Apego. Ah, esse malandro!

O leitor Sandro colaborou com um texto interessante sobre o apego, assunto que andei ensaiando por aqui nos últimos meses. São boas reflexões, sejam para gays ou heterossexuais que vivem as diversas realidades de namoros e relacionamentos. O texto, apesar de uma linguagem bastante diferente da minha, vai de encontro com as percepções atuais sobre apego e desapego que eu tenho, fruto das experiências que me fizeram chegar até aqui:

Apego

Muitos interesses atuam no sentido de deturpar os conceitos que podem levar o homem ao caminho verdadeiro e a sua completa liberdade e o desapego também não escapou disto.

O desapego nos relacionamentos vem sendo banalizado e divulgado como simples sexo livre.

Desapego não é falta de interesse nem falta de amor, mas apenas independência.

Imagine que você ganhe um carro maravilhoso, confortável e com tudo que poderia imaginar. Certamente terá muito prazer em dirigi-lo. Não há nenhum problema nisto, estamos aqui para ser felizes.

Mas se depois desfazer-se deste carro se tornar um problema, significa que você passou a depender dele. Aquele prazer que antes você não conhecia e não lhe fazia falta agora se tornou essencial para você. Você ficou viciado naquele prazer, apegou-se e depende dele. Esta é a fonte de todo o sofrimento. Você pode usar, mas não precisa ter, deve se manter livre e independente, ou todo prazer vai reverter em sofrimento.

Todo apego gera sofrimento.

No amor e nos relacionamentos pessoais vale a mesma regra. Você só estará pronto para amar verdadeiramente quando estiver bem sozinho, quando se bastar e não depender dos outros. Deve ser muito bom estar com a pessoa que ama, mas também deve ser muito bom estar sem ela. Seu amor não pode ser uma muleta.

“Quem não é um bom ímpar,
jamais será um bom par.”

Você também precisa entender que tudo que faz é por si mesmo, e não pelos outros, não deve esperar contrapartida.

Se quiseres preparar um café da manhã para a pessoa que ama, e surpreendê-la, faça-o e mergulhe todo seu ser nesta tarefa, absorva o prazer de cada instante, de cada detalhe da preparação. Entregue ao seu amor e curta cada detalhe, cada expressão do seu rosto, absorva aquilo e sinta todo o prazer que você merece. Depois, sinta-se satisfeito, compreenda que foi bom para você e que o outro não precisa retribuir. Não espere que lhe façam o café da manhã no dia seguinte. Se você não quiser repetir mais isso, não repita, mas também não cobre nada do seu amor. Você simplesmente fez o que queria e lhe deu prazer. Isto basta, acabou, não espera nada em troca. Você fez porque quis e foi bom para você! Só isso! Acabou!

Este é o amor incondicional, que não espera nada em troca, que não se apega porque respeita a liberdade do outro. Que ama a essência do outro e todas as suas formas de manifestação. Onde suprimir uma destas formas de manifestação é macular este amor, é destruir o que você ama.

Amar verdadeiramente é amar o outro em liberdade e não em uma gaiola.

Os que não entendem estes conceitos vão confundir isto com falta de interesse, porque só sabem viver no apego. Se apegam e se viciam em tudo que gostam e não conseguem entender como alguém pode gostar e não sofrer com uma perda.

Você deve amar ao outro como ser livre, sem posse e sem dependência. A sensação de posse vem da sua dependência, do medo de perder. Você não é livre porque depende e quer tirar a liberdade do outro para não perdê-lo.

Dependência não é amor, quem depende apenas usufrui. É apenas um vampiro. E dois vampiros formam apenas uma simbiose, mas nunca serão dois amantes.

“Dê a quem você ama:
asas para voar,
raízes para voltar
e motivos para ficar.”

Dalai Lama

Não há nada mais belo do que dois seres livres permanecerem juntos ligados pelo amor incondicional. Este é o verdadeiro amor, fiel pela sua natureza, que é a própria liberdade.

