A vida em um sopro

Duas realidades de tempo diferentes

Dentro de casa, na minha quarentena, as coisas tem passado mais lentamente do que eu gostaria. Fico numa espera, cuidando de meus bichos, das plantas, cozinhando, lendo, refletindo, escrevendo, namorando e tocando piano. Olho para minha empresa algumas horas por dia, para oferecer algumas coordenadas ao meu sócio e um certo apoio moral. As coisas estão indo, como se previa.

Resolvi voltar a compor também, algo que eu não faço desde 2008 quando as circunstâncias ocuparam meu tempo com outros interesses.

A espera é de que as pessoas, no Brasil, entendam de maneira efetiva e prática que o mundo anterior há aproximadamente um mês no Brasil, depois de um irônico “espirro” vindo a partir do oriente do globo, não mais voltará. Hoje, estamos nos contraindo em termos materiais, talvez poupando e montando pequenas reservas como nunca antes. No meu caso, eu praticamente esqueci o que é consumo para além de comida e remédio. Ok, os canais digitais também e livros.

Novamente, para não ser míope ou classista, essa realidade de poupar e poder fazer reservas não incluem os 2 bilhões de seres humanos espalhados pelo mundo, abaixo da linha da pobreza e os 13 milhões dos mesmos no Brasil. Enxergando “macro” agora de novo – algo que tenho mais tempo e notando que há 35 anos para mim, desde que movimentos supostamente transformadores e sociais se manifestaram firmemente na África em 1985, tendo o “We Are The World” como simbologia máxima – nada mudou. Não foram os humanistas socialistas que transformaram essa situação. Tampouco os humanistas liberais e, se há poucos humanistas evolucionários “do bem” espalhados por aí, também não foram eles.

A espera, enfim, é de que o tão comentado sistema capitalista passe por alguma transformação. Alguma, irremediavelmente, sofrerá já que a previsão média, sem vacina, é que o mundo inteiro se condicione ao fator “coronavírus” por dois anos. Dois anos sofrendo influências diárias desse novo aspecto, muda as formas da economia, o jeito de produzir, de consumir e a maneira que o ser humano faz e transita em sociedade. Muda e estabelece na sociedade essas mudanças.

Teremos prós e contras como sempre. Só aguardo, com alguma pouca expectativa, que o ser humano manifeste novos prós e contras. De todo modo, que os meus interiorizados sentimentos de prós e contras se atualizem. A sensação que vai se estabelecendo é que o mundo será mais lento. Eu, particularmente, gosto disso.

Fora de casa, fatos consumados, a partir de outros fatos (e não de crenças), estão se materializando. Como tenho antevisto, além de toda carga científica e estatística as quais a realidade de coronavírus tem nos colocado goela abaixo, nos forçando de uma maneira ou de outra a abrir mão de nossos apegos à religião humanista, crenças e fantasias, a ciência por trás da política nacional (e mundial) tem sido estudada e analisada – por mim – com bastante cuidado e envolvimento. É uma satisfação, por meio de esforço e prazer, estar acertando meus palpites. Tão prazeroso como saborear o resultado de uma nova receita de comida ou ver as novas folhas que brotam das minhas plantas a partir de cuidados apreendidos nos últimos 18 meses. Tão reconfortante como ter organizado a minha empresa e ter articulado em tempo para garantir o emprego da minha equipe por um tempo.

Se eu fizesse tudo isso sem ter a certeza de onde estão as informações mais corretas, acertadas e verídicas, livres das alucinantes e delirantes informações e crenças sobre tudo que existe hoje no mundo, minha comida não ficaria boa, minhas plantas morreriam, minhas análises políticas não dariam certo e, acima de tudo, estaria vivendo momentos existenciais terríveis, fantasmas, medos e fantasias por não conseguir segurar firme minha “embarcação”, tendo que jogar “homens ao mar em oceano revolto e tempestades nunca antes vistas”.

Dou risadas agora pelo tom de dramaticidade! Mas acho que a metáfora é esclarecedora: eu estaria vivendo tormentas emocionais e mentais se tivesse que demitir pessoas agora.

