Agora que eu cresci

Virou meu ano e agora tenho formalmente 38. Na semana passada, havia escrito essa breve reflexão no Facebook: “De volta à filosofia de botequim: ‘qual o sentido do viver? A mim, uma eterna exploração da condição de ser humano, sob uma segunda condição: do respeito ao limite do outro'”.

Porque dentre tantas “caixinhas” que me refiro aqui, a que me parece insuperável (o que a torna magnânima) é a condição de ser humano.

Até mesmo as convenções da heteronormatividade são superáveis, à medida que nos prestamos a tomar consciência contínua dela mesmo e de como suas regras e ditados reverberam em nós. Mas precisamos exercitar.

Heteronormatividade nada mais é que um pilar cultural e cultura, apesar de ser normalmente rígida, está constantemente em transformação e revisões, no âmbito social. Na época do Iluminismo a Astrologia fazia parte do currículo das academias. No tempo do meu ginásio eu jurava a bandeira brasileira uma vez por mês. Até 15 anos atrás ninguém dependia de smartphones. Nesse mesmo tempo, redes sociais representavam ilustres desconhecidas.

Nos anos 50 e 60, fumar era sinônimo de status e glamour. Hoje, bacana é praticar exercícios físicos diários e, na medida do possível de cada um, ostentar um corpo moldado sob as referências atuais de beleza parece ser o mais legal. Algumas pessoas se tornam tão viciadas nesse “estilo de vida” que já faz um tempo que essa doença tem nome: ortorexia.

Por falar em estética, homem antigamente não precisava necessariamente entrar nesse universo. Hoje, gays ou heterossexuais, podem se interessar sobre tais assuntos, como corte de cabelo, marcas de roupa, perfumes e produtos de beleza. Na condição de ser humano, precisamos dar nome aos bois e inventaram também a palavra metrossexual.

Não faz tanto tempo atrás assim que “ser gay” se resumia a um “tipo”, de semblante caricato, com trejeitos de mulher e qualquer coisa que fosse diferente disso era “ser heterossexual”. Isso tem mudado em nossa cultura e, para uma consciência geral, ser gay não precisa mais (e nunca precisou) desses jeitos específicos. No pacote cultural, hoje, vivemos conflitos e rivalidades entre “ser masculinizado” e “ser afeminado”, tópico cuja abrangência de discussão é (extremamente) recente em nossas rodas sociais. Tenho preguiça atualmente, mas tem um monte de gente que prefere viver boa parte do tempo fermentando esses dilemas.

Hoje podemos conhecer pessoas sem sair de casa: Facebook, salas de bate-papo e aplicativos. Conhecemos o outro com a profundidade que nos convém ou com o limite que o outro concede. Normalmente, vivemos crises e conflitos com esses limites.

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O processo de amadurecimento normalmente vem com um teor de sofrimento porque mudar, ou perceber que as nossas próprias caixinhas não nos sustentam mais, é bastante difícil na maioria das vezes. Eu precisei viver um punhado de relacionamentos para compreender de que maneira se manifestava a minha imaturidade, as vezes como uma pessoa controladora e ciumenta demais, as vezes preocupado demais com a beleza dos outros (e não com a minha), as vezes mimando demais o namorado para gerar uma falsa sensação de segurança e, muitas vezes, tentando realizar (com esforço) os ideais que os outros projetavam em mim, esperando que de alguma forma o outro me recompensasse. Acabava, sem querer, desumanizando a própria relação.

Descobri, a duras penas, que ter preguiça, não ter vontade ou poder dizer um “não sou a fim” as vezes incomoda o outro. Mas descobri também que é muito mais maduro expor assim do que simular (para querer agradar), dizer “sim” (mas sentindo que é “não”) ou, na pior das hipóteses, dar perdido, ser esquivo ou tratar com indiferença. A grande maioria escolhe hoje pelas últimas e, por isso, tantas reclamações se materializam por aí, para ajudar a enchermos nossa boca com o velho discurso: “as pessoas não querem nada com nada!”.

Nessa impressão, do nada com nada, talvez esqueçamos de nos atentar na “sociedade líquida” (outro nome) que formamos hoje. Todos nós somos responsáveis por ela ser do jeitinho que está porque faz parte dessa liquidez esperar que o outro mude (nunca a gente). Achar que as relações estão perdidas é um fatalismo danado, pensamento provável de alguns que vivem nesse mundo atual.

Umas das maiores descobertas que fiz nos últimos anos e, nesse sentido, me refiro a um despertar de consciência importante, é justamente sobre certa autonomia que podemos adquirir sobre as nossas “caixinhas”. Desenvolver o pensamento abstrato não é simples, mas também não é impossível. Começa mais ou menos assim:

– Nossa, mas jogar tênis é algo muito hétero – um indivíduo que tenha esse pensamento e afirme dessa forma, invariavelmente, tem um apego a um modelo mental, cultural e intelectual que diz exatamente dessa forma: “gay que é gay não joga tênis”;

– Não acredito que você não bebe! Nem cerveja? – esse outro tem em sua caixinha a ideia de que “diversão e bebida tem que obrigatoriamente caminharem juntas”;

– Ah, se fulano teve uma experiência homossexual e gostou, ele é gay – taí alguém que pensa assim: “transou com outro do mesmo sexo e gostou, é gay”;

São apenas exemplos. Por vontade própria (e fica aqui a referência para quem visa algo semelhante), eu tenho cada vez mais transposto determinadas “regras culturais” que traduziriam nas entrelinhas os meus apegos. E é essa a palavra mágica: apego. Quando um indivíduo pratica uma atitude homofóbica, traduz-se o seu apego extremo aos valores pessoais que, se transgredidos, geram o medo em formato de raiva. Igual quando um elemento estranho invade o quintal de um cachorro bravo. Avançar é também temer.

