Amor simples

Somos mais de 7 bilhões no mundo. Somos mais de 200 milhões no Brasil.

Quais as chances de construirmos um relacionamento diante tamanha multidão? Se dependêssemos das estatísticas, das análises combinatórias e do simples cálculo, poderia dizer que seriam infinitas.

Então, por que será que isso não acontece?

A mim, quase todas as respostas se encontram nos conceitos da psicologia, da personalidade, do comportamento e da relação social. A começar por uma afirmativa simples: a gente tem medo de gente e isso é uma grande verdade. Quem é realmente confiável a ponto da gente se sentir a vontade de expor a intimidade? Você é uma pessoa confiável? Será que o outro é confiável?

Você é uma pessoa confiante? Será que o outro é confiante? As vezes você pode ser uma pessoa bastante confiante, certa de seus valores, intenções e objetivos. Mas se a outra pessoa não for, será que cabe a você praticar o assistencialismo? Assistencialismo não é amor e se você praticar tal assistência pode acabar perdendo-se de seus próprios valores.

Nesse país de cultura classista, quando defendemos mais as diferenças do que as semelhanças, a situação fica mais fragmentada. Caímos num jogo intrincado quando existe orgulho na relação “ter X ser”. A bem da verdade é que a gente tende mais a complicar do que facilitar. Supervalorizar as diferenças é assumir invariavelmente um distanciamento. E a gente está querendo sempre buscar um destaque, uma diferenciação para mostrar ao outro. Precisa disso em pleno século XXI? Tão digno seria uma busca de si mesmo sem precisar de aplausos.

Outro ponto, que é bem subjetivo, abstrato ou filosófico (e a gente só realmente compreende quando atinge esse status) é que cada um deveria se bastar para ter chances de entrar num relacionamento mais íntegro. Algo do pensamento budista mesmo. Se bastar significa estar a maior parte do tempo feliz consigo, viver essa plenitude, sem ter que entrar numa função de criar inúmeras situações para evitar a olhar a si.

Essa história de que um casal é feliz por ser duas metades que se complementam é uma besteira antiga. O que a gente aprende na vida é que dois inteiros fazem uma relação superior. Então, se você se sente uma metade, a primeira coisa é encontrar-se inteiro!

Reflexões advindas da minha última sessão de terapia: “o medo da solidão consiste basicamente no temor de ter que lidar consigo, bancar a si e nada mais além”.

Se a gente não é feliz consigo a maior parte do tempo dificilmente seremos capazes de amar alguém com integridade. A exemplo do penúltimo post, novamente, consegui ser cordial e afetuoso com meu ex-namorado e seu atual porque estou feliz comigo e com as minhas escolhas. Consegui chamá-lo para formalizar nossas realidades atuais porque optei a não viver de lembranças ou esperanças. Nos encaramos como ex-namorados e, naquele instante, assumimos que a nossa história ficou no passado. Começo, meio e fim. Justo e honesto. Com humildade para viver o presente e buscar um novo amor no futuro. Isso significa, nada mais nada menos, do que ter fé na pessoa que sou, ou, me aceitar inteiro.

Ex bom é ex morto e enterrado, não é? Desde que não leve uma parte de você para o caixão!

Quem se basta costuma deixar as coisas acontecerem mais naturalmente. Deixamos de ser “robôs” para entrar numa função “namoro mode on” e respeitamos a nossa parcela humana e o tal destino (que se fez de exemplo no penúltimo post, de novo). E quando surge uma oportunidade, não tratamos a situação como se amanhã o mundo acabasse. Ou seja, a tal “intensidade” tão querida e promovida nas relações é também responsável pelos fracassos.

Comecei a minha vida gay com 23 anos e tem gente com 14 anos que já está sofrendo! A palavra sábia da vez é: calma.

O amor, para quem é bem jovem assim, tem um papel de “ponte” para o mundo, para a vida adulta e para o início do senso de companheirismo. Pode ser encantador como no filme “Hoje eu quero voltar sozinho”. E se for assim, é definitivamente lindo e verossímil. E esse tipo de amor pode renascer algumas vezes na vida (pode mesmo!), com um teor incrível do ineditismo e independentemente da idade, principalmente para aqueles que não largam uma certa criança interior.

Mas é necessário saber se respeitar e respeitar o tempo.

No nosso meio está muito em uso a tal palavra “recalque” (curiosamente entre os gays e as mulheres). E temos usado de uma maneira abusiva, maltratando a nossa língua portuguesa e assumindo que, quem a pronuncia dessa maneira sem fim, é o verdadeiro recalcado. A mim, o significado de recalque tem apenas uma tradução: a inveja da própria capacidade alheia de se entregar para o amor, para o outro, para novas histórias, novos modelos, novas vivências. Porque como disse, no primeiro tópico, a gente tem medo de gente. E, como disse agora, viver da desilusão só afugenta a nossa criança interior. Daí, o recalque.

Recalque é também um sintoma do vitimismo, de achar que o mundo nos inveja e somos vítimas do olho gordo alheio. Tudo muito exagerado, egocêntrico e tudo muito mal aplicado. Banalizado e, ainda, fomentando o esteriótipo. Preguiça blaster!

Amor e afeto são coisas simples, gente, e funciona muito melhor quando descomprometidos.

Esse amor é diferente da paixão, mas pode vir junto, no pacote.

O encontro narrado no post “Relato Gay – Coisas do destino” vai ressoar bastante dentro de mim. É um marco quando me deparo hoje com diversas superações: do autopreconceito por ser japonês, das necessidades de minha autoestima, da consolidação como um indivíduo gay, das ansiedades da juventudade, da harmonia no relacionamento com meu pai e do medo da solidão que não mais me assola.

Você, leitor do MVG, busca pela sua evolução ou espera que o mundo te aceite como é somente?

Quem precisa mudar não é o outro. É você mesmo. Que esse post sirva de referência para quem se identificar.

2 comentários Adicione o seu

  1. Wellington disse:

    Kkkkkkk
    Chorei de rir com o caráter intelectual q vc deu pra palavra recalque, tão popularizada pela Valesca e por isso tão disseminada e desvirtualizada
    Concordo plenamente com vc q os maiores disseminadores dela são os verdadeiros recalcados
    Qto ao seu momento. Parabéns pela emancipação
    E ainda não cheguei ao seu grau de maturidade, ainda sofro com a ideia de um possível futuro sozinho.
    No mais, concordo com a sua visão de q não somos metade de nd. Somos dois inteiros q juntos se fortalecem mais ainda.
    Desejo a você uma ótima jornada e que você encontre o outro inteiro q procura.
    Um grande abraço

    1. minhavidagay disse:

      Obrigadíssimo, Well! :D

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.