Afetivos e sentimentais

Como gays lidam com os sentimentos

O Blog MVG é fruto de experiências próprias, relatos de conhecidos e relações com leitores. Creio que principalmente o último seja a minha mais diversa fonte de conhecimento sobre o que há para além do meu entorno normativo.

Nesse apanhado de contatos, durante mais de quatro anos por aqui e seguindo uma vida fora do armário há mais de 15 anos, “do luxo ao lixo” que a vida gay pode oferecer, uma das questões bastante comuns entre os homens (e no caso me refiro ao gênero masculino que inclui heterossexuais e homossexuais) é a dificuldade de expor afetividade e intimidade.

Intimidade não é mais o simples fato de se despir na frente de outra pessoa e realizar o sexo. Tal gesto ficou fora dos assuntos íntimos nos dias de hoje. Até mesmo o beijo, considerando que em um nível comportamental, o “ficar” colocou o beijo em outro lugar, no corriqueiro.

Enfim, intimidade é basicamente apresentar virtudes e principalmente defeitos e fragilidades, aqueles que nos humanizam perante o outro e que para o homem é tão difícil fazer; humanizar.

Por mais que uma cultura machista esteja em decadência, homens gays, no caso, ainda carregam em si uma carga cultural que disse assim a todos desde pequenos: “homem não expõe sentimento, não abre intimidade com facilidade. Homem que é homem ‘vende’ uma imagem de imbatível”.

E quando me refiro a isso, o gay pode ser super afeminado, expressar-se daquela forma alegre que conhecemos e ter muitos amigos. Nem por isso essa imagem expansiva subentende que ele tenha a facilidade de dividir suas intimidades com outro homem. A bem da verdade, em nossas diversas maneiras de construir a nossa imagem, estamos muitas vezes camuflando a própria intimidade.

As vezes você pode até achar também que sabe expor seus segredos. Mas talvez você só ache que esteja fazendo. A força para que a gente não caia do salto tende a ser muito maior. É o ego-cultural.

É histórico, heteronormativo e culturalmente nacional esse papel do homem; como tudo começou daquela maneira primitiva, pela naturalidade genética. Depois que adquirimos a consciência – o sentido de observação e análise – definimos as caixinhas para o homem e para a mulher e, somente agora, a partir de movimentos mais expressivos nos anos 70, começamos a resignificar esses papéis e os nossos comportamentos. Mesmo assim, a filosofia Cristã está colada dentro da gente muito mais do que imaginamos.

Como estamos falando em Brasil, um país que ainda vive numa pré-história sócio-cultural, a exemplo nítido na maneira como temos nos comportado com a política – fato concreto – o gay também está preso a padrões e ensinamentos de como um homem deve fazer frente ao seus grupos. É a nossa caixinha.

No final de semana passado estive com um casal de lésbicas e chegamos a uma das definições das conhecidas DRs entre sapas: a mulher tem como cultura, ou seja, é ensinada desde que é broto, a ouvir e buscar compreender o outro, “o que se passa”. É também um pouco do arquétipo da “mulher-mãe”. Embora as feministas não concordem, eu acredito também no fator “natureza da mulher”, que é genético.

Assim, quando duas mulheres topam um relacionamento afetivo, um dos atos que preenchem a própria relação é a vontade frequente de compreender a outra. Em outras palavras, a mulher em geral foi “programada” socialmente para verbalizar as próprias questões íntimas. O homem, pelo contrário, foi “construído” para ser o oposto, considerando também que, se existe uma natureza para a mulher ser como é, os homens a mesma coisa e as feministas que me perdoem. 

Mas como disse, se temos hoje consciência de tudo isso, temos também a possibilidade de mudar esse padrão, sair da caixinha e transcender um aspecto vindo possivelmente de uma origem primata. O ser humano deixou de ser bicho e com o advento da consciência percebeu padrões, definiu convenções e formou sociedades sob o advento de costumes e hábitos recorrentes basicamente do “macaco” que éramos. Temos mudado tudo isso há tempos, mas o esforço é inevitável.

Finalizo o post de domingo com um relato pessoal: sábado passado estive com o Rafa, meu ex. Ele dormiu na casa de um atual paquera e às 11h pintou no meu WhatsApp sugerindo um almoço na Liberdade. Eu tinha feito o convite no sábado anterior, ele ficou de me responder mas me deu um perdido – rs.

O reencontro foi bastante esclarecedor e posso dizer da minha parte: enquanto a mim tem sido muito tranquilo transar em lugares como a sauna ou chamar meninos para minha casa, ao me deparar com o Rafa ficou claro que o espaço de afetividade dentro de mim ainda tem dele. Sem vontade nenhuma de retomar o namoro pois sei que no pacote tem outros poréns. Tem dentro de mim a parte boa do que foi. 

De maneira simples e leal (a mim), lancei assim quando ele me questionou alguma coisa:

– ah, eu não consigo ter tantos namoradinhos como você faz. Transar eu tenho transado muito e já nem sei mais com quantos (rs). Mas o espaço de intimidade e afetividade ainda não esvaziou – claro que ele entendeu que eu me referia a ele, quando imediatamente abaixou o olhar e lançou um sorriso. 

Eu acho que é tipo isso o que traduz “lidar bem com a própria intimidade”. Basicamente abaixar o ego-cultural construído, humanizar-se perante aquele que foi namorado e abrir de boa, sem se achar mais ou menos por isso. Exposto ou fragilizável. Com 39 anos aprendi que o que nos faz forte são posturas como essas, quando reduzimos o próprio ego porque estamos resolvidos com o sentimento envolvido.

Não é à toa que tenho amizade com ex-namorados e afirmo que isso é fruto também do saber lidar bem com a própria intimidade. É basicamente positivar a própria dentro da gente. Quem diz que isso é coisa de mulher é a sociedade. Sentimentos, quando transcendem a caixinha, não está associado a gênero.

4 comentários Adicione o seu

  1. André disse:

    Minha nossa, que texto especial. E fico feliz em saber que dei um pequeno toque pra que ele ocorresse. O que você cita, mais ou menos eu já tinha em mente, mas não de forma tão clara. Não há muito o que acrescentar, você foi bem elucidativo rs. Apenas, gostaria de ressaltar a questão de ‘humanizar-se'(saber lidar com a própria intimidade); talvez este seja um dos caminhos…
    Um grande abraço Flávio! :)

    1. minhavidagay disse:

      Valeu, André! Abraço :)

  2. Gostei demais. Parabéns ao André pela sugestão. Comigo eu sou bem aberto conto dos meus sentimentos para todos… Mas o problema é lidar com eles né. Contar é uma coisa trabalhar com esses sentimentos é outra. E muitas vezes tem aquele rótulo ah porque sou homem (mesmo sendo gay) não posso sentir isso ou aquilo. Que triste. Até porque sentir independe de denominação de rótulos, se sente e pronto. Paremos de nos culpar pelo que sentimos.

  3. Rothuzs disse:

    A humanização se aprende com os outros E consigo, felizmente e infelizmente, não? Até por isto ela é diferente para cada pessoa. O que não se pode é querer que identidades deem conta de suprir as nossas expectativas… Acredito que da para lidar bem com afetos e sentimentos desde que haja paciência e disposição para o diálogo e as consequências de lidar com diferentes ideias e conviver com elas.

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