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Tal conteúdo vai de encontro direto com o que escrevi nos textos “Falando sobre amor” e “Vínculo e apego“. Com 38 anos tenho construído em mim certa incondicionalidade do amor. Sei que hoje, com as intensidades juvenis de uma nova paixão que também fazem quem eu sou, existe ao mesmo tempo uma natural tendência a deixar que Deus e a intuição me conduza. Flutuar é bom, mas lembrar de descer e colocar os pés nos chão é gratificante. Outrora, buscava ter controle de pessoas e situações que acabavam por me colocar numa posição sempre muito aflitiva, do querer se apegar. Tenho soltado meus nós, cada vez mais, e tais palavras do post de hoje tem feito mais sentido. Deixou de ser uma coisa “espiritualizada e bonita, mas distante de mim”. Começou a fazer parte do que sou.

Ter autonomia das emoções e deixar a intuição te conduzir é bastante diferente do controle e da posse que impera em boa parte dos relacionamentos. Não estou buscando criar situações, estou esperando que elas se criem. Não estou preocupado em preencher a minha agenda do final de semana para que eu não tenha que “encarar” um sábado solitário. As expectativas estão baixas e isso não quer dizer que ando apático. Eu só não estou mais numa função exaustiva de criar situações para que eu tenha que evitar me deparar “eu comigo mesmo”. Taí o meu encontro com o meu “bom ímpar” exercitado diversas vezes na semana.

O post de hoje não é uma afronta aos ideais das “metades da laranja”, das pessoas que só conseguem se sentir felizes se estiverem namorando. O texto fala sobre equilíbrio, uma paz interior necessária para que enxerguemos as pessoas mais próximas de sua realidade e não como gostaríamos que elas fossem. Pessoas não podem ser objetos definitivos para a nossa felicidade.

 

16 comentários Adicione o seu

  1. Sandro Bonassa disse:

    Valeu Flávio novamente pelo espaço.

    Sempre acreditei na frase ” quem não sabe ser um bom ímpar, jamais será um bom par “.

    Tenho um relacionamento de dois anos, fechado, hoje ele esta morando no Qatar.

    Não tenho o direto de impedir ele de realizar um sonho, tenho que apoiar e encontrar o equilíbrio para continuar o romance.

    Sempre gostei de fazer as coisas sozinho, praia, cimena, teatro, balada e etc…

    Claro adoro sair com amigos e Love, porém quando não é possível não deixo de sair.

    Eu adoro planejar um final de semana ao lado do Love, mas entendo que as vezes não é possível, trabalho, família entre outros.

    Não fico de lamentações, pego o carro e vou fazer alguma coisa, cimena, balada, jantar com amigos ou sozinho, ou simplesmente fico em casa curtindo um som, filme, livros ou vídeo game.

    Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Tá certo, Sandro. Vivi um relacionamento a distância, como você bem pode ler por aqui. Não consegui bancar. Apego? Pouco tempo juntos para logo em seguida ele passar oito meses longe? Fim do encanto? Talvez um pouco de tudo.

      O fato é que estou aí, em minhas buscas e tenho essa ideia de um amor que respeite mais a individualidade das partes.

      Mas ao mesmo tempo tenho um lado sexual muito forte. Como lidar? Tem pessoas que têm mais, outras menos. A minha eu sei que é forte rs.

      Vou seguindo, sabendo que a cada experiência, cada tentativa, de cabeça ou pisando em ovos, a gente vai aprendendo a se conhecer mais.

      Abraços!

  2. Sandro Bonassa disse:

    O ponto X. Lado sexual.

    É difícil segurar, tem dias que é preciso muita força de vontade para não sair pegando geral, rs.

    Só que eu penso, são dois anos de namoro, ele também congelou muita coisa na vida por algum tempo atrás de uma oportunidade.

    Fazemos nossas brincadeiras via Skype, rs.

    Tem algo que ajuda a controlar o impulso, tive câncer duas vezes, foram meses de tratamento, restrição até de alialimentos, sexo nem pensar.

    Fora que para lutar contra esta doença é preciso manter a razão e ter a certeza que cada momento que deixei de viver vou ter a oportunidade lá na frente.

    Este pensamento ajudou lá trás e ajuda hoje , quando deixou algo esperando ou descarto, sempre no pensamento positivo que em breve vou tirar o atraso de tudo, rs.

    1. minhavidagay disse:

      Eu tive esse controle por oito meses, ou achava que tinha rs. Até terminar e ter escalado as paredes da sauna por dias seguidos até sossegar rs.

