A diferença entre ser homossexual e ter experiências homossexuais

Sou ou não sou gay?

Não foi apenas uma vez que a minha psicóloga comentou, especialmente sabendo que ela lida com bastante jovens: o homem, com as características sexualizadas que tem, seja por uma natureza cultural ou genética, pode experimentar algumas práticas homossexuais e nem por isso se caracterizar como um homossexual (ou gay).

Por mais que tenhamos dificuldade em aceitar tais diferenças, normalmente querendo encaixotar um indivíduo como mal resolvido, traumatizado ou problemático, o fato é que existe uma diferença entre ser gay e praticar alguns atos sexuais com outro do mesmo sexo.

A sexualidade é diversa

No envólucro nacional de raízes machistas que – com muito esforço – tem mudado, aprendemos por uma osmose que ou se é heterossexual ou se é gay (e os mais diversos adjetivos para quem curte uma “coceirinha” com o outro do mesmo sexo). Mas foi com a minha experiência no Blog (mais de 5 anos) e com as minhas próprias vivências, que passei a notar pela prática e observação (afinal, a filosofia é exatamente isso) que “a coisa” não começa e nem termina por aí.

De maneira lúdica, apenas para tentar ser mais didático, um indivíduo lida com três vértices principais de identificação:

1 – Identidade de Gênero (o que a sociedade diz que é assunto de homem ou de mulher, tal qual, genericamente, quartos azuis são para bebês meninos e quartos rosas são para bebês meninas, boneca é coisa de menina, bola é coisa de menino, maquiagem é coisa de mulher, barriga de cerveja é coisa de homem, etc.);

2 – Identidade Sexual (me sinto homem e sou atraído por mulheres, me sinto mulher e sou atraído por homens, me sinto homem e sou atraído por mulheres e homens, me sinto mulher e sou atraída por mulheres e homens e assim por diante);

3 – Identidade Social: este último, entendo que precise de uma explicação. Sigo com um exemplo: convivi em alguns momentos pontuais com o “Lucas”. Em nossos encontros, conversas e práticas sexuais, ele deixava claro que existia um desejo maior por outros do mesmo sexo, mas não descartava o sexo com mulheres. Em nossas relações preferia ser passivo.

Sob o crivo do gênero, apresentava-se (evidentemente) como homem, ausente de alguma característica ou maneira de se expressar que gerasse alguma desconfiança quanto a sua sexualidade. Em outras palavras, nada da maneira que ele se apresenta ao mundo, sugere que possa ter predileções por outro homem.

Assim, quanto ao gênero, o Lucas se encontra no masculino “clássico”, embora jovem. Quanto a sexualidade, o desejo, sugere uma preferência por homens mas gosta de mulheres também.

Por fim, vem a outra variável da identidade social: Lucas se identifica com o universo heteronormativo. Não troca, por exemplo, uma balada country no Itaim (tido como heteronormativo) por uma festa na Augusta (tido como diverso, mix) ou uma balada na The Week. Idealiza um casamento, um bom emprego e filhos, como dita a cartilha tradicional. Faz festas na casa de seus amigos, bebem, fazem bagunça, dormem no mesmo local e divide/separa o interesse sexual que tem por homens e a amizade entre eles (os amigos). Lucas, visivelmente, se encontra bem assim. Não deixa de ter afeto e intimidade pelos seus amigos heterossexuais: declara livremente a afetividade por eles (a maioria homens) no Instagram.

É “um jovem hétero comum, mas que sente atração por homens também”.

Assim, ele é gay (enrustido)? Bissexual? G0y? Na prática, criamos essas nomenclaturas com a finalidade (igualmente) de identificação de grupos. Para saber qual direção tomar. Para encontrarmos um sentido de pertencimento. Mas a fundo, eu prefiro dizer que o Lucas é uma pessoa que se apresenta como um homem (gênero) que gosta de experiências homossexuais e heterossexuais (sexualidade) e se identifica (socialmente) com um universo heteronormativo. De fato, tais vértices (gênero, sexualidade e social) funcionam de maneira bastante variada, de pessoa para pessoa e não se resumem a duas ou três equações prontas.

