A mente lúcida independe de classes, etnias e crenças

Desprendimento e autoria. Já falei sobre esses dois conceitos inspiradores em outros posts e hoje me peguei pensando novamente sobre tais assuntos.

Num país como o Brasil, rico pela diversidade, mas cheio de diferenças e preconceito no pacote, a sociedade costuma fazer confusões de valores tremendas. Por exemplo: será que toda pessoa nascida numa família abastada, frequentadora das melhores escolas e de um “bom nível social”, tem a lucidez e clareza sobre a diversidade?

Será que, de uma família oriental, o conservadorismo é sempre presente, o que dificultaria um filho gay ter autonomia para “exercer” sua homossexualidade?

Para ambos os casos a resposta é “depende”. Mas em “terras brasilis”, costumamos tomar definições e acreditar com todas as forças. Nos asseguramos pela generalização e, isso, na realidade nos empobrece.

Um primeiro ponto que acho importante é que, ser uma pessoa estudada, envolta por livros e informação não significa sempre que ela seja lúcida, desprendida e sábia. Daí, dou exemplo de papai: é uma pessoa inteligentíssima. Na juventude, era o “tradicional japa” das excelentes notas na escola. Ingressou em faculdade renomada, para sua área. No trabalho, foi um engenheiro inventivo e exemplar. Mas teve que levar 10 anos para maturar a ideia de ter um filho gay. Presa aos seus valores, estava a ideia de que a homossexualidade não poderia ser uma realidade familiar. Em doses homeopáticas foi assimilando a ideia por uma década para que, hoje, possa conviver de uma maneira minimamente confortável.

Seu lado conservador estava preso a ideia de que “ser gay” passaria longe de sua realidade entre parentes, filhos etc. Quis preservar o senso de heterossexualidade e foi bastante duro, com ele mesmo, para rever seu ponto de vista. Teve um amigo gay com quem convivia muito bem, com muito respeito. Mas quando a pimenta ardeu em seus próprios olhos, houve um choque com um de seus pilares de valor.

Foi com ele que descobri que inteligência e sabedoria são impressões distintas.

Cumpriu muito bem seu papel de pai de classe média. Me deu estudo, faculdade, comida, teto e até certas regalias. Mas não foi seu patamar social, nem a sua inteligência, que lhe garantiu essa lucidez e maleabilidade para a subjetividade da diversidade.

Tive uma ex-sogra, a única “real” para falar a verdade, pois é mãe do rapaz com quem me casei, que tinha uma adoração por gays. Tratava o assunto com enstusiasmo e era garantia certa para um “tapinha” no ego de qualquer homossexual que precisasse autoafirmar a própria sexualidade. Italiana, expansiva, imaginem como era!

Ela não teve uma formação de reputação, pelo contrário: vivia praticamente num cortiço com quase todos filhos morando ao lado no conhecido “puxadinho”. Casa sem acabamento, cheia de infiltração…

Mas quanto a sua percepção sobre a sexualidade das pessoas, era livre, não tinha valores rígidos e conservadores a seguir, e tratava do assunto com abertura. Compreendia e, para a alegria da bicharada da vizinhança, abarcava todos com aquele jeito festivo, da “grande mama”!

Seu marido, de mãe branca europeia e pai negro puro, nasceu mulato de pele bastante escura. Levava o cigarro na beira da boca e, esse sim, detinha uma certa sabedoria: nunca lançou uma piada maldosa sobre gays tampouco fazia festa pelo mesmo motivo. É como se a minha homossexualidade fosse insignificante, sem cheirar nem feder. Do jeito natural que eu descobri que tem que ser.

Ele era autônomo, dava assistência técnica para máquinas de lavar roupa e era mentor de um dos filhos.

Não é a classe, etnia ou crença, de maneira generalizada, que fazem pessoas sábias, capazes de se desprender daquilo que acham que precisam conservar. Quanto mais conservadores, menor a chance de nos tornar autores da própria vida. Quanto mais conservadores, menor a oportunidade de enxergamos os cortornos da subjetividade que é o próprio ser humano.

A luz da sabedoria, queridos leitores, se faz do espírito. Não se ensina, mas podem aprender aqueles que a buscam. A generalização nos confere um quarto fechado e escuro e, para terminar bem feito, finalizo com uma letra de John Lennon:

“I don’t believe in magic
I don’t believe in I-Ching
I don’t believe in Bible
I don’t believe in Tarot
I don’t believe in Hitler
I don’t believe in Jesus
I don’t believe in Kennedy
I don’t believe in Buddha
I don’t believe in Mantra
I don’t believe in Gita
I don’t believe in Yoga
I don’t believe in Kings
I don’t believe in Elvis
I don’t believe in Zimmerman
I don’t believe in Beatles
I just believe in me”

Sentido maior de autoria não há. Então, amigos leitores, se alguém lhe parecer radical, generalizando ideias, acredite: tal pessoa é cega. E cuidado: a miopia pode ser sua.

2 comentários Adicione o seu

  1. Andre Kummer disse:

    Vc é ótimo MVG!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, André! =]

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