E assim, motivado por tantas (intensas) movimentações políticas no Brasil como sugeri, com a emoção intensificada que nos é culturalmente justa por oferecer ao Big Brother Brasil uma das maiores audiências do mundo, é que eu trouxe esse novo texto logo abaixo em minhas redes sociais.

A partir de um tempo, ou sempre talvez, tratar de política de maneira sóbria exige sangue frio. Recomendo parar por aqui se achar demais:

“Entender um pouco mais das artimanhas da política exige sangue frio. Principalmente porque, quando a gente acaba erguendo a ponta do tapete para ver os detalhes, pode subir o cheiro fétido do ser político brasileiro.

Da enxurrada de corrupção incessante intrínseca ao Brasil em diversas esferas. Em plena pandemia, sim, o esgoto pode estar aberto. As ideologias, indignas de uma aliança tipo PT/PMDB, indo novamente as favas.

Nessa de buscar as pistas, de lidar com o odor azedo que sobe de surpresa (ou não), não vale só ouvir opiniões e análises daqueles que, supostamente, me interessam ideologicamente no momento democrático do voto. Isso é conveniência para colorir minha fantasia. A gente só enxerga metade da moldura.

Política é História, é uma costura de dezenas de contextos e, se eu ainda não tenho anticorpos contra o covid-19, contra a polarização eu tenho.

Política é uma ciência. É fria. É uma visão de um labirinto e — para tratá-la mais perto da ciência e mais longe do fla-flu — entendo ser necessário uma dose intensa de sobriedade, para enxergar melhor o que alguns chamam de “big picture” e, quando necessário, levantar as pontas dos tapetes para, as vezes, ver muita sujeira.

Hoje eu ouvi uma hora de entrevista de um líder centro-direita, velho de guerra, daquele semblante e ideia de tempo que (provavelmente) cria simpatia com pouquíssimos da minha geração (para baixo). Gente da minha área então, impossível pensar.

Claro que eu desprezei a parte ideológica/emocional pertencente a valores conservadores que – supostamente – poderia me atingir; um dos motivos para ser “sangue frio” para enxergar a moldura toda. A gente tem que saber ouvir sem pirar.

Me ative a alguns fatos, alguns detalhes, que colocam todo contexto da pandemia no Brasil como pano de fundo de uma possível tramitação de desvio de arrepiar os cabelos. A exemplo do superfaturamento dos leitos no Rio de Janeiro que já noticiou por aí como suspeita e muito mais.

Velhas barganhas sob as barbas de Bolsonaro. Outrora, sob as saias de Dilma.

Estamos num looping.

Ao mesmo tempo, olho a simbologia do presidente perante a população (a favor e contra), remonto em minha memória a situação de Dilma em tempos de seu sufocamento no Planalto, começo a perceber todo cenário que se forma a volta dele, lembro também como foi a situação a volta dela, percebo a inabilidade de articulação de ambos, cada qual ‘solfejando’ suas merdas e, a mesmíssima construção da época de Dilma se faz: Supremo e Congresso começam a formar muralhas. Presidente da Câmara pincela algum pedido.

Estamos num looping.

Ao mesmo tempo e não menos importante, somos o mesmo povo – independente de classes e educação – embasando a política em crendices, Deus ou Diabo, emoção e fé. Surtando nas atitudes. Concedendo poderes a ele (poderia ser ela) que, em vias de fato, ele não tem. Ela não tinha. Só em nossa fantasia de presidente-herói.

A estética é muito pouco para garantirmos uma boa política.

Estamos num looping. E quem vai se ferrar, para não soltar uma palavra pior, é o brasileiro. Encaixamos bem no papel de coitados, não é mesmo?”

PS: Hoje faleceu a tia de um ex-namorado. Parece que estava com câncer faz um tempo. Foi a minha ex-sogra, que se “encontra” bastante comigo das redes sociais, que veio me comunicar. Fiquei triste e honrado ao mesmo tempo. Honra… essa palavra faz sentido no Brasil?

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