Abri os olhos agora

A psicologia, devido a terapia que faço há mais de 12 anos, junto com o meu olhar aos diversos relatos acumulados aqui no Blog MVG, é bastante influente em tudo que escrevo. Claro que não sou profissional formado na área, o que inclusive me confere bastante liberdade para poder escrever, mas assim vou conduzindo as linhas que aqui se seguem.

Tenho dois casos de amigos bem próximos a mim que, no sentido de “tempo normal” para desenvolverem vínculos sexuais e afetivos (no caso gays), demoraram mais. Um deles hoje tem 47 anos e o outro 36. O primeiro começou a se permitir a conhecer outros gays com a finalidade sexual e afetiva aos 45 anos e o segundo aos 33.

Anteriormente eu tinha contato apenas com o amigo mais velho. Logo que ele iniciou sua vida gay de maneira mais ativa, possibilitando conhecer outras pessoas com interesses emocionais, percebi que muitas das ações e reações diante o novo, no caso um outro gay preterido, não eram muito diferentes de um adolescente de 16 ou 18 anos iniciando suas primeiras vivências, entre paqueras, aceitação e foras. Era tão evidente a mim, que me tornava um certo mentor para relacionamentos, o quanto meu amigo com 45 anos a época, gestor de sua área de atuação, estável financeiramente, muito bem articulado, responsável por seus pais e um adulto com todo direito as qualidades e ganhos de quem ultrapassava os 40 anos, ainda era um jovem no quesito sexualidade e afetividade.

Até então, notando seu desenvolvimento durante esses últimos dois anos, hoje com 47, achava que certa ingenuidade, ímpeto, apegos e dilemas com todo teor juvenil, eram muito mais relacionados às características pessoais e não propriamente uma consequência do longo tempo de contenção de sua sexualidade e afetividade. Mas foi aqui que, bem recentemente conheci um outro amigo por intermédio deste mesmo meio – o Blog MVG -, que conteve seus desejos homossexuais por 33 anos. Hoje, com 36 e recém terminado um namoro de dois anos, manifesta um “jeitão” todo moleque, ingênuo e impetuoso para buscar resolver seus dilemas pós-término.

Certamente, a impetuosidade do meu amigo de 47 anos é bastante diferente em relação ao meu amigo de 36, aí sim credito a manifestação diferente como fruto de personalidades distintas. Mas a “molecagem”, por assim dizer, cada um sendo o moleque que é, é digna de adolescentes de 18 anos! rs

Eis uma nuance bastante normativa para quem é gay: em meio a uma sociedade cada vez mais tolerante, pelo menos nas grandes capitais, ainda existem muitos gays espalhados por todo mundo contendo seus desejos em fases de vida diferentes. Alguns com 18 anos, outros com 23, terceiros com 35 e quartos dos 44 para mais. Embora muitos jovens gays deem vazão a experiências sexuais com 14, 15 ou 16 anos hoje – o que muitos consideram um alarde -, existem muitos outros, já homens, com diversos aspectos da vida (estudo, trabalho, estabilidade financeira, relação com pais e amigos e etc.) já estruturados, mas com o quesito “sexualidade e afetividade” ainda em contenção. Eu comecei a minha história de homossexual, contabilizando relacionamentos afetivos e contatos sexuais, com 23 anos e, por vezes ainda, me identifico com meu amigo de 45 e com o de 36, ou melhor, é tão claro e consciente a mim que algumas pessoas funcionam assim, “adolescentes adultos” sem querer, que as vezes me cabe o papel de orientação.

Reside em mim um “encantamento da paixão” e não sei se isso é fruto da minha própria contenção que ainda permanece. Talvez eu precisasse de um MVG para me dizer isso ou aquilo, ou talvez eu tenha que levar mais do assunto para a minha terapeuta. Mas, com 38 anos, por mais que um término de relacionamento me encha de faltas de esperanças e desilusões, parece que sempre darei a mim uma brecha para me sentir intensamente apaixonado de novo. Isso é tão adolescente! =O

Outro aspecto que é bastante comum no meu caso é o fato de me atrair, quase que exclusivamente por meninos mais jovens. Taí algo que já levei para a minha terapeuta algumas vezes e as reflexões transitam sempre pelos mesmo aspectos:

1) O mais velho da relação busca “resgatar” sensações e emoções juvenis que ficaram aprisionados e não foram vividos em tempo corrente. Reside na imagem e na fase da vida do mais novo a sensação de um “tempo que se perdeu”, das potencialidades, o que justificaria certa tendência dos “tiozões” (como eu – rs) se sentirem atraídos por mais novos;

2) Os mais novos que gostam de caras mais velhos, normalmente (e isso não é uma regra nem cá, nem lá) buscam na imagem da figura masculina do homem mais velho, diversos atributos de segurança e afetividade que não tiveram com o pai.

