Ainda aos 40

Em continuação ao post anterior e sobre “a gente sabe o que quer, o que não quer e o que tanto faz” quando um gay se aproxima dos 40 anos, vou falar sobre os quesitos (1) relacionamentos, (2) família, (3) amizade:

Um gay próximo dos 40 anos fala sobre relacionamentos

Supõe-se que um gay que atingiu essa idade ou está próximo disso, viveu alguns romances. No meu caso, eu namorei muito e até casei. Já fui de usar aliança e dividir as tarefas domésticas em casa. Estou há seis meses (acho que fará, em breve, sete) ficando com o Rafa, num tipo de relacionamento que – aos poucos – vai se configurando em namoro. É a primeira vez que uma relação demorou tanto tempo para ter um nome selado.

O Rafa tem 25 anos e, apesar de ter vivido diversos namoros duradouros, ainda deseja algo mais normativo. Eu, me aproximando dos 39 anos, não faço questão de grandes formalidades, embora esteja aberto a fazer concessões. Talvez, essa coisa de configurar um namoro “certinho”, apostólico, católico e romano, do jeitinho que o Ocidente diz que é a maneira (moralmente) correta de se fazer, caia no meu “tanto faz”, justamente porque já vivi desse modelo e os sentidos sejam outros agora. De qualquer forma, o que eu quero é um relacionamento que me dê certa liberdade, sem precisar convencionar tanto.

Ontem estive com um amigo hétero e um gay. Um já com 39 anos e outro que é gay e está na casa dos 50 anos, o Ding. Fizemos um bate e volta para o Guarujá e pegamos um dia perfeito de praia. Céu azul, sol de verão, vento fresco para amenizar o calor, água gelada após dias de chuva e um cantinho da Praia de Pernambuco com bastante espaço para dar uns bons mergulhos e curtir o sol sem aquele sentimento de muvuca.

Meu amigo hétero é um solteirão que, pelas circunstâncias da vida, vai e volta com a mesma mulher há anos. Já meu amigo Ding, namorou o Tablito por bastante tempo (a perder de vista) e agora está solteiro. No caso, o meu Rafa passou o dia trabalhando. Essa autonomia, de cada um ter a sua liberdade, de acordo com os compromissos, passou a ser fundamental no meu cotidiano. Em outros tempos, quando somos “aborrescentes”, um curtir as férias com os amigos debaixo do sol e na frente do mar, enquanto o outro está fechado em um escritório usando gravata, poderia ser motivos de tensão, ciúme e conflito! Dos 20 aos 30 é bastante comum (ainda) acontecer situações como essas, dentre outras que deixam um relacionamento tão complicado, controlado e fatalmente egoísta.

Aos 40 anos, ressignificar a ideia do amor também é uma constância. Não sei se seria capaz de me apaixonar como antes, nem sei se quero. Paixão tem muito de apego, apego tem muito de questões de autoestima e autoestima é um ponto que a gente tende a resolver aos 40, principalmente com uma boa ajuda de uma terapia. Nessa idade, a gente sabe que quer viver as sensações do amor, deixando a paixão um pouco de lado. A atração física por aquilo que consideramos belo tem ainda de seu encantamento e ativa diretamente o tesão, mas é mais difícil de nos tirar do eixo, de virar uma idealização. O pé no chão fica bastante firme, sem cravar demais, o que ainda nos confere uma essencial mobilidade.

Próximo aos 40, o exercer do amor próprio se estabelece de maneira mais legítima. Quando a gente é jovem, tal palavra só faz sentido (ou na maioria das vezes) quando um relacionamento não dá certo, quando tomamos um fora ou somos “descartados” por alguém. É um “amor próprio” condicionado a uma situação de luto (rs). Na idade que estou, a peteca pode quase cair (e se caísse não seria nenhum absurdo); as vezes pode faltar grana, pode bater aquele sentimento de se achar feio, ou qualquer outra questão ordinária. Mas, normalmente, conseguimos viver o amor próprio todas as semanas, algo de priorizar-se sem necessariamente ter que estar com outro.

