A primeira vez

Quando tudo principia

A primeira vez que a gente assume que é gay para alguém é inesquecível. A primeira reciprocidade ao fato também e, talvez, alguma reação negativa a mesma coisa. Tudo que principia costuma deixar um registro na memória pois aponta para a novidade, para o primeiro registro dentro da gente, para o imprevisto sobre a reação do outro e, se é a primeira vez, existiu alguma mudança para se fazer valer a própria (primeira vez).

A primeira vez, normalmente, sugere a saída de alguma zona de conforto.

A primeira vez do beijo pode ser incrível ou estranho. O mesmo para o sexo, ardente ou bastante sem jeito. Será a primeira vez que, pelo verbo e/ou pela intuição, vai se configurar a química, a coisa da pele, o “encaixe” do beijo, do abraço e do ritmo na hora da cama. Porque tudo isso é sexo e/ou afetividade e ambos, em maior ou menor grau, fazem parte da arte de se relacionar, a não ser que se opte pela assexualidade que hoje também se configura como tipo, mas até para esse tipo é inevitável a primeira vez de alguma coisa.

A primeira relação que se pode chamar de namoro tende a ser maravilhosa ou desastrosa, dependendo exclusivamente das duas partes que se prestaram. Pode vir repleta de realizações, durar anos, como um caso que eu conheço, ou não passar de meses como muitos casos que eu já ouvi. Pode até acabar em si, na primeira vez, e durar um tempo para acontecer de novo.

A primeira vez tende a fazer aflorar sensações e sentimentos novos, que estavam ali dentro de nós, mas que não se tinha um conhecimento (consciente) até o ato da primeira vez. Talvez, pela primeira vez exista o ciúme, ou a vontade de se estar junto, ou certa ojeriza, ou o sentimento de que se está fluindo muito bem ou que faltou alguma coisa. Virá a primeira vez de dar ou tomar um fora. Virá o reconhecimento de um terreno vasto que é o outro ou o desinteresse de se envolver com profundidade. Mas tudo isso e mais um pouco só dá para saber se houver um movimento em direção à primeira vez.

A primeira conversa íntima do tipo “é a primeira vez que estou dividindo isso com alguém” pode ser reconfortante pois denuncia a primeira vez que uma pessoa confia mais na outra a ponto de se compartilhar assuntos nunca antes divididos. E pode ser frustrante também pois, se espera uma reação recíproca do outro, mas nem sempre a outra parte lida ou age como se gostaria.

A primeira vez das coisas, se regada de muita expectativa tende a frustrar porque a realidade, no sentido de como as pessoas funcionam, costuma ser abaixo das expectativas. Mas é para isso que existem as primeiras vezes: para, talvez, mostrar que as coisas não funcionam sempre da maneira que gostaríamos, salvas as raras e deslumbrantes exceções quando – por um passe de mágica e possivelmente pelo toque de Deus – as coisas se desdobrem muito próximo da maneira que idealizamos. As vezes acontecem sim – para todos – e seria injusto descartar.

A primeira vez é jovem, jovial ou inexperiente. Vem regada de ansiedades, excitações e latência. O incerto que, as vezes, ganha um sentido de proibido parece mais excitante. E muitas vezes é mesmo! Mas é só passando pela fase da primeira vez das coisas que se abre espaço para uma nova primeira vez de alguma coisa que você, hoje, nem faz ideia que poderia existir na sua vida.

Assim, desejo em 2017 que você, leitor do MVG, realize a primeira vez de tudo aquilo (ou da maioria daquilo) que você gostaria de dar um novo rumo ou passo. Certamente não existe ninguém que vá te empurrar, embora existam pessoas e situações que nos deem uma “mãozinha” (e até a “mãozinha”, na primeira vez, pode vir de formas diferentes do que se idealiza).

E que assim, você atinja a segunda, terceira ou quarta vez daquilo que você deseja, mas que tenha consciência de que o grande desafio, do frio na barriga, dos “medinhos”, do “certo pelo duvidoso”, está concentrado (irremediavelmente) na primeira vez.

A primeira vez das coisas levam o bem e o mal inevitáveis pois qualquer tipo de relacionamento (parental, amoroso, sexual, fraterno, profissional, etc.) não trará só regalias. Alguns bônus a gente aprende, aos poucos, que só é possível conceder a nós por nós mesmos, independentemente do outro e, claro, sem as expectativas projetadas em outra pessoa. E aí, depois que a gente passa pela primeira vez, na segunda, terceira ou quarta é possível adquirir outra dádiva, talvez maior ainda que um passe de mágica ou um toque de Deus: saber qual atitude tomar e ter a segurança para prevalecer o bem da primeira vez das coisas, daquilo que você entenda que te faz bem.

Em 2017 tenha mais felicidade que tristeza. :)


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

1 comentário Adicione o seu

  1. Ro Fers disse:

    A primeira vez a gente nunca esquece e obviamente nunca é como sonhamos, planejamos, enfim…

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.