A escola e a homossexualidade

O olhar de um professor sobre a homossexualidade no contexto escolar

Danilo Vizibeli, leitor do Blog MVG e autor do “Espaço da Gente” cedeu gentilmente o texto de hoje, relacionando sua experiência como educador e sua percepção da vida de um jovem gay no ambiente escolar. Taí um tema que pode trazer referências para muitos dos leitores do Minha Vida Gay.

A escola e a homossexualidade

Como falar da escola e da homossexualidade? Como falar dos homossexuais e o processo de educação? Aceitei este desafio de escrever para o MVG sobre uma realidade que vivencio muito presentemente que é o convívio dos adolescentes homossexuais nas escolas brasileiras.

É preciso primeiramente dizer que a escola – por mais presa aos moldes tradicionais que ainda esteja – sofreu transformações. E assim também a visão que se tinha da homossexualidade.

Há bem pouco tempo o homossexual era visto como sujo, pecaminoso, promíscuo, relegado aos guetos e que fazia uso de drogas e se prostituía. Com os avanços dos estudos da Psicologia e da Sexologia, percebe-se hoje que o caráter e o comportamento sexual de uma pessoa não está ligado a sua identidade sexual. O homossexual hoje é visto como uma pessoa que vive a sexualidade em plenitude. Viver a sexualidade de forma respeitosa ou não acontece tanto para homossexuais quanto para heterossexuais. Hoje, o gay é visto como um ser totalmente afetivo, capaz de construir família e que a identidade sexual está ligada ao afeto, ao compromisso de relacionamento, à vivência amorosa, ao companheirismo e parcerias.

O amor em sua sublime acepção é o amor universal. Logo, se o amor é universal, não escolhe sexo. O espírito não tem sexo, tem polaridades – ora masculinas, ora femininas. A junção de duas pessoas que se gostam e se afinizam independe de condição sexual. E a identidade sexual é diferente da prática sexual.

Já que fiz essa abordagem sobre a homossexualidade, para mostrar do lugar que falo e para mostrar o meu pensamento, é preciso pensar em como a escola encara a homossexualidade e como recebe, acolhe os homossexuais. Na sua maioria, são adolescentes em plena descoberta da sexualidade.

Muita polêmica envolve o assunto. Há alguns anos a celeuma foi armada devido a uma cartilha do MEC que os supostos ortodoxistas e sexistas de plantão designaram como “Kit Gay” e que iria inculcar em nossos adolescentes o pensamento homossexual. Acredito que quando um menino ou menina vê num anúncio de revista, que é trabalhado na escola inclusive, um casal hétero se beijando isso não vai estimulá-lo a ter um relacionamento ali dentro da sala. Por que se fecham os olhos às diferenças? Deixemos o assunto de lado. O fato é que a escola precisa abrir os olhos para a questão da homossexualidade.

Na minha época, a manifestação da sexualidade dentro da escola era muito rara. Eu jamais imaginei gostar de meninos na época do ensino médio ou fundamental. Mesmo que na educação física alguns colegas tiravam a camisa e eu não parava de olhar para eles, ou então quando algum engraçadinho já percebendo que eu era gay, fazia alguma brincadeira e algum contato corporal e eu me excitava, eu tinha que negar tudo aquilo que sentia, pois a escola era um lugar proibido para a sexualidade, que o diga para a homossexualidade.

Hoje, vejo a escola mais aberta para as questões sexuais. Nas escolas por onde circulo, casais de namorados aos 15 ou 16 anos ou até mesmo mais novos, são comuns. A sexualidade transborda em seus olhares. Assim, também aqueles que são homossexuais já dão os primeiros sinais. Alguns que enfrentam a sociedade e que já são mais ancorados pelo que a mídia tenta desmistificar e descontruir do que é ser homossexual, se assumem. Há um aluno onde trabalho que a todo o momento apresenta-se como gay e não tem medo de falar o que sente. Já há outros que mesmo apresentando um comportamento homossexual, se dizem heterossexuais. É difícil manifestar a sua sexualidade plena no ambiente escolar, um ambiente um tanto autoritário, cheio de regras e que ainda é visto como o o lugar proibido para alguns assuntos na visão daquele que estão na coordenação e na direção. Para os alunos não. Os muros da escola já foram tombados, o mundo a invadiu.

