A estética que tanto encanta

A sociedade, orgânica como ela é, muda numa velocidade quase que invisível para os olhos de um indivíduo. A relatividade do tempo se faz presente quando quantificamos a idade de uma pessoa e de uma sociedade. Imagine então do planeta Terra?

Nessa organicidade, movimentos contra o racismo, o feminismo, manifestações contra Guerra do Vietnã que eclodiu nos EUA nos anos 70, e posturas vindas da comunidade LGBTs do mundo inteiro reverberam lentamente até hoje, quase que de maneira incipiente para os mais extremistas e apressadinhos. Porque é isso mesmo gente: a transformação de uma sociedade é como o crescimento de uma árvore; os olhos humanos não conseguem notar as mudanças com clareza. De repente, um broto vira algo que era bem diferente como de origem.

É nesse contexto que tenho percebido uma juventude de meninos, futuros homens, sejam heterossexuais ou gays, ou qualquer derivação ou substrato que a própria sociedade tende a nomear, cada vez mais carinhosos entre si. Meninos, hoje, se tocam com muito menos tabus do que outrora. Reverbera disso e mais um pouco, novas possibilidades e rótulos, como os metrossexuais – aqueles caras que são capazes de exercerem suas vaidades – sem caírem na obviedade machista, ou, simplesmente, do homem que foi criado para não se cuidar, para casar e ficar gordo e etc.

Academia não virou moda. Ao contrário de inúmeras tendências que o brasileiro suga no limite até o descarte (o condenável modismo), o hábito de praticar exercícios físicos constantes (frequente), vinculado à uma alimentação saudável (em casos mais específicos), foi absorvido e se transformou em cultura. É uma cultura ditada, principalmente, pelas grandes capitais.

Daí, nesse contexto, é claro que o homem gay ou o hétero metrossexual, notam hoje um cardápio vasto de possibilidades: clínicas estéticas, cirurgias plásticas, academias, técnicas de nutrição, produtos e acessórios para beleza tais quais vestuários, cremes antienvelhecimento, dentre tantos outros.

Por um lado, como me posiciono por aqui, tal relação entre produtos e serviços para a beleza voltados para o público masculino (gay ou heterossexual), cria um tipo de dependência, um vício e até mesmo uma compulsão, como se a idade e os quilos a mais fossem ultrajantes para quem é gay. Está aí um pouco dos estereótipos que buscamos arduamente desfazer.

É uma baita rotulagem dizer que todo gay se preocupa com estética, beleza, cuidado com o corpo e que coloca no cardápio de compras, um tratamento de botox ou determinada marca de roupa que cai bem. Está aí um ideal imaginário que a mídia bombardeia, e algumas pessoas devoram sem pensar. Pelo Blog MVG já é nítido que tal máxima “todo gay se cuida, é bonito e se preocupa com a aparência” é válida até a página dois. Existem milhões de outros gays, homens ou meninos, que formam e formarão uma identidade, uma maneira de se apresentarem para o mundo na qual não tenham grandes apegos à “máquina midiática da beleza” e nem por isso deixarão de atrair e ter lá sua parcela de afetos.

O mais importante nessas constatações é o sentido de pertencimento, de que nem uma ponta (do vício estético), nem uma outra (do desleixo total) são imagens que nos caracterizam. Não precisamos seguir “caixinhas rotuladas” para contextualizar a nossa homossexualidade. Como um exemplo: voltando ao assunto do goiano, do post anterior, seu irmão é gay assumido há anos. Nem por isso o EA se identificava com o irmão e nem por isso ele entendeu a própria homossexualidade. Quando EA assumiu a ele, a reação foi inesperada: “pense bem… acho que você está bem assim. De vez em quando você dá umas escapadinhas”. Um gay sugerindo a um outro gay para preservar um estado de promiscuidade. Pode isso?!

Comentei ao EA que, muito provavelmente, a identidade gay construída pelo irmão era tão distante da imagem do próprio EA, na maneira que ele entendia “ser gay”, que dificilmente o EA compraria e por isso o próprio irmão se referiu daquela forma. Logo eu disse que, reforçando o sentido desse post, “não existe um modelo gay para ser feliz”. Quem diz que gay é assim ou é assado, na verdade precisa autoafirmar constantemente sua própria zona de conforto. Imaginar que alguém faz diferente incomoda. Como se a diferença tirasse desse estado confortável. E isso é psicologia pura que nada tem a ver com a homossexualidade, mas com a insegurança de um indivíduo.

Assim, meus queridos leitores, passando creminhos anti-age ou não (no meu caso já tenho um estoque no armário do banheiro – rs), são os extremos, mais uma vez, que turvam a visão de uma sociedade mais organizada e esclarecida. Repensem seus valores, caso você “morra” se deixar de ir um dia na academia ou se não liga para o sebo que acumula dentro do umbigo! De nada adianta os “pólos” morrerem de “raivinha” de um pelo outro. Vivamos nosso pertencimento em paz e felizes com o que somos e não “putos” pelo o que o outro é ou deixa de ser.

Bom feriado para quem é de São Paulo! :)

3 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    kkkkkkkkkkkk é muito tolo aquele que acha que os gays são sempre vaidosos ou preocupados com sua própria imagem. Existem uns por aí que se equiparam aos héteros mais emporcalhados kkkkkkkkk. E é claro existem os exagerados na beleza, que ao meu ver acabam com a possível beleza verdadeira que poderiam ter. Eu fujo de extremos. Prefiro os que se cuidem na medida certa.
    Concordo totalmente com você MVG, mais uma vez…

    Falow.

  2. lebeadle disse:

    Também tenho percebido essa mudança nos afetos MVG, os caras mais jovens estão mais carinhosos com os outros, cultivando a beleza do corpo, o fato de expor o corpo bem cuidado nas academias. Tinha mania de olhar dedicatórias de livros dos anos do início do século XX nas lojas de livros usados bem como cartas, as velhas cartas dos antigamentes, quem também já viu pode constatar que os homens entre si tinham um tratamento bem afetuoso, que hoje seria coisa de namorado, não é estranho ?
    Já que falou em estética, lembrei de um movimento chamado esteticismo que pode ser considerado um dos primeiros movimentos homossexuais organizados do século XIX, ocorreu na época de Oscar Wilde em Oxford e os caras tinham preocupações com moda, artes plásticas, literatura, filosofia e, influenciados pela retomada dos estudos de Grécia que valorizavam o amor entre homens, passavam a se tratar de uma forma mais afetuosa, cúmplice, carinhosa. É nessa onda que Wilde e Douglas se conheceram e praticaram o “amor que não ousa dizer seu nome”.

    Abraço

  3. Sérgio disse:

    Excelente publicação, descreve nitidamente a verdade que estamos vivenciando.
    Infelizmente muitos não agem com responsabilidade no trato com sues corpos e fazem uso de substâncias muito perigosas para adquirirem respostas rápidas para adentrarem neste mundo fantasioso. Amo e cultuo o meu corpo, pois é um presente que me foi dado e da mesma forma admiro pessoas que assim o fazem, de preferência mantendo suas características originais. Existe gosto para tudo nesta vida, porém, devemos estar de bem coma a vida, em primeiro ligar, e o restante a vida nos dará como resposta o amor, amor que não julga, não discrimina, não gera intolerância, etc..
    Isto é o que desejo para todos, precisamos urgentemente mudar nossas atitudes e deixar prevalecer a razão e o bom senso.

    Abraços.

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