Com tudo isso, no ponto em que cheguei em meus 40 anos, o sentido de solidão também ganha novos contornos. Quando eu tinha 20 e poucos anos, qualquer falta do que fazer nos finais de semana, de ter que ficar “parado” em casa e sem um namorado a tira colo, me tirava o ar. Ar que conseguiria respirar criando alguma situação com algo ou alguém. Essencialmente somos seres sociais, o que nos condiciona a uma realidade: nos sentimos vivos se estamos nos relacionando. Mas, de novo, não há um apego ao fato de precisarmos criar situações e ficar numa função de socialização. Ficamos, fundamentalmente, mais felizes na companhia de nós mesmos. E pode ter um cachorro a tira colo, ao invés do namorado (rs). Tem gente que pode achar “triste” ter que “terminar” assim. Mas feliz é aquele que chega aos 40 anos sem ver tristeza nesse estado, notando que, de fato, uma nova fase apenas começou.

Um gay próximo dos 40 anos fala sobre família

A partir da média de uns 20 anos, uma grande maioria de gays ainda (principalmente aqueles que vivem longe das metrópoles), passa pela crise mental e emocional de assumir ou não para a família. Quando o filho assume, como diria Edith Modesto – mãe de um gay e reconhecida ativista – uma grande maioria de pais entra no armário. Rebeldes ou exemplares, teremos um mar de desafios para descobrir e enfrentar, aqueles que não dizem respeito exclusivamente à relação familiar, mas o ponto central – de levar a realidade homossexual – está na família (na maioria das vezes).

Embora seja descendente de japoneses por parte de pai e mãe, o que traz ao imaginário de muita gente um rigor e um lado severo sobre questões culturais e valores, conquistei respeito, simpatia e aceitação por parte da minha mãe. Por parte do meu pai, tenho já há bastante tempo a conformidade, o que para um senhor, filho direto de orientais (que a época que assumi, papai tinha por volta dos 60 anos) é uma conquista.

O fato é que, para ter essa estabilidade emocional, respeito e conformidade de ambos hoje, passamos juntos por todo um processo (cujo tempo é bastante particular). Virão altos e baixos, dúvidas, angústias e incertezas? Estejam preparados para tudo isso pois essa é uma natural tendência quando o mundo é regido por um modelo tradicional e heteronormativo: encontrar uma menina, namorar alguns anos, casar, ter filhos, netos e viver cercado deles. Como gays, depois de algum tempo (o tempo de compreendimento de todos os familiares, inclusive você) arrancamos o mito de que ser gay é estar fadado ao preconceito, a relações superficiais e a ausência de um entorno familiar. Como não há uma cartilha contando todas as normas para ser homossexual, como não se ensina na escola e normalmente (ainda) não se assunta naturalmente dentro de casa, acabamos por criar, construir e definir nossos próprios modelos na prática (ou na cabeça), que vai desde o mais heteronormativo possível, das alianças, do casamento e da inclusão de princípios religiosos até das estruturas mais diversas que, no final, diz respeito a apenas ao próprio indivíduo. O importante é estar em paz consigo e se alguém julgar direta ou indiretamente, mentalize sempre um dedo central bem erguido.

Podemos ser, por exemplo, um grupo de senhores (namorados ou não), fechando o aluguel de uma casa em Ubatuba para comemorar o Reveillon. Isso é também família. Mas se você acha “triste” que a vida “termine” assim, talvez esteja ancorado à cultura heteronormativa, o que está tudo bem. Mas aceitar que nas relações gays podemos criar formatos e modelos, a mim, foi e é instigante.

