As histórias se repetem

As repetições na sua vida te fazem feliz?

Nesse final de semana reencontrei uma grande amiga. São 32 anos de amizade e tudo se iniciou quando eu tinha apenas 8 anos e ela 6. Hoje, pelo menos uma vez por ano fazemos esse encontro para colocar os assuntos da vida em dia.

É daquele tipo de relacionamento que pode ficar um longo período fora do ar – não exige presença, não força a amizade – mas quando nos juntamos, a abertura para expor nossas vidas e trocar intimidades é total.

Na infância, fomos muito felizes juntos. Ela sempre teve mais afinidade com amigos homens e entrava em todas brincadeiras propostas. Na adolescência, foi a primeira pessoa que beijei. Fiquei com um nojão (rs) a ponto de dar ânsia de vômito (rs). Na pós-adolescência, ela teve influência de outros amigos e ingressou numa igreja evangélica. Naquele mesmo período soube que eu era gay, por mim, e veio com um discurso longo e clássico, de quem estava respirando os ares Cristãos e que acreditava que Deus iria me “ajustar”. Enquanto hoje muitos gays são intolerantes a esses discursos e vice-versa, eu dialoguei com a minha amiga e não era por isso que romperíamos com a amizade. E não fizemos: anos depois ela saiu da igreja e na fase adulta tentou um casamento, dos sonhos de qualquer mãe, do sonho de noiva. Os convites já estavam distribuídos e BOOM, o noivo desistiu no meio do caminho. Tentou um segundo e o cara desistiu antes de virar noivado. E hoje, ela “casou” com um rapaz, de morar junto, sem formalidades, sem nada. Ela sempre foi mais conservadora do que eu.

32 anos de relacionamento de amizade representa muita coisa. Tolerância, respeito às diferenças de entendimento de mundo, consenso, paciência e aceitação. Representa uma sintonia perante tantas mudanças que passamos por essas décadas.

“Shit happens e temos que ser capazes de aceitar a pessoa 360 graus”. Lealdade.

Mas este foi um breve relato para contextualizar o tema do post de hoje. 32 anos atestam conhecimento profundo (rs).

É notável em diversas situações a repetição de padrões comportamentais. Quando minha amiga tinha 6 anos sua irmã acabava de nascer. A carreguei no colo para vocês terem uma ideia e, hoje, enquanto minha amiga se aproxima dos 40 anos, aquela pessoa que era um bebê tem mais de 30.

A relação de ambas sempre foi bastante intensa e tumultuada. Pé de guerra semanal, jogo de ciúme perante os pais e uma necessidade muito grande, das duas partes, de autoafirmarem razão uma sobre a outra. Foi assim a vida inteira e devo ter presenciado brigas memoráveis mais de 100 vezes. Estamos falando de temperamentos fortes. Muito fortes (rs).

Apesar de toda intensidade, nunca foi muito diferente da relação entre um irmão mais velho e um mais novo. Em muitas ocasiões, conseguia identificar aquelas crises com as mesmas que aconteciam entre eu e meu irmão. “Coisa de irmão”, que popularmente a gente fala.

Acontece apenas (o que é muita coisa), que muitos padrões de relacionamento se repetem. E não me refiro apenas a relação entre irmãos, mas por exemplo, filhos que casam e replicam modelos familiares e situações de vida semelhantes ou idênticas aos vividos pelos pais. Mas no caso da relação entre a minha amiga e sua irmã, é algo que notei também na relação do meu ex-Beto e sua irmã: parece que, como irmãos, eles sempre vão se colocar no mesmo lugar, um padrão combativo, competitivo e de rivalidade, numa ânsia de quem está certo ou tem mais razão.

Por um lado, tais relações até impulsonam os mesmos para a própria vida. Com referências negativas ou positivas, mas cercadas de uma atmosfera de competitividade (em maior ou menor grau), a vida individual avança, muito pautado na comparação, mas avança. Por outro, a relação é frágil, o ser humano é frágil, e uma frase mal pronunciado em algum contexto mais sensível, pode explodir uma bomba.

