Anteontem, ontem e hoje

Meus avós foram daquela geração de imigrantes. Por parte de mãe, vieram de Tóquio (que sempre foi a frente, desde aquela época). Casaram-se pelo envolvimento de um pelo outro e tiveram sete filhos. Foi amor de afinidades. Chegaram ao Brasil e, assim como a grande maioria dos imigrantes, trabalharam por anos na agricultura.

Do lado do meu pai, meus avós vieram de Hiroshima, antes da bomba. Meu avô veio sozinho, com apenas 17 anos, junto com a família da minha avó e, de fato, casaram naquele esquema antigo chamado “miai”, da reunião por interesses familiares (coisa que, embora maquiado, existe até hoje). Vovô aprendeu o ofício de marceneiro, vovó a de costureira. Foi um amor funcional.

Todos passaram em torno de três meses dentro de um navio, sem luxo, sem ostentação, até aportarem no Brasil. Imaginem três meses? Essa situação ninguém quer imaginar…

Naquele tempo, seja por afinidade ou seja por função, relacionamentos entre casal se formavam por valores bem diferentes dos tempos atuais. Os imigrantes eram pobres, deixavam seus países e começavam a vida “do zero”, num terreno incerto, alheios a língua e sem possuir formação. Formação acadêmica naquela época era destinada somente a mais alta “nobreza” que estava bem longe dos imigrantes. Fazia muito mais sentido o casal se estabelecer e os familiares estarem próximos, naquele sentido de que “unidos, o impacto das dificuldades se tornavam mais ameno”. O sentido de grupo e de ajuda mútua era algo que transbordava diante da realidade da época.

Esses eram alguns dos motivos para se viver em casal e estar perto da família.

O foco das pessoas, naquele tempo, era deixar herdeiros de sangue, da continuidade da linhagem. Em dupla, tinham o interesse de trabalhar arduamente para que os filhos conseguissem uma formação nas poucas áreas que havia valor: engenharia, direito ou medicina. Com filhos formados, os pais poderiam ter mais uma fonte de ajuda para a manutenção da vida.

O senso de sobrevivência batia à porta de meus avós com muito mais nitidez e, tal sentido, era algo sofrido ou lidado com mais leveza, de acordo com a mentalidade individual e independentemente da raça. Por parte dos meus avós maternos, a vida era percebida de maneira mais suave: meu avô materno, além de trabalhar na lavoura, era pintor e poeta, já denunciando a mentalidade que trazia de Tóquio. Do lado do meus avós paternos, o peso, a dureza, o sofrimento e as dificuldades eram mais evidenciadas nos discursos passados de pais para filhos, da maneira que cada família acabava interpretando e sentindo o mesmo objeto: a vida naquele tempo.

Não se pensava em separação, ou melhor, até se cogitava em alguns casos, mas entre idealizar e fazer, existia um fosso enorme, de um tamanho difícil de se imaginar hoje. Em partes, devido a força cristã que era muito mais influente naquele tempo. Mas em outras partes, também, porque estar sozinho, sem família, era uma condição muito mais inóspita. Meu avô paterno, aquele que casou por “miai”, vivia dizendo o quanto era sofrido ter que lidar com a minha avó, de temperamento fortíssimo e de como ele foi obrigado a casar com ela (para o sentido de preservação). De qualquer forma, ficaram juntos até o dia que a minha avô paterna faleceu. Depois de sua morte, meu avô não casou mais, mas pode aproveitar sua solteirice (vivendo já a realidade de vida da geração dos meus pais) por mais 32 anos!

Daí, veio a geração seguinte, dos meus pais. Naquele tempo, os jovens buscavam por formação, que era a possibilidade de alcançar vôos maiores na vida. Era isso que os pais dos meus pais idealizavam. O casal que se formava, mais independente das famílias, depositava energias para conquistar uma casa melhor, um carro melhor e, se possível, outros imóveis para desfrute ou investimento. O sentido de expectativa era ainda mais baixo do que da realidade e, assim, “qualquer algo a mais era lucro”. Existia o propósito de juntar bens, educar seus filhos e desfrutar da estrutura construída. Quanto mais seria melhor.

Os jovens daquela geração não tinham como “estilo de vida” grandes viagens pelo país ou pelo mundo, em sua maioria. Esse pensamento de que viagens expandem a mente, coisa que eu costumo lançar por aqui, é uma “realidade alternativa” a partir da minha geração. Naquele tempo, de fato, quanto mais criassem estacas firmes no próprio solo, com uma boa casa, uma casa na praia e, quem sabe, uma casa no interior, seria melhor. Ao mesmo tempo, não havia aquela necessidade de aprender o inglês para facilitar o conhecimento do mundo porque o mundo ainda era outro.