Um gay próximo dos 40 anos fala sobre amizade

Amizades gays, quando não bem resolvidas, podem acabar em bagunça. Vivi alguns rolos desse tipo entre meus 23 anos até bem pouco tempo atrás, situações declaradas e daquelas que ficaram nas entrelinhas. Em uma amizade entre gays também há muito de ciúme, controle e possessividade, se a gente não cuidar. E as chances das segundas intenções provocarem um distanciamento é praticamente certa. Sempre haverá aquele que se sentirá, em alguma medida, mais lesado quando os sentimentos são confusos e – para piorar a situação – se a história vasar para a turma em comum, é de uma natureza imatura o impulso de se criar partido. Uma bosta.

Naquele tempo em que eu saía bastante com o amigo Beto, como relatei nos posts “Cor-de-rosa” e “Entrelinhas”, a grande maioria de meus amigos quis algo a mais em algum momento. Alguns deixaram claro, com ou sem efeito do álcool (rs). E até mesmo a minha relação com o Beto, em determinada fase, dava brechas para algum subentendido.

Por todo esse período fui veemente, no sentido de desconfiar que, se eu misturasse as coisas, por mais que eu estivesse a fim, daria alguma merda. Segurei a onda, niponicamente “frio” e “calculista” para deixar a amizade no lugar e não ficar com amigos. Recentemente fiquei com um e, para dar luz ao que até então era teoria, virou um rolo cheios de nós, bem difícil de desatar. Acabou caindo em ouvidos alheios, embora entre amigos, e o tal do rebaixado sentido patidário se estabeleceu. Uma merda.

Quando terminei meu namoro com o Japinha, encontrei um amigo daquele tempo das “Entrelinhas” – igualmente japa – no Grindr. Estava no Shopping Eldorado com a minha mãe, quando notei que ele se encontrava bem pertinho. Poderíamos nos trombar para matar a saudade e colocar os papos em dia. Para a minha surpresa, ele foi feroz e bem direto, sugerindo um “sexo selvagem” comigo (rs). Ele traria a bebida a minha casa e eu entraria com o sexo (RISOS). Achei surreal a situação, dava gargalhadas sozinho, mas sabia que tal possibilidade era e é totalmente verossímil no contexto gay.

As vezes, ficar com amigos gays, seja com 20, 30 ou 40 anos é um “mal” inevitável. Paixões platônicas por um amigo, entre os 20 e 30, é totalmente possível. O que a gente precisa aprender é lidar com as consequências dessas misturas, com as cocotas e suas fofocas partidárias. E se possível, caso a relação caia numa história dessas, evitar ao máximo de se fazer de vítima materializando um bandido, caso o lance comece na amizade e termine na bagunça. Vítimas em contextos assim são bastante egoístas por mais vítimas que sejam. Como costumo dizer, no meu ponto de vista, em nenhuma relação que se estabelece há um que seja totalmente culpado e outro que seja totalmente vítima. Há cumplicidade e responsabilidade entre ambos, seja para o bem ou para o mal. Se a pessoa está cega de paixão, taí a própria responsabilidade.

Com quase 40 a gente tenta resolver contextos desses da maneira mais aberta e madura possível. Mas está aí a típica situação de que, se o outro lado escorregar, dissimular, ocultar ou fingir, não adianta maturidade nenhuma. O orgulho é uma barreira estúpida mas humana. O afastamento é as vezes uma convardia, mas nem sempre tem jeito.

Por outro lado, há amizades que podem render namoros (como foi com meu ex, o Beto) ou amigos que podem ficar e depois lidar com naturalidade com a amizade. O Rafa mesmo, namorador que é – no sentido de gostar de namorar – tem muitos amigos atuais que são ex-ficantes. Creio que parte dessa geração de jovens gays com 20 e poucos anos, conseguem trazer a relação para a amizade depois que ficam.

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Rodolpho disse:

    Agora na casa dos 40 anos consigo equilibrar bem meu espaço e meu tempo entre namoro, família e amigos. Isso me faz mais feliz e realizado. Mas para chegar nesse ponto a caminhada foi dura. Enfim, valeu a pena encarar as dificuldades como aprendizado e agora poder colocá-lo em prática.

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