“Nossa, mas jogar tênis é algo muito hétero”, “Não acredito que você não bebe! Nem cerveja?”, “Ah, se fulano teve uma experiência homossexual e gostou, ele é gay” são reações idênticas, do ponto de vista da caixinha (hábitos, comportamentos, compreensão de mundo) que nos conforta em relação a alguma variação externa (ou de outro) que possa descaracterizar a própria. Eis o efeito do apego.

Agora que eu cresci, com 38 anos, um de meus propósitos de vida foi aprender a lidar com as minhas próprias caixinhas e já venho falando sobre esse assunto faz bastante tempo. Consequentemente, tenho um certo controle maior para identificar os meus apegos e tenho aprendido a atuar diferente do óbvio, como expresso nesses exemplos.

Fica aqui mais um registro, para quem pensa nessas questões. Coisas de alguém que é gay e chegou aos 38 anos.

7 comentários Adicione o seu

  1. piece of him disse:

    Ooooi… participo de um personal experiment de escrever como está sendo meu novo romance gay… quem quiser acompanhar… acredito que vai ser uma experiência interessante… https://www.facebook.com/pieceofhim

    Não está fácil encontrar uma tampa pra panela… mas a gente não desiste nunca, né?
    Beijo, adorei seu blog!

  2. Renan disse:

    Bom, essa é minha primeira vez aqui, Gostei bastante do Blog. enfim, Ainda vivo na minha ”caixinha” , realmente preciso me livrar de certas barreiras, tenho alguns receios e não sei porque, e ainda só tenho 18 anos., Não sei por que sinto um certo nojo dentro de mim, mais isso é raro, Por favor, não me julguem.. não sei se aqui é o lugar adequado pra publicar, sou novo aqui.. Meu mundo é bem confuso, e as vezes é tranquilo. Sei oque sou. mas isso não vem ao caso, queria perguntar algo, Como faço para lidar com os pensamentos contraditórios sobre ser gay?, pois parece que ainda não me achei nesse mundo.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Renan, tudo bem?

      Quais seriam suas principais questões contraditórias sobre ser gay?

      1. Renan disse:

        Oi,Tudo Obg, Nao sei como explicar, Acho que por eu ser de família de evangelicos me faz pensar besteiras. Desculpa o encomôdo!, :/

      2. minhavidagay disse:

        Não é incômodo nenhum. Se quiser dividir seu caso em específico, fique a vontade!

      3. Renan disse:

        Obrigado MVG.

  3. Acompanho o blog há pouco tempo e nem sempre tenho tempo de ler os post’s assim que são publicados e devido a isso estou comentando algo publicado há um tempo, mas volto e leio os post’s de onde parei.
    Acredito que pensar desta forma não seja algo apenas para pessoas crescidas de 38 anos, mas suas mensagens, tenha certeza disso, faz pessoas como eu de 24 anos e o próprio Renan do comentário anterior de 18 anos para para pensar e sair da caixinha. Tenho exercitado muito essa questão de sair do óbvio, de pensar abstrato, de sair da caixinha, e como gay não me sinto na obrigação de ser identificado por esteriótipos.
    O que me chamou atenção no post foi a questão do “ninguém quer nada com nada” mesmo ainda achando que está complicado encontrar alguém que esteja disposto a um relacionamento sério, mas me ainda assim me fez refletir e encontrar as paredes de uma outra caixinha que ao menos sabia que estava dentro.
    Renan, compartilhei do mesmo sentimento que você por ter o mesmo contexto de famílias evangélicas. Realmente quando nos descobrimos, nossa mente entra em choque sobre a nossa realidade e o que sempre ouvimos nas pregações, mas meu ponto de vista é que a religião é mais uma dessas caixinhas que nos confundem, e considero necessário perceber os limites dela e os ultrapassar na medida do possível. Isso não significa deixar de seguir uma religião e muito menos deixar de acreditar em Deus e o quanto Ele nos ama, e assim como a questão do tênis para héterossexuais, gays podem ser evangélicos e no caso desse grupo social que se junta denominando igreja é só mais um grupo social do qual você pode ou não estar inserido sem mudar a sua cultura ou crença naquilo que sempre foi ensinado.
    Não é fácil a aceitação e se encaixar nesses determinados grupos, mas meu recado se é que é viável a você é não se limitar por doutrinas que são coisas humanas e não decretadas pela palavra de Deus e acreditar que ser gay é apenas o fato de você gostar e se relacionar com pessoas do mesmo sexo que você e não o que o mundo julga que você é.

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