As aflições da vida gay

O gay condicionado ao “meio” e aos vícios do meio

Um de meus ex-namorados me encaminhou essa semana um texto longo, bem longo, do Huffington Post gringo. Até tirei um sarro pois ele é uma das pessoas que conheço que é avessa aos “textões” (rs). O artigo aborda algumas recorrências dramáticas e condicionadas da vida gay as quais meu ex entende como “da maioria”. A maioria, a mim, é um primeiro ponto questionável.

Tal conteúdo que está aqui, ao meu ver, tem um tom dramático e até mesmo sombrio, e narra condições e vivências do homem gay na média dos 35 anos – segundo o editor – refletido em cenário mundial.

Por que os gays, mesmo em um tempo atual de muito mais autonomia e liberdade, acabam recaindo as dores da solidão, drogas, doenças da alma e sexo sem proteção?

“A Epidemia da Solidão Gay”, título da máteria, veio até a mim com algum sentido. Meu ex namora há aproximadamente dois anos um rapaz de 37 ou 38 anos, idade próxima a minha, cujos indivíduos de seu círculo social (gay), na mesma faixa dos 35 anos entram em hábitos semelhantes ao relatados no artigo. Solteiros a maior parte do tempo, invadem as baladas alternativas, usam drogas periodicamente e focam na “caça sexual” muitas vezes desprotegida.

O artigo apresenta um punhado de estudos cietíficos que realmente fazem sentido, atestados por instituições e profissionais de renome, apontando para contextos de infância e juventude que condicionam os homossexuais, que os colocam em constante estado de alerta e que, em diversas medidas, arrancaram uma certa autonomia da naturalidade no jeito de ser, mesmo hoje em se tratando de um contexto mais afirmativo ao gay. Cita o caso de um jovem (naturalmente) afeminado, que em determinadas circunstâncias, precisou reprimir seus trejeitos para “atuar perfeitamente”. Outro caso de um casal no Canadá que, apesar de nunca ter sofrido grandes ameaças, podia ouvir de longe outras pessoas pronunciando chingamentos pela rua.

O texto começa com a citação a um amigo, que estava internado por overdose de metanfetamina e apresenta também o suicídio de seu outro conhecido, a segunda pessoa que o autor beijou.

Logo no início da leitura, a ideia de um gay com perfil suicida (segundo a psicologia, é assim que se nomeia perfis de pessoas que mesmo sabendo que determinados hábitos fazem mal, como o uso periódico de drogas ou sexo sem proteção, continuam fazendo) me trouxe à tona a lembrança de meu amigo Beto que, apesar de não ter cometido o ato diretamente, tinha alguns vícios severos que, fatalmente, o levaram a uma morte precoce, aos 34 anos.

A lembrança que tenho do Beto, as vezes vem com alegria e as vezes com um pesar. Ele traz à tona o fato de que parte dos gays acaba percorrendo por um caminho, o mesmo escolhido por aqueles relatados no artigo, que provavelmente associará a solidão com um gosto amargo. Há de se convir que o lugar comum para boa parte da sociedade, sobre a solidão, é encoberto de tristeza e tal representação não é uma condição gay. Em alguma medida me identifico com essa ideia, sinto dessa angústia por dentro, pois vi e vejo com meus próprios olhos que “o meio” pode ser traduzido desta forma.

Por outro lado, o Beto representou e representa a mim a vivacidade, a alegria, o companheirismo, a energia, a beleza e a inteligência que eram notáveis em diversos momentos de nossas investidas no mesmo meio e fora dele. E a ideia de “fora dele”, talvez tenha determinado os caminhos distintos que passamos a seguir em certo ponto de nossas vidas. Eu via e acreditava o quanto era possível me esparramar e me expandir como indivíduo (colocando no mesmo lado a minha homossexualidade) sem me deixar levar por uma estranha e compulsiva atração pelo “meio” e pelos maus hábitos do mesmo.

Em outras palavras, será que o gay só consegue ser total, ou melhor, dar vasão à homossexualidade, frequentando determinados lugares, utilizando certos aplicativos, recorrendo aos excessos do álcool e de outras drogas e topando a roleta-russa do sexo sem proteção?

Talvez, enquanto a resposta a essa pergunta fosse a ele “não consigo ser o que sou se não entrar neste ‘meio'”, a minha fosse “estou tentando construir a minha identidade como homossexual, dentre outras buscas, em outros ‘lugares’ também”.

Não era difícil entrar em discussões longas, abandonando o propósito das baladas e de homéricas bebedeiras, para desenvolvermos um debate sobre esta exata questão, mesmo que na época o assunto estivesse nas entrelinhas subconscientes de nossas provocações e alfinetadas. É tão reconfortante saber que, neste contexto no qual meu amigo vivia dos extremos, paixões rasgadas, ódios e intensidades, eu de alguma maneira já cumpria certo papel de ao menos mostrá-lo algo que fosse diferente daquelas crenças. Ele julgava que eu acreditava numa vida “cor-de-rosa”. Cor-de-rosa que, talvez, tenha sido a base fina mas firme para não acreditar que a vida gay estivesse fadada a epidemia da solidão.

Foi pela construção de um relacionamento com o Beto, pouco a pouco, e pelas inúmeras experiências que tivemos juntos, dentre outras experiências “dentro e fora do meio”, que eu entendi que a maneira que acreditamos as coisas, ou seja, nossas crenças (estas criadas pela nossa cabeça e nada mais além dela), são determinantes para a condução de nossas vidas. O meio em si, seja lá o que isso realmente signifique, é construído por impulsos da busca de identidade, da necessidade de pertencimento, da urgência da aceitação. Mas será que é por lá que a nossa vida de resolve?

Se não é por lá, a onde se resolve?


coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

2 comentários Adicione o seu

  1. Fred disse:

    É um fato a questão dos gays viveram uma exacerbação de todos os instintos e muitas vezes nós nos perdemos em algum desses sentimentos, ora incompreendido, outras vezes influenciado. Ser gay para mim não é fácil, no sentindo de se encontrar, representar, viver, naturalizar. Já me peguei pensando em qual o sentido de tudo isso, ou sendo mais superficial e pensando se esse faz parte de mim ou se estou perdendo minha essência. É confuso! Hoje, passo pelo propósito de ser o q que sou e perseverar no sentido de não me perder nessa possível “epidemia”. É estranho, complexo, intenso. Sei lá, vamos viver e descobrir onde essa estrada vai chegar… Adoro seu blog!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Fred!
      Eu diria que viver é um desafio. Cada vida tem suas nuances…

      Um abraço,
      Flávio

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