A individualidade em relacionamentos

Adeus, metade da laranja

Antes de mais nada, é bom ter claro conceitos: individualidade é diferente de individualismo. Individualidade diz respeito a integridade de um indivíduo e o respeito ao mesmo. Individualismo, basicamente, é sinônimo de egoísmo.

É muito comum em relacionamentos gays, no caso, termos a dificuldade de respeitar a individualidade do outro. Nada como alguns exemplos para ilustrar desse certo “mal” que, com o tempo, gera desgastes na relação: namorei uma pessoa um tempo atrás. Tínhamos o hábito de nos encontrar nas sextas. Ele vinha de um canto de São Paulo e eu vinha de outro e marcávamos num ponto de encontro no centro da cidade.

Sextas-feiras. Ele pegava um contra fluxo e, embora de transporte público relativamente cheio, não se deparava com muito trânsito. Eu, ao contrário, pegava o fluxo e, da minha casa até o ponto de encontro, que demoraria 30 minutos num domingo, levava de 2h a 2h30. Sextas-feiras. Depois de uma semana inteira de correrias, percorria tal trajeto ao seu encontro.

Na minha individualidade, há semanas bastante tranquilas no trabalho, mas há aquelas de arrancar os cabelos, principalmente quando se tem alta produção para a equipe e, ao mesmo tempo, faço 5 ou mais reuniões percorrendo toda cidade, quilômetros. Foi numa dessas semanas bastante agitadas que eu pensei: “nossa, pegar um trânsito de 2 horas em plena sexta-feira não vai caber hoje”. E aí, muito tranquilamente escrevi a ele que poderíamos nos encontrar no sábado, antes do almoço na mesma região de sempre.

A princípio ele topou sem grandes alardes.

O relógio batia umas 19h e um amigo (hétero, é bom dizer), que é praticamente meu vizinho, mandou um WhatsApp falando assim: “estou à toa. Vamos jantar?”.

Claro! Eu também estava à toa, sendo que a minha programação normal seria estar com meu ex no centro da cidade. Como eu estava cansado, qualquer sinal de trânsito, mesmo no banco de passageiro do carro do meu amigo, seria aflitivo. Sugeri: “vamos comer no restaurante árabe aqui, do lado de casa?”. Em 5 minutos estávamos lá.

Estava jantando tranquilamente, quando meu ex mandou WhatsApp: “e aí, está fazendo o que de bom?”.

– Ah, vim aqui com meu amigo X (que inclusive meu ex conhecia pessoalmente) jantar do lado de casa.

– Ahhhh… eu sabia que você ia sair.

E pronto. A partir daí, surgiu a maior DR porque eu tinha “trocado” de estar com ele para jantar com meu amigo naquela noite, por algumas horas. Isso porque no sábado, logo cedo, estaríamos nos vendo no mesmo ponto de encontro.

Saímos do padrão. Foi uma primeira sexta que “recusei” não estar com meu namorado. Queria viver a minha simples individualidade, num contexto de exaustão física, depois de rodar quilômetros na cidade durante a semana a trabalho e não ter que enfrentar mais um trânsito de 2 horas na sexta. Meu ex exerceu do individualismo, de achar incabível eu “me divertir” com um amigo, sendo que estava cansado e indisposto para encontrá-lo.

Normalmente, onde há o individualismo, há o não respeito a individualidade. Sabe, temos família, amigos, interesses pessoais e nuances de personalidade que raramente vão de encontro 100% com as expectativas do outro. E vice-versa. A invasão a isso gera desgastes.

A individualidade é formada pelas particularidades de uma pessoa. É a personalidade, é o senso, é a moral, é o tamanho de consideração que temos por familiares e amigos, são os interesses particulares sobre os mais diversos assuntos. São os hábitos, os costumes e – inclusive – as manias. Respeitar tais pontos quando se está com alguém é bastante difícil. Dizem que, quando se é gay, fica mais difícil ainda pois todo contexto anterior de rejeição social e as consequentes carências, nos tornam pessoas mais controladoras quando gostamos. Pode até ser um fato. Mas não podemos nos render a esse fato, confundindo “gostar” com “controlar”.

Entendo a fantasia da perda, o medo de estar se tornando desinteressante perante o outro, quando – de repente – algum gesto ou atitude previstos não vem. Repito, entendo e em “1920” eu tive lá minhas carências e medos desse nível. Tendemos a nos tornar mais egoístas e centralizadores, não duvido. Mas nos render a estas condições é não querer crescer. É provocar a dependência e é forçar a barra para se valer a ideia das “duas metades da laranja”.

Será essa a irremediável forma de se relacionar afetivamente? Bom, para relações passageiras, de curta duração, a fórmula funciona bem. Mas até mesmo a curta duração e a consequente rotatividade cansam. Vem aquela sensação de que é impossível se relacionar, paramos e nos questionamos: “porque meu relacionamento não vira?”.

A resposta pode estar aí, nas linhas acima. Mas entre aceitar tais realidades e se justificar por ser assim, a segunda tende a ser predominante. E a questão não é criar culpa por isso, mas buscar resolver tais manias. Eu dei adeus para a ideia da metade da laranja, faz um tempo. Claro que em um ato de entrega mútuo, certa vulnerabilidade nos coloca algumas incertezas. Somos humanos, nosso ego busca por segurança a todo momento e nos predispor a entrar num relacionamento tem de tudo isso.

Mas o que existe neste bolo todo são os limites. Limites, para o respeito à individualidade. Para que o outro não seja invadido ou, quiçá, se sinta manipulado. Como digo, homem com homem, no geral, subentende uma competição natural. Ninguém quer perder um jogo.

Mas que jogo? Perder o que? Ganhar o que? Eu me questionei essas mesmas perguntas algumas vezes na vida. E quando a gente se livra dessa forma de pensar, a tendência é ter paz se relacionando. Mas para alcançar isso, talvez seja necessário aprender a ter paz sozinho… gostar de si mesmo é realmente um jogo e, talvez, um dos mais difíceis.

2 comentários Adicione o seu

  1. Rothuzs disse:

    Lendo o texto, ouvi minha mãe perguntando ao meu pai ” Você vai se deitar ou assistir este jogo?”. Creio que este controle sugerido por você acontece em muitos relacionamentos, não só os gays. Eu já passei por muitas fases, nos meus dois primeiros namoros longos, fui muito controlador, possessivo e me frustrava com facilidade. Depois se aprende que é melhor ser feliz independente das atitudes dos outros. Afinal, individualidade não é algo estático e deve mudar com o tempo.

    1. minhavidagay disse:

      Concordo! O exercício de respeito à individualidade é algo lento. Tendemos a tomar posse da pessoa querida. Na casa dos meus pais é a mesmíssima coisa, só que – no caso – o controlador é meu pai rs rs rs. Mas são níveis e níveis de controle. Temos que ponderar.

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