Curioso que a grande maioria dos meus ex-namorados ou ficantes tinham um relacionamento apático ou distante de seus pais (homens). Curioso que eu, não posso negar, a mesma coisa. Mas que fique bem claro: isso não é uma regra. São teorias da psicologia.

Tirando os excessos e loucuras que tangem a pedofilia, quando caras mais velhos se apropriam de certa ingenuidade de jovens bastante novos e o sentimento de poder e estupro é excitante, é altamente frequente esse tipo de “composição” nos relacionamentos. O caras mais velhos oferecem por um lado certa segurança intelectual, moral e/ou material e os mais novos, na função nesse tipo de “caixinha”, o deslumbramento das potencialidades, o sentido de virilidade que inebriam os mais velhos.

Existe certo ou errado nessa história? A parte a pedofilia, claro que não. Como dizer que é errado a manifestação de afetividade, desejo e amor só porque existem idades diferentes? A mesmíssima coisa acontece na heterossexualidade, quando mulheres e homens maduros se entregam aos braços (e vice-versa) de seus jovens. De pessoas atuantes na mídia, temos dezenas para exemplificar. Mas tais identificações que são humanas não deixam de serem cercadas de preconceito pelo mesmo conservadorismo heteronormativo.

Mas o fato é que, as vezes, algumas pessoas querem modificar um pouco esses padrões comportamentais. Do dia que tomei essa consciência no sofá da minha terapeuta para hoje, apesar de não pensar em me relacionar com pessoas mais velhas por não me sentir atraído (por qualquer bloqueio psicológico que possa haver por trás) fui revendo como eu me comportava frente aos meus ex-namorados, deixei de assumir algumas posturas e parti para outras ações, para seguir por estradas diferentes. Os ganhos pessoais costumam ser enriquecedores para ambas as partes.

Sabe quando você diz assim: “toda vez fico com fulano com o mesmo perfil” ou “coisas assim sempre acontecem comigo com os caras que me relaciono”, ambos no sentido de lamentar porque as histórias se repetem (e não funcionam como você gostaria)? Pode ter certeza que é a sua maneira de agir ou reagir, de se manifestar ou mexer com o outro que está te colocando numa mesma situação semelhante. É a partir daí que eu falo: (1) temos que assumir que vivemos algumas caixinhas rígidas e inconscientes; (2) a vida e/ou uma terapia ajudam a conhecer a nós mesmos, o que traz para consciência a maneira que funcionamos; (3) se quiser mudar, depende somente de você e não do outro. Não depende nem da terapeuta.

Primeiro a gente muda para que o mundo a nossa volta, que inclui o preterido, também mude. A transformação é fundamentalmente mental.

Lembra quando eu digo que “nós somos a maneira que enxergamos o mundo?” – taí mais uma explicação para a minha frase.

1 comentário Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Jeitão moleque, rs, quase um adolescente rebelde sem causa. Rs.

    Isso explica minha loucura por baladas todo final de semana, afinal estou nessa faz apenas três anos,rs, diferente do meu ex, que mesmo antes de se assumir já conhecia as baladas desde 2010, isso explica ele em uma vib, trabalhar fora do Brasil , faculdade concluída e eu no esquema clube, faculdade e cinema,
    Bem isso que acontece, 18 anos, rs.

    Só minha preferência, seja mais jovem ou mais velho, que não ligo muito.

    O ex é mais jovem ( em alguns momentos parece ser mais velho, cabeça de tiozão, rs) , já tive lance com rapazes na mesma faixa de idade e também mais velho, acima da casa dos quarenta.

    Este quarentão, rs, só não rolou pelo fato dele ainda estar muito ligado ao ex, apesar de ” adolescentes “, rs, entendi o recado e sai fora.

    Relação com meu pai é fantástica, até melhor que com a minha mãe, meu pai é o meu confidente, ao contrário do meu irmão que é muito mais apegado com a minha mãe.

    No entanto não somos referência…os três são gays.. Pai e filhos.

    Adorei o texto.

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