Anus incríveis

Desculpem os leitores mais polidos pelo título de filme pornô de péssima qualidade. Espero que vocês não deixem de gostar do MVG, quando aflora a minha faceta um pouco mais beligerante. Mas hoje resolvi falar de política, tema que faz um tempo que não tenho abordado.

Meu ponto de vista acaba sempre com o olhar sobre a sociedade, o comportamento e como agimos ou reagimos diante tais personalidades, os políticos. Primeiro falarei do meu posicionamento no exato contexto em que vivemos. Sobre a crise, ela viria de qualquer forma, sob as saias de nossa presidente eleita ou se o opositor fosse vitorioso. Tal fato, da crise, é apenas uma das camadas. Podemos elocubrar dezenas de possibilidades “se” o Aécio tivesse ganhado. Mas pra mim é perda de tempo pois é somente “se”. Quem levou novamente foi a Dilma, não pelo meu voto, e o momento é exatamente esse. Temos que ser resilientes e pacientes com a crise. Alguns preferem beber para passar logo, outros preferem meditar. No final tem o mesmo efeito prático.

A outra camada é a avalanche de corrupção. José Dirceu ser acusado de novo não seria, a mim, nenhuma novidade. Ele foi ministro da Casa Civil durante a administração do Lula. Para quem não sabe, tal cargo de Casa Civil é praticamente um primeiro ministro. Vão colocar todos os panos quentes (que devem custar muito dinheiro e até mesmo vidas) para que o Luiz Inácio não seja responsável. Sobre essa camada, acho mesmo que não é um bom momento para que o Lula seja incriminado. Brasileiro já tem síndrome de baixa autoestima e se o ícone do povo for derrubado, o que já está feio tende a ficar pior.

Tem uma outra camada que é da própria sociedade. O que vocês acharam dos manifestos do domingo? Eu achei, de novo, bastante esquisito. Apesar de não ter votado na mãe e de ter definido meu candidato por uma postura de oposição (não achava que ela seria capaz de administrar mais quatro anos), esse papo briguento de “impeachment” e “retomada dos militares” me enche de preguiça. O primeiro é inconstitucional e, sem provas concretas, não se destitui um líder político do seu altar. O segundo é um fenômeno de nossa alienação, fruto do analfabetismo político, seja da esquerda extrema (que teme a ideia) ou da extrema direita (que considera a única solução). Os militares, em tempos atuais, não tem autonomia nenhuma. Formam uma instituição enfraquecida.

Vale a mim o efeito democrático. Votamos, elegemos e tudo mais é periférico.

Eu sou gay e, pelas circunstâncias da minha sexualidade, tenderia a ser alguém de esquerda como alguns são. Dizem que a turma desse lado tem uma simpatia no discurso pelos homossexuais. Concordo em partes pois tenho amigos íntimos que acreditam no impeachment (“direita”) e outros amigos que se aterrorizam com a ideia (“esquerda”) e ambos respeitam a integridade de minha sexualidade. Tenho amigos de “esquerda” com filhos recém nascidos e se preocupam com a possibilidade do rebento “virar” gay. Outros da “direita” que nem esquentam a cabeça com isso.

É por essas e outras que eu forço e reforço a ideia de que “esquerda” e “direita” são conceitos altamente mal empregados; praticamente falidos. Ninguém entende isso direito hoje em dia, nem mesmo os políticos. No momento em que o Lula criou aliança com o Paulo Maluf para eleger o Haddad, os arquétipos definitivos dos lados (Lula de um e Maluf de outro) detonaram com o próprio conceito que eles mesmos construíram. No meu microcosmo, sou alguém a favor da liberação da maconha, do aborto e da formalização dos profissionais do sexo (ideais ditos de “esquerda”) mas tenho pensado se a pena de morte não seria algo interessante para se testar no país (pensamento de “direita”). E aí? Sou de esquerda ou direita?

Percebem?

No Brasil a gente mistura direitos humanos com valores religiosos. Isso para mim chega a ser irritante.

Por falar no Haddad, pensar que Celso Russomano e Datena estão mil anos luz a frente dele para as eleições da prefeitura, me entristece. Não porque sou cheio de amores pelo atual prefeito de São Paulo, pelo contrário. A mim, ele foi um ótimo prefeito para um nicho pequeno, que tem baxíssima participação política: o jovem petista da “classe caviar”. Essa coisa de fazer ponte virar parque, espalhar músicos pela Paulista nos finais de semana, ciclovias e etc., tem toda uma conotação jovem e despojada. É legalzinho até, mas não resolveu as questões estruturais das escolas, de moradias e etc. Faz bem para os olhos e até que chama atenção ficar empetecando a cidade. É algo meio neo-hippie-paz-e-amor, mas não define contextos.

Muitos desses jovens estão chateados, alegando que o Haddad é alguém a frente de seu tempo e que a maioria não enxerga. Não é uma frase presunçosa? Eu acho bastante.

Por outro lado, saber que Celso Russonamo pode ser “o cara” nas próximas eleições me entristece. Me faz pensar em votar na Marta ou até mesmo no atual prefeito. Mas, vejam só, meu amigo da direita que me aceita como gay, prefere votar no Russomano a dar seu voto para algum elemento do PT.