O ponto que me parece mais crítico para o gay (aquele que se sente pleno sexualmente e afetivamente por outro do mesmo sexo e ainda se permite viver tal realidade socialmente) é que, as vezes, cruzamos alguns “Lucas” por aí devido a alguma intersecção de gostos sexuais.

Seja pela influência de algum encantamento e uma posterior rejeição (no sentido de que tipos como “Lucas” dificilmente construirão vínculos sociais para exteriorizar sua sexualidade da maneira que o gay gostaria) há o choque do ego: “se não me quer do jeito que eu quero e entendo, é mal resolvido”.

O estar resolvido, a mim, engloba uma infinidade de pontos psíquicos, materiais (e espirituais) que – quando acertados ou balanceados – nos tiram as dúvidas e nos colocam de bem consigo. Se o Lucas, hoje, se posiciona socialmente da forma como detalhado acima e vive um regular equilíbrio em tudo isso, quem somos nós, de fato, para julgar? O julgamento, de certo, vem porque nós não entendemos / aceitamos o posicionamento dos tipos “Lucas”, tendendo sempre a puxar para uma bipolaridade: hétero-homo. Tendemos a julgar com força aquela parte que é mais frágil: o aspecto moral e ético perante uma hipotética namorada, como se gays fossem realmente isentos da mentira e de cometer traições. Torcemos o nariz também porque não é difícil projetar as nossas angústias em viver neste estado (angústias passadas ou presentes) que nos sufocavam ou nos sufocam.

Qual o problema real de um indivíduo gay (ou como o Lucas) transitar em universos heteronormativos, ter mais amigos homens do que mulheres (ou vice-versa), se apresentar ao mundo de uma maneira bastante masculina ou mais delicada e adentrar espaços sociais como uma balada de “playboy” na Vila Olímpia ou algo mais underground na Augusta? O problema é, normalmente, para quem julga (e define critérios morais pessoais) e não necessariamente para quem se sente bem fazendo assim ou assado. Aceitar tudo isso é abrir-se à diversidade. Do contrário, é demagogia ou autoengano.

Depois de anos lidando com pessoas, via Blog Minha Vida Gay e na vida, entendo que sexualidade vai muito além das nossas caixinhas esperadas. O exercício aqui é aprender a deixar as pessoas serem realizadas como elas bem entenderem. A única condição me parece ser o limite de respeito e entendimento do indivíduo para com o outro. A parte moral e ética influencia sim, mas este é um outro assunto.

A mim, o Lucas deve seguir esse posicionamento perante seu entorno e sociedade por longos e longos anos. Mudanças, claro, são possíveis como em qualquer outra jornada de vida, mas no final diz respeito a ele e somente ele.

É assim como todo mundo.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

3 comentários Adicione o seu

  1. wes disse:

    Ótima reflexão! nesses meus 24 anos tenho me deparado com essas questões dentro do meu espectro social. Caras que se relacionam com gays, mas socialmente não aparentam ser. homens casados com mulheres que tem experiências sexuais com gays e que não possuem nenhum outro tipo de vínculo além do sexual. colegas que socialmente possuem características que dizem ser de gays, mas que afirmam não o ser, enfim… sempre observei essas questões e refleti sobre, mas nunca cheguei uma conclusão concreta. o texto nos dá uma ótima saída, que é perceber que a sexualidade é muito mais complexa e dinâmica do que os rótulos que nós somos inclinados a aplicar. agradecido ao blog.

    1. minhavidagay disse:

      Agradecido, Wes!

  2. Lorenzo Savassi disse:

    Sou casado com uma mulher, com quem tenho o maior tesão, assim como tenho tesão por várias mulheres. Mas também tenho tesão por homens e gosto de vez ou outra sair com um, para beijá-lo ser beijá-lo, para comê-lo e ser comigo, para chupá-lo e ser chupado. Anos atrás sentia vergonha de mim mesmo, hoje não e sinto muito melhor comigo mesmo. Hoje sinto apenas culpa, por não poder compartilhar com minha esposa, pessoa que amo muito. Ela não entenderia o meu desejo e necessidade e tenho certeza que ela, por ser preconceituosa, não aceitaria. Não sei se sou gay/homossexual, mas isso para mim pouco importa !!!!

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