Medos por ser gay

Referências sobre a vida de um gay

Muitos dos leitores que chegaram até a mim nesses anos de Minha Vida Gay, trouxeram certa aflição ou preocupação por não existir um referencial claro e socialmente definido de modelos ou padrões da vida de um gay.

A grande maioria que ainda traz essas dúvidas – cobertas de receio – acredita muito que a vida gay é cheia de superficialidade, falta de compromisso, relações voláteis, interesses “menores” e, no imaginário ainda, uma sensação de infidelidade instituída entre gays.

Será mesmo que a vida de um gay prioriza tais características?

É muito complicado, para mim, delimitar uma “caixinha” segura de realidades que retirem tais aspectos negativos daqueles que creem numa vida gay assim, quase como se fosse solitária, sem laços ou obscura. Mesmo porque para estar disposto a reconstruir essas impressões, o indivíduo – acima de tudo – deve deixar de usar essas justificativas ou conclusões como âncora que o mantém no exato estado em que se encontra hoje. A autossabotagem projetada nessas afirmações é um fato possível, embora muitas vezes seja inconsciente.

Outra singularidade entre gays que trouxeram essas mesmas impressões, é que ou namoram uma menina/mulher ou acreditam (fortemente) na cartilha, hábitos, costumes ditos de heterossexuais que, na prática, são herdados da cultura familiar. Por um lado, gays com esse perfil, possuem valores e base e nota-se um nível cultural médio ou acima da média. Por outro, o bônus por terem referencial de valor e base é, ao mesmo tempo, o ônus: estão fixos/presos a tais referenciais e tudo que fugir de um raio seguro autorizado pode virar um assombro.

Esse é o bem e o mal da educação com tendência conservadora: ao mesmo tempo que – naquele contexto familiar – prioriza-se valores de crescimento, resguarda-se pais, filhos e netos num universo de ideais, transfere-se senso moral familiar, uma cultura de prevenção e foco no trabalho e nas próprias tradições em família, se a homossexualidade não faz parte do pacote (e é praticamente um pacote, por conhecimento vivido), o abismo entre o que se quer e o que se pode se amplia. O querer é se permitir. O poder é o que se ensinou no mesmo contexto.

No universo familiar mais conservador, as vezes, o peso institucional se faz maior do que o desejo do indivíduo e não somente no aspecto da homossexualidade. Em grupos mais conservadores, não se aceita com fluência a mistura étnica, espera-se que as filhas casem com rapazes “de família” (e todo$ aspectos que este conceito sugere), cria-se filhos para serem “príncipes” para suas esposas, pressiona-se para que os herdeiros sigam por determinadas profissões, teme-se outras pessoas que não façam parte do “mesmo nível” e etc. Existe, assim e sim, mais apego, mais rigidez e uma dificuldade maior para entender a sociedade de uma maneira mais orgânica e diversa e – as vezes – bem diferente do que é construída dentro do próprio núcleo familiar. De certo, o mundo é bem diferente do que os olhos familiares atestam que é.

Em outras palavras, o universo conservador é fechado. Para o livre acesso, para entrar ou sair, para permitir a entrada ou a saída de terceiros, é necessário passar por um “check list” muito maior. E esse tipo de modelo comportamental não corresponde a todas as famílias por mais que o próprio núcleo conservador possa dizer que as coisas funcionem como acredita que funcione.

Eu, pessoalmente e em alguma medida, por ter tido um pai que herdou valores mais conservadores dos meus avós paternos, respirei bastante dessa forma de olhar e acreditar. E tive um longo caminho para alcançar minha própria identidade e senso de valores com autonomia.

Mas é aí? Como viver uma vida gay sem a sensação de desamparo?

Já escrevi sobre o assunto em momentos diferentes do MVG e cada vez que o tempo passa, vou chegando a conclusão que o maior exercício consiste em reestruturar o plano mental (mindset) sobre o assunto. É muito difícil sair do lugar quando existem as crenças de um contexto gay solitário, sem laços e obscuro.

A falta de sensação de perspectiva se dá mais pelo que se acredita. O que é real? É real que o universo gay se resume à solidão, falta de laços e uma predisposição a infelidade? Ou isso não passa de uma mera formatação definida e comprada da “bolha” a qual nascemos, ao que ouvimos por aí e na pura manifestação do achismo?

Ou será a manifestação dos gatilhos de autossabotagem para justificar a inação?

Em anos de Minha Vida Gay, alguns leitores relataram um certo desejo de que, se pudessem, não seriam gays. Um tom até depressivo para o fato. Mas a esmagadora maioria, ainda preso ao armário, tem um evidente desejo de explorar. Só que existem medos. Identificar e assumir os próprios medos já é um primeiro passo.

O que você tem feito com eles, seus medos por ser gay?


coach-de-vida-gay

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

1 comentário Adicione o seu

  1. RO Fers disse:

    Eu vivi muitos anos com medo do futuro, medo das consequências por ser gay, afinal me sentia só, e as referências da mídia e dos gays em geral era sempre distorcida, com putarias e vulgaridades.
    Com o tempo e maturidade a gente vai aprendendo, a vida ensina, por bem ou por mal.
    O que não pode é deixar de viver por medo da vida.

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