Vivemos anus incríveis, daqueles que valores e moral são relativos, daqueles que vale mais o que é a mim conveniente. Escrevi algo no meu Face e depois resolvi deletar, para encerrar meu post de hoje com ele:

“Fiquei pensando aqui, cá com meus botões e uma taça de vinho de terça a noite: a turma anda reclamando bastante, dizendo que em países desenvolvidos as pessoas não dependem tanto de carros. Que o transporte público de qualidade é reflexo de desenvolvimento e gastar fortunas num quatro rodas por aqui leva ao status, ao individualismo e a burrice. Ficamos nessa briguinha nada velada, apropriando o tema ou para esquerda ou para direita. Algo de moralismo-generation-next.

Mas mais do que isso, preservar uma relação com a diarista, já que pouquíssim@s brasileir@s aguentam o tranco da limpeza pesada, ninguém coloca no caldo de origem escravocata, do sintoma do subdesenvolvimento, né? Até onde eu sei, a maioria dos desenvolvidos não costuma ter uma doméstica”.

Um texto líquido.

4 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    No Brasil atual não existe mais direita ou esquerda.
    Celso é um fantoche do partido, basta olhar as pessoas ” boas ” que sabem ao poder graças ao número de votos na legenda que ele trás, inclua nisso também o tiririca, fora que o Celso passa mais tempo em São Paulo gravando programa de defesa do consumidor do que em Brasília apresentando projetos ou votando.
    Datena seria cômico se não fosse trágico, espreme que sai sangue ( tropa de elite 2, inimigo agora é outro) .
    O mesmo cara que invade a Paulista no domingo para protestar contra a Dilma pedindo os militares!! E o mesmo viado coxinha PSDBISTA que anda de patins na ciclovia petista na sexta-feira a noite usando chortinho beira ânus.

    PT fui um bom governo no seu início, projetos de inclusão social com maior impacto, filho do aperta parafuso fazendo faculdade e disputando vaga de emprego com o filho do rico.
    O problema é que para manter a forma de gorverno o PT recorreu ao pior de todos os métodos troca de favores com a ” base aliada “, quem faz um favor político uma hora vai cobrar…. E agora estamos vendo o preço dos favores.

  2. Nick disse:

    Muito boa sua posição, apesar de ter votado na Dilma no segundo turno, não te darei o rótulo de coxinha, pois vejo que quem votou no Aécio (parece ver seu caso), queria mudança. Agora não aceitar que a Dilma foi eleita democraticamente e querer impeachment e volta dos militares (como se quando eles estavam no poder não havia corrupção) acho de uma falta de estudos! Olha votei nela não porque sou de “esquerda” apesar de meu pensamento tocar mais desse lado; mas porque quando era o PSDB no poder tínhamos o engavetador geral da república e pelo que vi o Aécio é bom em encobertar seus crimes (com a ajuda da mídia. O único que o peitou quando era governador de Minas, o jornalista Jorge Cajuru, foi demitido da Band porque criticou o Aécio que deu entrada para ricos e políticos em um jogo em BH enquanto pessoas com deficiência não podiam entra pela porta destinada a eles). Também acho que essa de “direita” e “esquerda” estar defasado. Só não aceito (cof cof), vc dizer que é a favor da pena de morte. Todos países desenvolvidos (menos EUA) aboliram essa prática medieval, pq viram que isso não resolvia crime nenhum e ainda tinha perigo de condenar a morte quem não tem culpa ( O que Dom Pedro II viu ao abolir a pena de morte pq ficou sensibilizado com um inocente que foi julgado culpado – alguns dizem que é essa a história mas a contestações) O que poderia acontecer no Brasil, como ocorre nos EUA, países que tem uma história colonial parecida e escravocrata, é a condenação de negros das periferias erroneamente .

    1. minhavidagay disse:

      Oi Nick! Japão também aceita a pena de morte. Só para constar.

  3. Faz tempo que não leio o blog, justamente por falta de tempo. rsrsrs

    Texto muito bom, concordo muito com seu ponto vista só com uma ressalva: caso fique comprovado que o Lula tem alguma culpa em toda sujeira revelada e ainda por ser descoberta pela Lava-jato (o que é bastante provável) não vejo problema nenhum em vê-lo respondendo por isso perante a Justiça, afinal a lei tem que valer pra todos.

    Sobre esse momento delicado do nosso país, só acrescento uma observação que já falava desde as eleições do ano passado. Marina Silva propôs um debate político mais elevado, distanciado dessa bipolarização imbecil de esquerda versus direita, onde cada um, mesmo com pontos de vista diferentes podem chegar a um denominador comum em prol de toda nação. A ideia original de democracia reside justamente num debate de argumentos com o objetivo de convencimento, onde o melhor argumento deve prevalecer por razões de lógica e não porque um acha que a sua posição é superior à do outro e deseja impor isso à força. Para esse tipo de debate, os brasileiros não estão preparados.

    Sobre a nossa presidente, não há motivos para impeachment (por enquanto) e alguém que pede a volta dos militares é no mínimo ingenuidade demais. Da mesma maneira, não consigo entender qual o motivo que leva pessoas a defenderem um parido que rasgou todas as suas bandeiras descaradamente e ainda por cima fez de tudo para se manter no poder, inclusive coisas que condenava veementemente e alianças com figuras das mais baixas da nossa política. E se alguém hoje grita fora Dilma, aprendeu com eles que gritaram durante oito anos fora FHC.

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