Se a escola vive com os impulsos sexuais dos adolescentes, por que temos que calar a voz ao assunto? Acredito porque a educação sexual libertaria o ser humano de muitas amarras e com isso se tornariam mais críticos, engajados e mais fortes na procura de seus ideais, o que representa uma afronta político-social.

Se eu vivesse a adolescência nos dias de hoje, talvez não seria tão reprimido. Até porque hoje tem redes sociais, aplicativos de interação que permitem uma polifonia, ou seja, dar vazão as várias vozes presentes em mim.

Vejo a escola como a grande possibilidade para uma vida sexual livre dos rótulos, preconceitos e amarras. Só que para isso ela precisa deixar a sua tradição educacional pautada no mundo ocidental cristão.

Só para entrar em questões de religiosidade, Cristo pouco tocou nas questões da sexualidade. E todo o moralismo que é apregoado nas vertentes que o seguiram é a manifestação de um biopoder que quer controlar os seres em suas concepções ideológicas pelas práticas corporais e sexuais. O corpo é inscrição do sujeito que se marca pelo seu discurso.

A escola, por sua vez, é um corpo social onde se encontra os micropodores, as vozes dos sujeitos-estudantes que trazem em si não só o seu querer, o seu desejo, e o seu poder. Mas uma multidão de imaginários sociais que lhes perpassam suas práticas por que temos uma concepção ideológica e aparelhos que interpelam esses sujeitos ideologicamente. Sendo eles a Igreja, o Estado, a Escola, a Família…

Paulo Freire tratava a educação como uma prática dialógica e como uma prática emancipatória. No processo educativo, estamos nos aumentando, crescendo, confrontado o poder que nos domestica. Indo além. O professor antes de ensinar alguma coisa tem que aprender para si mesmo. Como ensinar o respeito à diversidade sexual se muitas vezes o próprio educador não exerce esse respeito? Se ele mesmo não conseguiu vivenciar de fato o prazer que busca? Outro dia ouvi de um educador que na escola dele há professores que fazem piadinhas heterossexistas e machistas dentro da sala de aula. Nisso não há diálogo. Há educação ditatorial.

A escola é um tanto heteronormativa ainda. Retornando a Paulo Freire há uma frase dele que gosto muito que diz: “Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens: não me é possível o diálogo”. Está faltando amor até nas escolas. Está faltando amor no mundo, na vida e entre os homens. Porque quando ele houver de fato, dialogaremos.

2 comentários Adicione o seu

  1. Bom saber que temos bons exemplos em algumas escolas, mesmo sabendo que é em número reduzido perante ao enorme número destas instituições no Brasil.
    Realmente há uma abertura maior a sexualidade dentro da escola hoje do que a poucas décadas atrás, mas isto acontece normalmente nos seguimentos finais da educação e esquecemos que a criança desde muito pequena já é um ser sexual e em construção de sua individualidade, subjetividade, etc.
    O que não entendo é por que o heteronormativismo não pode nem ser tratado na séries iniciais em muitas instituições? Há resistência por ora, da instiuição como um todo, ora por parte dos educandos que não acreditam na importância deste tema, mesmo que a instituição invista neste assunto, dos educadores, das famílias, etc.
    Quero muito me dedicar ao estudo das relações que permeiam a educação do sujeito através do corpo desde a mais tenra idade e como somos ensinados que a norma é ser hétero, entre outros estigmas… Espero conseguir e trazer frutos para este diálogo.

  2. Brilhante o artigo, a sexualidade precisa ser trata nas escolas e não apenas sob uma única perspectiva, e sim, sob todas as formas possíveis de si mesma. A evolução a atual em relação ao que já foi o passado e significante, mas mesmo assim, ainda pequena e lenta. Todavia, o caminho certo anda a ser trilhado e conquistaremos nosso espaço mais cedo ou mais tarde!

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