E foi isso que aconteceu. Ambas tiveram uma enorme discussão ao final do ano passado e que se prolonga até hoje. Daquele esquema “você morreu pra mim”. Direta ou indiretamente envolvem pais, tios, amigos e – tais situações – retonam contextos acumulados nesse padrão comportamental, desde o dia que uma arrancou a cabeça da boneca da outra.

Acontece disso sempre e em diversos núcleos familiares. Não é diferente de quando se estabelece um padrão de convívio e relações em um emprego: colocamos as pessoas em determinados lugares (e elas nos colocam também) e fica difícil de tirar daquele lugar. Vício de relação, vício comportamental.

Ou o lugar que colocamos a ideia de sermos gays, por exemplo. “Reservo um espaço X para a minha homossexualidade pois, nesse lugar ‘X’ os sentimentos vividos e as relações A, B e C ficarão exatamente onde estão”. No caso das duas irmãs, ambas perpetuam uma rivalidade, entre as duas e perante os pais e familiares.

Como eu namoro hoje com um veterinário, brinco algumas vezes com a analogia: o ser humano é condicionado tal qual um pet. São padrões e condições que as vezes a gente faz (simplesmente) porque sempre foi assim ou porque achamos que as coisas funcionam desse jeito. As vezes porque existe um “rolo” de emoções, traumas, prazeres, rancores, alegrias e frustrações que “justificam” e que nos dão razão para ser assim até hoje. No final, nos relacionamos com um irmão – por exemplo – como fazíamos aos 12 anos. Mas temos 40 agora!

Por mais críticas ou emocionalmente instáveis que sejam as relações, como no exemplo das duas irmãs, estamos falando – sim – de zona de conforto. É quando repetimos comportamentos e, direta ou indiretamente, sabemos das consequências boas e ruins dos atos e reações das partes. É previsível. Pronunciamos instintivamente frases do tipo: “não tem jeito, fulano não muda” ou “sabe como é cicrano, né?”.

Igualmente aos pets, estamos condicionados. Sair da zona de conforto, “tirar a bunda da cadeira” ou, simplesmente, mudar exige um esforço heróico as vezes. Como faz se, para a minha amiga, a irmã não justifica mais A, B ou C? E como faz para a irmã se, de repente, a minha amiga não mais causar transtornos X, Y ou Z? Teremos sim que enfrentar um universo totalmente novo e desconhecido. A razões óbvias formadas são descontruídas. E pode crer que, muitas vezes, o desconhecido é mais estranho ou aterrorizante que as dores da zona de conforto. Muitas vezes vem com o alívio.

A interdependência das relações, talvez, seja um dos únicos “males” inevitáveis. “Enterrar” uma emoção, uma situação ou pessoa, normalmente, é um atalho ilusório.

Como sair, então, dos padrões comportamentais que sempre levam para situações semelhantes e não se aguenta mais viver daquilo? As mesmas crises, os mesmos perfis de pessoas, os mesmos problemas? Como mudar sem ter que buscar por um isolamento?

Algo já posso antecipar: o outro, principalmente aquele que não tem acesso a uma reflexão do tipo MVG, não será o primeiro a ter iniciativa… MVG, salvas as devidas proporções e respeito a personalidade de cada um que aqui chega, visa a autoria / autonomia / atividade / empoderamento. E no caso das minhas amigas, a autoria / autonomia / atividade / empoderamento estão totalmente afastados da ideia de comprovação de que uma das duas tem mais razão. Num tipo de padrão como o delas, todos perdem.


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Flávio Yukio Motonaga

Sou Mentor e Coach para o público gay e relacionados: pais, irmãos, amigos, entre outros e desde 2011 matenho o Blog MVG como meio de referência, trocas e vivências. Gostaria de uma mentoria ou coaching? www.lifecoachmvg.com.br

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