Acabou o mi-mi-mi

Reli meus últimos posts e, aqueles que não se referiam à situações e experiências com o Rafa, estavam regados de um “mimimi” pessoal. Quem diria, não? MVG, ou melhor, Flávio, referência para tantos gays que passam por aqui, jovens e adultos, demonstrando certo “ar pesado”… pois realmente, confesso que eu estava me curando de um luto que mal estava me dando conta. Para explicar, acho bom retomar o conceito de luto, muito utilizado na psicologia e já comentado por aqui algumas vezes: luto é um estado que qualquer ser humano vive quando há uma perda, seja de pessoa, objeto ou modelo, que não necessariamente está relacionado a morte de alguém.

Alguns exemplos de luto que um indivíduo passa e não está relacionado com uma “morte real”: a perda de um emprego, o término de um namoro, um objeto de valor sentimental que desaparece e alguma mudança na vida em relação a um ideal. Todas essas situações tendem a levar-nos a viver o luto. O estado de luto conta com 5 fases principais: (1) negação, (2) raiva, (3) negociação, (4) depressão e (5) aceitação. Na primeira fase (negação), a dor da perda ou mudança é tão intensa que não somos capazes de aceitar. Entramos em um processo de negação em relação a possibilidade; não queremos acreditar que está acontecendo. Na segunda (raiva), embora estejamos ainda negando a realidade, aparecem a raiva e a inveja. Se a perda é de uma pessoa, passamos a odiá-la. Na fase 3 da negociação, a ficha começa a cair e, normalmente, passamos a negociar com “entidades superiores”, Deus, consigo ou com algo de acordo com as nossas crenças. Buscamos sempre prometer alguma coisa ou realizar sacrifícios para que tal situação se reverta.

Essas três primeiras fases costumam ser mais rápidas e, na maioria das vezes, nem nos damos conta. A quarta, da depressão, pode durar semanas, meses, anos ou – as vezes – o indivíduo nunca sai da quarta para a quinta fase. A pessoa toma consciência que a perda é uma realidade inevitável. Todas as fichas caem. Vem o vazio, a impossibilidade de contornar a perda e a fragmentação dos ideais. As lembranças associadas ao objeto, pessoa ou ideal tomam outro valor.

Por fim vem a aceitação, que é o momento em que o indivíduo aceita a perda com paz e tranquilidade, sem mais desespero ou negação.

No universo de relacionamentos, sei que já entrei no luto mais de cinco vezes (foram mais de 5 namoros consideráveis). Tenho consciência hoje que meu quarto término se manteve na fase 4 (da depressão) por mais de um ano, cruzando-se inclusive com meu quinto relacionamento, o que não me fez necessariamente um bandido pois, todos esses processos são inconscientes, psicológicos e humanos. E embora também, o título “bandido” dependa da percepção de cada leitor (rs). É importante salientar que o estado de depressão no luto não representa todos os significados preconceituosos referentes a uma pessoa em depressão profunda.

Feita essa introdução conceitual, ontem eu me dei conta que eu estava vivendo o luto por um ideal, fase 4 da depressão. Há 14 anos atrás defini por um modelo de empresa e eu tinha apenas 24 anos. Tal modelo incluía funções e expectativas sobre pessoas que atenderam os meus ideais até então. Mas foi em 2015 que tal modelo ruiu e eu me vi incapacitado de começar tudo de novo. Era um plano de 14 anos! Para bom entender do MVG – aqueles que são leitores mais assíduos ou me conhecem pessoalmente – minha depressão raras vezes se expressa em melancolia ou tristeza, a não ser quando eu esteja sozinho. Confesso ter projetado muito dessas minhas dores no cenário político nacional (ótimo saco de pancada aliás – rs), sendo mais um boboca querendo encontrar vilões.

Ontem tive o lampejo de consciência (assistindo Naturo – rs) e, hoje, tive a minha sessão de terapia, por “coincidência”. Foi esclarecedor: para mim, seja no campo pessoal ou profissional, eu tendo a querer “forçar” o luto para me apaziguar logo. Sofro pelo “oposto”, de não querer me afundar em choros, síndrome de vitimismo e lamentações por “toda eternidade”, mas de ficar forçando a sair do estado de luto o quanto antes; a chegar logo na etapa 5, da aceitação.

