A vida gay aos 42 anos

O que acontece quando – há décadas – pais e familiares mais importantes (no sentido afetivo da palavra) já te aceitam gay?

Quando todos seus amigos, também há décadas, já convivem desapercebidos com a sua homossexualidade e, quando pintam novas amizades, rapidamente o assunto é introduzido e ninguém ou quase ninguém reage de uma maneira refratária?

E mesmo que reajam, não é preciso se manifestar para que mudem pois há uma nítida sensação que existe uma energia suficientemente à favor por aí, “no ar”? Que essa energia independa de Bolsonaros, Moros, Lulas ou Haddads?

O que acontece quando as pessoas do seu trabalho sabem do fato de você ser gay e ninguém leva esse ponto em consideração? Que paira fortemente um “tanto faz”?

Ou quando você convive com os familiares do namorado e vive as dores e as delícias das relações familiares como qualquer humano em meio a outros humanos?

O que acontece quando você anda na rua, para lá e para cá com seu companheiro e ninguém mexe contigo ou, se mexe, você nem está com o radar voltado a esse tipo de comportamento?

Ou quando a balada gay, o bar gay, a festinha mix, a Rua Augusta ou qualquer outro “prefixo” acompanhado do “sufixo” gay não te faça mais sentido na prática, sem – também – ficar dizendo assim porque a questão não é ser politicamente correto?

O que acontece quando você rodou e virou de novo a noite na balada gay, na sauna gay, no bar gay, na festinha mix e na Rua Augusta, voltou com amigos heterossexuais a uma dessas recentemente, deitou às 8h da manhã, curtiu 3 vezes mais do que a juventude da vez e não são mais nesses ambientes que você sabe que encontrará o prazer da identidade propriamente, do pertencimento ou da identificação?

Ou quando você se sente descolado de um deputado como Jean Wyllys ou David Miranda, sem a obrigação de aprovar ou autoafirmar sua postura, tampouco se sentir afeito à simétrica oposição?

O que acontece quando você escreve em um Blog e, a partir de centenas de textos compartilhados durante anos, gays, bissexuais, lésbicas, trans, HSH, gouines, “brothers”, esposas desconfiadas, namorados desconfiados, entre outros, vão descrevendo reservadamente suas vivências e te completando de informações, conhecimento e abrangência de visão sobre a sexualidade, sobre valores afetivos, sobre interesses, problemas e questões dos quais – não necessariamente – dependam de um divã ou de um psiquiatra?

Bom, de maneira símbolica e certa, a gente morre quando tudo isso ou quase tudo deixa de ser necessidade.

***

Eu comecei a morrer há alguns anos e não saberia precisar o ponto inicial dessa falência. Talvez aos 33 anos, quando eu sentia com alguma clareza – inside – que tudo isso não era mais fagulha para a tal fe-li-ci-da-de.

Desafiar o sentido de pertencimento é bastante complicado e, tudo indica, pouca gente está levantando essa bandeira com alguma consciência agora. Na realidade, a maioria está em um movimento contrário, buscando a caixinha certa que aceite seu formato!

O mesmo para a necessidade de identidade e identificação, ou de uma intrínseca e normalmente inconsciente necessidade humana de autoafirmação.

Quem descreve hoje essas linhas, com 42 anos, foi morrendo por um período pois essa morte é lenta, gradual e acontece a medida em que você dispõe de energia para focar em outras grandezas. Ou quando você descobre que a vida precisa ser escrita sobre outras dimensões, tipo Arya Stark, para ficar mais didático.

E o interessante é que, da mesma maneira que você não identifica com certeza quando você morre, você não percebe exatamente quando você renasce. Mas é certo: você renasce.

Eu já não lembro mais que eu sou gay. Ou se lembro é por segundos, em situações específicas.

