As diferentes formas de se relacionar

Por um lado, muitos gays buscam por uma vida mais normativa possível. É inevitável dizer que umas das melhores brechas imaginárias, para nos sentirmos mais aceitos e acolhidos, é seguindo os caminhos ditados pela heteronormatividade: “encontre uma pessoa decente, forme par, case, se possível adote uma criança e viva incluso no contexto familiar, como mais um integrante qualquer, comum, normal”. A cartilha está aí há milênios e, num impulso imediato, uma quantidade expressiva de gays querem aderir da melhor maneira possível ao modelo.

Por outro lado, outros gays entendem que a heteronormatividade, seu formato e fluxo esperado, não abarca todas suas necessidades. Muitos de nós ficamos, em certa medida, “órfãos” por mais tempo e mesmo depois de assumidos, até que tomamos consciência de que é possível criar e inventar modelos e cartilhas próprios (num óbvio e inevitável movimento de desapego ao que é tradicional). Daí, muitos gays enrustidos e jovens gays temem exatamente esse (aparente) fosso que se estabelece no imagiário, de que – como o gay terá que se relacionar com alguém do mesmo sexo, e, no caso, homem é tudo “bicho ruim” – não existe liga para se estabelecer a cartilha moral perante a sociedade. Não bastasse, o pré julgamento de que o meio se reduz à superficialidade e à promiscuidade, torna-se uma máxima.

E quem está errado no final? Estão todos certos perante suas buscas particulares. E quem é passível de julgamento? Igualmente todos, pois o julgamento é também uma característica humana, do ego precisando compulsivamente se assegurar e de se apegar a valores. Tudo que estiver fora do entendimento do que é certo será julgado. Religião, por exemplo, é cheia de querer dizer máximas de certezas. O que, a mim, é o próprio erro.

No passado, precisávamos de instituições para apontar caminhos aos seus seguidores. Hoje, ainda precisamos, mas não é à toa que as mesmas estão numa árdua e suada tarefa de se revitalizarem para reconquista de credibilidade. A sociedade, orgânica que é, muda antes do que as instituições. Essas, tendem a parar no tempo, justamente porque são as responsáveis para definir (rigidamente) o que é certo ou errado. Acontece que valores se transformam, assim como gays hoje são muito mais aceitos do que há 20 anos atrás.

Não faz muito tempo que ser gay era um erro, uma doença. O homossexualismo existia. Hoje, principalmente nas cidades distantes das metrópoles, a ideia de “praga” ainda se dissemina. Mas ao mesmo tempo, notamos um movimento cada vez mais inclusivo. São, principalmente os heterossexuais, pulverizando a ideia de que o conceito de família é diverso: homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, mulher com seu bicho de estimação, homem com seu bicho de estimação, e etc. O que fazemos com os evangélicos? No meu ponto de vista, deixemos eles lá! Há espaço para todas essas formas nesse planeta. A questão, nesse ponto, é saber se você está no lugar e com as pessoas que mais atende(m) suas demandas.

Motivado pelo meu último post, o Betildo, um da turma do MVG, entrou em contato comigo. Fazia tempo que não falávamos, provavelmente por causa de todos os rolos que vivemos nos últimos meses (rs). O amigo veio com uma novidade que vai de encontro à essência do post de hoje, que é basicamente a reconstruição e a ressignificação de valores. Então, além dos modelos acima citados, os quais estão se tornando – aos poucos – normativos e compreendidos pelas pessoas, relacionamento a três, relacionamento aberto e relacionamento a distância não deixam de ser “novas” realidades. Claro que passíveis de julgamento e dos sentimentos de incerteza e agonia para quem pensa de maneira tradicional ou acha que somente a cartilha heteronormativa, apostólica, católica e romana detém o correto. Uma coisa é o gay na batalha para ser incluso socialmente. Outra coisa é o gay que entende que “ser gay” é livre de convenções. Graças a Deus! (rs). Nem hétero mais (homens ou mulheres) são fadados à cartilha!

Betildo está em um relacionamento a três que teve o início há 4 meses. Chegou a mim todo motivado a dividir e falei a ele que apresentaria o caso aqui, no Blog Minha Vida Gay. Existe uma distância entre ele e o casal. O par mora em São Franscico, um é descendente de taiwanês e outro de chinês. Visitaram meu amigo duas vezes e ele irá para os EUA no carnaval. Este é o caso. Real, existente e que dura mais tempo que muito “namoro”.

Automaticamente, para uma grande maioria que chegou com a leitura até aqui, o ego individual começa a estabelecer o julgamento. Isso é certo? Isso é errado? Isso dá certo?

Mas vai aqui meu ponto de vista: qual é o sentimento que nos move para ter dessas experiências? Podemos até dizer que relações “diferentes” assim se estabelecem como fruto do acaso, mas eu não acredito. O que o Betildo tem formado há 4 meses (o que no meu ponto de vista já deu certo), é o puro exercício da criação de seu próprio modelo. Criar a própria forma de se relacionar é, a mim, um dos grandes baratos da vida. É a oportunidade que temos de, quando querido, nos desprendermos de determinadas regras e valores morais que, a bem da verdade, estão caídos e não nos satisfazem. Podemos até pensar: “ah, mas alguém aí vai quebrar a cara uma hora”. De fato, alguém pode quebrar mesmo, assim como acontece nas relações mais tradicionais possíveis, com o desgaste ou com a traição, por exemplo.

O fato é que, numa relação nesse formato, se estabelece muito mais o sentido de lealdade, abrangente. Se estabelece também um sentido de liberdade, de um ego muito mais tolerante e focado no sentimento que se forma e não na rigidez de uma convenção ou de um compromisso. O valor de fidelidade, deixa de fazer sentido e, por consequência, não entramos numa função de cobrar o mesmo a todo momento. Existe também um exercício individual do desapego, do próprio ego se colocando em outros lugares, no sentido de transcender o óbvio.

Mas é claro que, sob a ótica do que é tradicional, tudo isso se traduz numas palavrinhas: promiscuidade, putaria, safadeza.

Por um lado, muitos gays buscam por uma vida mais normativa possível. Parabéns. Por outro, outros gays entendem que a heteronormatividade, seu modelo e fluxo esperado, não abarca todas suas necessidades. Ótimo. No final, o que me parece válido é que, hoje, temos espaço para nos lançar e experimentar aquilo que dá sentido. À nossa vida.

Não sofra por aquilo que não te pertence. Mas aceite que a realidade é maior do que você tem como verdade. Não temos o controle de nada ou, se temos, é por tempo limitado.

2 comentários Adicione o seu

  1. isaiaspdf disse:

    Não sou de falar muito mais só tenho a dizer que gostei mesmo do texto,principalmente do último parágrafo.

  2. Lucas disse:

    Ler o seu blog tem desconstruido muito tabu na minha cabeça. Embora eu seja meio tradicionalista, vivendo um “quase casamento”, tenho enxergado a diversidade de relacionamentos com menos preconceito, sem encaixotar as pessoas num rótulo, sem me espantar quando me deparo com situações como a que você descreveu. Para mim, relacionamento bom é aquele que é leve, que não traz muitas cobranças, que leva à satisfação afetiva e que deixa a pessoa feliz, independente da forma como aconteça.

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