A solidão como recompensa

Solidão: monstro ou bálsamo?

De tempos em tempos florescem algumas reflexões que servem para gays e heterossexuais, para todos e todas as idades. Segue um deles.

Embora sejamos seres sociais, muitas vezes relacionando felicidade com convívio social, vivemos reféns da necessidade de pertencimento (em família, amigos e grupos), as vezes impulsionados por um sentimento compulsivo ou maníaco para estarmos revoltos de pessoas, amigos, curtidas e assédios a todo momento.

Parte desse movimento, da necessidade de pertencimento, vem (invariavelmente) de uma natureza humana que, apesar dos pesares, ecoa do primitivo: o homem, em tempos de pedra lascada, aumentava sua sobrevida se estivesse em grupo. Em conjunto, tinham basicamente mais chances de (1) conquistar alimento e (2) se proteger de predadores e das adversidades naturais. Darwin, possivelmente, aprovaria essa reflexão e, desde então, num puro instinto que outrora era de sobrevivência e depois passou a ser de empoderamento (lei do mais forte / poder), multifacetamos o sentido de viver em grupo. Nas entrelinhas, a convivência em grupo nos abastece culturalmente de um sentimento de poder. Poder confere ao homem a sensação de segurança e, em muitos casos, superioridade.

“Se apareço namorando nas redes sou mais feliz”. “Se apareço nas redes com grupos de amigos sou mais feliz”. “Se tenho minha família unida e isso está explícito nas redes sou mais feliz”. “Se tiro selfies ou seminudes e tenho 200 curtidas sou mais feliz”.

Mais feliz em relação a? (…)

Vivemos hoje em um mundo de alguns excessos e de tempos em tempos os mesmos mudam de casinha. Hoje, falamos de excesso de informação, excesso de opinião, excesso de exposição, excessos de verdades ditas que não se cruzam, como se estivéssemos chegando ao cúmulo do ato de interagir e nos relacionar. As pessoas, de certo, não mais desligam e vivem uma mania compulsiva de xeretar a timeline das redes sociais a todo momento, como se estivessem perdendo alguma coisa, o ar que respira, a vida, a opinião daquilo que, talvez, nem fosse necessário opinar mas se faz para obter algum respaldo (curtida), da necessidade de pertencer e ser aceito. Necessidade que, é provável, nos dá 100 curtidas de aceitação e nos tira a quietude do coração pois vamos precisar de mais 100 logo mais.

E eu, como profissional da área de web há mais de 15 anos, analisando o comportamento de pessoas e públicos na Internet, talvez tenha um “pouquinho” de autoridade para afirmar: vivemos momentos de vício de informação e exposição e, em boa medida, o Blog MVG (a exceção das ressalvas que o leitor quiser dar) também faz parte do liquidificador. Não há como negar.

Neste contexto de desequilíbrio, onde a balança tem pendido radicalmente para um lado, é natural que a luz para o equilíbrio brilhe em outro lugar, que não no mesmo objeto onde todos se engalfinham e precisam (urgentemente) fazer parte.

Ainda não cheguei em minha reflexão conclusiva sobre o assunto, mas quase ao mesmo tempo de eu entender a necessidade de ressignificarmos a solidão neste contexto atual – para falar a verdade, um pouco antes – encontrei este texto no El País, onde filósofos e estudiosos declaram as mesmas percepções sobre a solidão, a que tenho formado nos últimos anos: clique aqui (sugiro apenas que desconsiderem o título da matéria, criado basicamente para chamar a atenção).

Talvez muitas pessoas entrarão numa nova busca quando, legitimamente, tomem a consciência de que estão rendidos aos vícios modernos tão igualmente limitantes e míopes como qualquer vício, aquele que fabrica uma falsa sensação de felicidade e alívio. Vício.

É possível encontrar felicidade na solidão? Por mais que uma maioria torça o nariz para a positivação desta questão, a filosofia e a psicologia já apontam há muitos anos para a ideia de que, normalmente, a felicidade em estado legítimo, diga-se legítimo livre das camuflagens e sabotagens do ego, está quando o indivíduo se encontra consigo, desprovido de desculpas e (tranquilamente) ciente de que nascemos e morremos sozinhos.

O interessante é que tais conceitos nada tem a ver com rótulos do tipo “isso é coisa de velho” ou “de gente antissocial” pois afirmações desse tipo já subendentem o colamento ao padrão cultural que está em questão. Fora que a solidão que me refiro não diz respeito ao isolamento total, este que se fosse, seria igualmente radical.

Talvez, enquanto alguns estejam colados a tais manias, alimentando suas compulsões de pertencimento e todos os elementos nele embutidos, outros estejam se descolando um pouco mais do estado primitivo genético e supervalorizado pela cultura, para o encontro de uma nova consciência, certos de que – em estados maníacos e compulsivos – é improvável declarar felicidade, a não ser aquela que precisa ser alimentada do próprio vício para se estabelecer como “felicidade”.


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

2 comentários Adicione o seu

  1. Lucas disse:

    Texto lindo.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Lucas

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.