Sempre associei (com bastante clareza) o processo de luto com a morte de entes queridos ou rompimento de relações. E foi ontem e hoje que entendi que o luto funciona para a grande maioria das nossas perdas, aquelas que possuem alguma representatividade sentimental.

No final da sessão, penúltima do ano, concluí que estou mais “capacitado” para viver lutos de relacionamentos por sempre ter clareza que, tais processos, são comuns em rompimentos amorosos. Faz muito tempo que não substituo pessoas num intento de fechar os “buracos” das dores de um relacionamento perdido.

ACEITAR que eu andava amargurado, com a CONSCIÊNCIA que obtive ontem e hoje a respeito da queda de um ideal de modelo de trabalho, da minha empresa, foi um divisor de águas. Faz algum tempo que eu queria afrouxar um nó e eu não sabia qual era. Eu tenho um desejo imenso de não deixar pendências de 2015 ultrapassarem meu ano, mas não me refiro as materiais – essas que são claras e objetivas – mas, sim, as emocionais que, muitas vezes, estão lá mas a gente faz que não existem.

 

6 comentários Adicione o seu

  1. neto silva disse:

    Realmente aquele mimimi tava chaaato demais. Que bom ver o MGV de volta (rs). Flavio, quando eu soube com mais amplitude o conceito de luto (freudiano) me senti mais livre pra lidar com meus probleminhas. Mas quando eu soube a diferença entre luto e melancolia, foi quase libertador pra mim. Vc esclareceu mt bem que no luto sabemos qual objeto foi perdido, seja ele material ou não. Já na melancolia, não sabemos qual objeto foi perdido. Por isso somos tomados por uma angústia de não sabermos o porquê de estarmos tristes. Pode ser que saber esses conceitos não aliviem nossas dores. Mas nos ajudam a lidar com elas. Nos tiram da prisão, da inércia e nos dão vigor para enfrentarmos esse fantasma ainda que ele seja completamente desconhecido.

  2. minhavidagay disse:

    ahahaha… pra você ver que a gente não aceita bem a humanidade das pessoas. Eu também fico frágil, Neto! rs

    Melancolia as vezes tem a ver com a personalidade… e as vezes ficamos melancólicos em estados depressivos leves. Tudo normal.

    É que essa palavra depressão ganhou estereótipos como se fosse algo sempre grave. E não é… depressão, hoje, é cercada de preconceito.

  3. Igor disse:

    Olá, MVG (ou devo dizer Flávio mesmo? rs), faz alguns dias eu deixei um desabafo na parte do site chamada “Contato”. Você se importaria de dar uma olhada e me dar sua opinião, por favor? Foi um tanto longo e eu não saberia reproduzir tudo de novo.
    Quanto ao “Acabou o mi-mi-mi”, devo dizer que sempre considerei a melancolia um sentimento charmoso e profundo, como do anjo de uma gravura de Albrecht Dürer. Mas faz pouco tempo que experimentei sentimentos depressivos bem fortes mesmo, relacionados com o “cair da ficha” da minha homossexualidade, que apesar de nunca ter me dado grandes problemas psicológicos, sempre me dava no fundo uma vergonha tanto interna quanto potencialmente social, com a possibilidade de ela ser descoberta por algum conhecido meu. Enfim, isso está relacionado também com meu desabafo. Adoraria se você o comentasse. Desculpando o incômodo.

    1. minhavidagay disse:

      Responderei, Igor!
      Nos falamos por lá…

      Abraço!

  4. Sandro Bonassa disse:

    Fico feliz em ler isso!

    Se eu consegui soltar os meus ( ajuda sua) , bom saber que você exorcisou os fantasmas.

    Naruto é tudo de bom! Eu adoroooo. Rs

    itachi, sasori da areia vermelha e o fantástico jiraya são os meus favoritos.

  5. minhavidagay disse:

    Valeu, Sandro!

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