Essa afirmação, possivelmente, soa como um ultraje para alguém ativista ou para alguém que entenda que o nosso orgulho gay deva ser reverberado (de nós) todas as semanas ou todos os dias. Mas não é bem isso e, se você está entendendo por aí, talvez não assimile a liberdade que existe – por dentro – quando ser gay (para nós e nós mesmos, vale o pleonasmo) não é mais um referencial.

Por um lado, certamente, nos tira um chão! Parece que a gente passa a andar por um tempo ao léu, perdido, com uma fumaça aos olhos, flutuando sem saber a onde chegar! Essa sensação sem chão é natural porque descontruímos pilares e alicerces que, até um tempo atrás, formavam nossa zona de conforto (arduamente) estabelecida, as ações e as reações certas. As dores, as delícias e as surpresas boas e ruins desses referenciais.

Por outro, quando se começa a renascer, a gente passa a olhar para a humanidade de maneira mais abrangente e nota que, as especificidades, diferenças e nuances não pairam entre um gay e um heterossexual mas, sim, em indivíduo por indivíduo. A gente descobre que hoje a nossa visão é limitada e que amanhã será menos e, depois de amanhã, menos ainda.

Essa percepção muda o nosso mundo interior e fica muito mais simples se descolar do julgamento, da necessidade de se sobrepor a algo ou alguém porque de fato está se sentindo por baixo. A gente se livra, e muito, do mau hábito da fofoca. Você já parou para pensar que as pessoas se reúnem para falar (bem ou mal, mais mal do que bem) de outras pessoas?

Ser gay se afasta mais e mais dos esteriótipos ou arquétipos, dos lugares manjados ou dos lugares descolados e alternativos e, talvez, pareça algo mais ordinário. Trocamos egocentrismos, narcisismos e egoísmos e aceitamos melhor nossa pequenez.

Eu, pelo menos (ou “pelo mais”) passei a entender melhor a ideia de ser um pedacinho de um grão de areia, de aceitar essa condição, em um contexto muito maior ou infinito. De que, talvez, o antropocentrismo, que na real determina e rege todos os nossos atos, crenças e valores, das políticas, das construções sociais, das leis e regras, e do nosso entendimento de tudo ou quase tudo, na realidade, são quase nada. Há muito mais por vir para nós que estamos muito mais próximos de nossos ancestrais primatas do que qualquer tipo de representação religiosa ou filosófica de um ser mais evoluído!

Quando a gente renasce, entende a importância da comunhão com a solidão. Da solidão que não vai deixar a tevê ligada, uma música tocando do celular ou não vai ficar conectado às redes sociais bisbilhotando a vida alheia. Dificílimo esse exercício de descolamento, desapego, da necessidade do não pertencimento para, enfim, poder pertencer a tudo que se quiser mas sem colar. Sem dar muita satisfação, sem “rabo (de primata) preso” a algo ou alguém.

Pertencer a tudo que se quiser mas sem colar: para isso eu tive que me desconectar das minhas próprias necessidades de pertencimento, fazer um acordo com a minha ideia de solidão, morrer por um tempo para renascer. E acho que esse fluxo pode ser sem fim.

Afinal, quem é a fim dessa jornada consciente? Qual o propósito disso tudo? O que se ganha com isso?

A mim hoje, com 42 anos, não é nada mais, nem menos, do que certo desejo de paz e felicidade.

E eu não precisei (ou pelo menos ainda não preciso) virar uma Monja Cohen para isso.

4 comentários Adicione o seu

  1. Rosi Alves disse:

    Amei cada letra lúcida, que nas junções com outras formaram ideias tão claras, objetivas, esclarecedoras para todos nós indivíduos de todas as formas.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelo carinho, Rosi Alves! :)

  2. lebeadle disse:

    Putz, de repente 42! Lembro quando publicou o texto dos 36 e eu te achava velho, rs, e eu próprio fiz 38 recentemente! Mas vamos navegando por essa existência, aprendendo com o choque dos afetos, morrendo e renascendo a cada dia!

    1. minhavidagay disse:

      38? Tá velhinho hein? rs

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