      Aaaaacho que não tenho teu controle e invejo rs.

  3. Sandro Bonassa disse:

    Claro também não sou Alice.

    Sei muito bem que nosso relacionamento pode acabar, distância, traição pode acontecer de ambos os lados enfim várias situações podem levar o romance ao fim.
    Porém que garantias eu tenho que ele aqui ao meu lado o relacionamento também não vai acabar?
    Rotina da vida de casado, traição, brigas por falta de grsba

  4. Sandro Bonassa disse:

    Continuando… Falhou e encaminhou incompleto. Desculpe.

    Brigas por falta de grana ( dinheiro é tudo e mais um pouco, ninguém vive só de amor).
    Consigo lidar com o fim do relacionamento, ( o que é mais uma flecha para São Sebastião, rs) afinal tudo tem começo, meio e fim, ele não vai ser o meu primeiro nem o último relacionamento.
    O que eu não quero e não preciso ouvir, ” por sua culpa não realize meu sonho “.
    Este prego em minha cruz, não vou carregar.

  5. Thiaggo disse:

    PLDD!
    que fique bem claro que falta de sexo NÃO causa cancer … PQP as pessoas tem que ter mais noção das coisas que dizem

    Na verdade em um estudo publicado num periódico britânico de urologia (British Journal of Urology) aponta que homens de 20 – 40 anos com cancer de próstata ou testicular costumavam fazer mais sexo por mês quando comparados com o grupo dos homens saudáveis.

    O mesmo estudo ainda aponta que homens diagnosticados com câncer de próstata também se masturbavam mais do que os saudáveis nesta faixa etária.

    então da mesma forma que foi dito num post anterior onde o cara afirma que ficou sem sexo por um tempo e teve cancer … ora tenha dó né!

    1. minhavidagay disse:

      Amigo Thiaggo,
      Seria bom vc buscar saber da história do Sandro. Ele não teve câncer por falta de sexo. Falou informação da sua parte…

  6. Sandro Bonassa disse:

    Não tenha inveja, rs.

    Cada Ser Humano possui inúmeras qualidade, algumas mais afloradas que outras, se te falta o controle, rs, com certeza sobra outras.

    Desta forma cada Ser Humano, completa o outro, nas relações amorosas, trabalho, família, amizade e sexo.

  7. Sandro Bonassa disse:

    Thiaggo.

    Não foi por falta de sexo, estava em uma fase ruim, para dizer o mínimo.
    Problemas com a minha sexualidade, trabalho, religião enfim todas as esferas da vida.
    Como disse minha psicóloga e concordo com ela, o órgão genital do Homem tem grande importância para ele, como eu sofria com minha aceitação foi em meu testículo que a doença se manifestou.
    Pode ser apenas coincidência ou a vida ensinando que viver sem um testículo ou ser gay não diminui a masculinidade de ninguém.
    No grupo de apoio que foi voluntário os Homens HT sofriam muito por se sentir menos homens.
    O câncer foi um divisor de águas em minha vida.

    Só aprendi com ele.

    1. minhavidagay disse:

      Exato… Foi um lance psicossomático, muito comum em pessoas que adquirem câncer…

  8. Sandro Bonassa disse:

    Exatamente isso psicossomático.

    As vezes precisamos enfrentar o pior para alcançar o nosso melhor.

    Outras pessoas não precisam passar por isso, acredito que seja algo espíritual, acredito muito nas energias.

    Gosto de um velho ditado popular ” ou aprendemos pelo o amor ou pela dor “

    1. minhavidagay disse:

      Também acredito muito nessas questões. Doenças psicossomáticas tem muita relação com a energia.

  9. Sandro Bonassa disse:

    Flávio.

    Vou encaminhar meu telefone para o contato.

    Caso você considere bacana manter contato além do blog, seus textos e forma de pensar indica que vale a pena , é bom ter pessoas inteligentes em nossa lista de contatos, rs.

    1. minhavidagay disse:

      Manda sim, Sandro!

  10. Sandro Bonassa disse:

    Blz, já encaminhei.

    Quando você mandar um WhatsApp, salvo seu contato.

    valeu.

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