Foi na geração deles que começou a despontar a separação dos casamentos. A princípio era um alarde, um rompimento radical na “caixinha” instituída naquela época. Mas pensem comigo: as pessoas perceberam que era possível bancar a vida em carreira solo, diferente da geração anterior. Por que teriam que manter um compromisso, perpetuado até então por ditados cristãos ou de subsistência, se era possível tocar a vida sozinho?

Casamentos longos, de 20 ou 30 anos eram desfeitos. Não fazia mais tanto sentido batalhar por um contexto desgastado.

Meus pais, em mais de 40 anos de casados, passaram por altos e baixos emocionais memoráveis, traumáticos até para os filhos. A ideia de separação veio aos montes e não seria a influência cristã que seguraria a barra. Hoje, percebendo ambos, meu pai com 74 e minha mãe prestes a completar 70, entendi que o propósito de permanecerem em par foi mais forte do que a vontade de separação. Eles ainda aprendem muita coisa juntos e, assim, me permito a aprender com eles.

De repente, ploft! Surgiu a minha geração. Conversando recentemente com aquela amiga, cuja amizade completa 30 anos, relembramos que essa história de “ficar” ou “estar de rolo” começou em nosso tempo. Curiosamente, ela foi a primeira pessoa que eu “fiquei”. Eu tive nojinho de beijá-la… que ela não fique sabendo! :P

Antes disso, ou as pessoas namoravam ou estavam solteiras. Com o surgimento do “ficar”, na minha geração, estourou também a ideia do menor compromisso ou um compromisso mediano, medíocre. Num cenário construído pelos nossos pais, aqueles que visavam ter estrutura e bens, a juventude na minha geração se afastou ainda mais das questões das necessidades vividas pelos avós. Se estar em casal era importante para conseguir elevar a qualidade de vida num tempo remoto, para que assumir tal compromisso se no contexto no qual nasci, me distanciava ainda mais das necessidades básicas, abarcadas confortavelmente pelos propósitos gerais da geração dos meus pais? “Vamos começar a viver sem compromisso pois não há mais a necessidade de levar um relacionamento tão a sério”. E tudo isso foi acontecendo naturalmente, sem consciência, sem maldade, sem estratégia.

Eis a beleza ou a feiura da organicidade das sociedades: os modelos que temos hoje é consequência direta de uma cadeia de gerações.

Assim, os propósitos do amor mudaram com tempo? Mudaram sim e é por isso que, hoje, estar com alguém deve ser a simples escolha de seguir acompanhado. Idealizar modelos “lindos”, dos avós por exemplo, acaba não tendo legitimidade porque não passamos pelo que eles passaram, naquele exato contexto de espaço e tempo.

Por isso eu digo que, as vezes, adorar o passado não nos faz bem. Nos prende a fantasias, idealizações e nos afasta da possibilidade de enxergar o hoje, o aqui e agora, e atuar, praticar, executar, cair e levantar conforme a dança.

A música que toca é bem diferente e, se é pra ser diferente disso, somos nós os agentes responsáveis para as próximas gerações a partir de nossos próprios propósitos e, se você não os tem, tende a ficar rendido a sua condição.

Temos mais responsabilidades do que imaginamos.

2 comentários Adicione o seu

  1. Jorge Zaiba disse:

    Estou devorando o MVG. Adoro seus textos, a rádio MVG foi um achado. Valeu por uma seção de terapia, ou várias.
    Estou explorando a minha sexualidade hoje, tarde, já com 46 anos. É claro que não tem sido muito suave, como diz a minha mãe: “Se não for por amor será pela dor”. E foi preciso muita dor para encerrar mais de 40 anos de negação.
    Hoje me sinto um pouco mais livre, um pouco mais relaxado, aliviado até. Mas isso não apaga os últimos meses de inferno, de doença e morte do único homem que amei, do arrependimento silencioso e finalmente o meu próprio adoecimento e delírio que me levou quase à morte e a uma temporada de 28 dias em um hospital psiquiátrico.
    Recebi alta médica, mas prossigo em tratamento, terapia, remédios e força de vontade. Aqui entra o MVG. Seus textos têm me ajudado muito e deixo aqui o meu agradecimento.
    Muito obrigado!
    Espero não ter sido pedante ou prolixo – dramático sei que fui.
    Abraços
    JZ

    1. minhavidagay disse:

      Eu quem agradeço, querido! Você ajuda a dar propósito para o Blog! :)

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