma das dimensões da vida gay. É como se tais caras, de 30 ou 40 anos, da mesma geração que a minha, fossem ainda adolescentes gays em seu interior e, sob o implacável efeito do tempo, perceberam que o gás para a ferveção acabou, alguma “coisa” mudou e que a “parada” agora é namorar. Mas o fato é que nunca ou muito pouco se prestaram a ver o outro com mais profundidade durante a vida. São gays imaturos, simplesmente, e que são viciados nas emoções que aquela junvetude lhes gerava. Acham que, na projeção física de um gay jovem e bonito, poderão perpetuar tais sensações. Até podem, mas difícil é encontrar alguém amadurecido que tope.

Acho tão improvável funcionar um relacionamento assim porque quem é viciado nas emoções que relacionamentos provocam, sabe que a ênfase estética completa algumas linhas do prefácio de uma relação. Somente.

É bastante diferente querer namorar, pelo status de par, do querer conhecer alguém para – quem sabe – virar um namoro. O tesão criado por um é diferente em relação ao outro. Conhecer alguém é o dia a dia; são as surpresas e o gesto de se interessar pelo universo que o outro pode oferecer. É o tesão pelos pensamentos, pela maneira de agir, e – também – o saber lidar com as inevitáveis diferenças. É a compreensão de que não existem almas gêmeas e que tal conceito é uma criação humana (e nada divina) para justificar as relações idealizadas. É a permissão de poder se descobrir na cama, transcendendo “a primeira foda de Hollywood”. É entender como são os contornos da individualidade de cada um.

É, sem dúvida nenhuma, superar a aparência, essa que é apenas uma das centenas de qualidades que o desejo de se estar com alguém nos leva.

É, sem dúvida nenhuma, superar a carência, essa que não se resolve no outro.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

1 comentário Adicione o seu

  1. Ro Fers disse:

    Muitas pessoas estão buscando “desesperadamente” por um namorado, fazendo com que as escolhas sejam precipitadas, resultando em pouco tempo de namoro.
    Tudo tem seu tempo!

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