As partes de mim em outra pessoa

Reflexões sobre relacionamentos

É muito comum vivermos boa parte de nossas vidas – e arrisco a dizer para lá dos 40 anos – em fases autoafirmativas. Como gays, normalmente reprimimos muitos desejos que ficam potencializados na adolescência, dando um início para a vazão depois dos 20. Costumo dizer e a reafirmar que os heterossexuais tem uma “cartilha” pronta há milênios. Embora o mundo moderno confira nuances, a regra geral segue certo padrão (ou desejo pelo mesmo): encontrar alguém e namorar. Se não der certo, conhecer novas pessoas, namorar mais um pouco e talvez numa terceira ou quarta tentativa, “amarrar o burro”, programar o noivado, casar e preparar o momento para a chegada da prole. O ciclo básico é esse, ciente que hoje os modelos machistas e tradicionais não sejam mais determinantes.

Com o gay, e ainda hoje no Brasil, os referenciais são um tanto obscuros. Não existe um caminho claro, definido e histórico e, assim, alguns de nós idealizam os formatos clássicos da heteronormatividade, despertando até certa ironia, no momento em que os heterossexuais estão ressignificando as formas de relacionar, alguns de nós projetam expectativas no formato mais “padrão-hétero” possível.

Em essência, a maioria das pessoas, num movimento natural de identificação e aceitação, busca por modelos, grupos e representantes a seguir. Normalmente, o formato do meio gay ajuda a definir tais modelos. Basta notar como as baladas nos “uniformizam”, mesmo quando o código seja ficar sem camisa ou camiseta e ostentar calças jeans apertadas.

A moda, neste contexto, é bastante influente ao homem gay também. Se o código agora é deixar barbas e bigodes volumosos, muitos de nós seguiremos o padrão numa necessidade psicológica de identificação, autoafirmação e aceitação.

Assim por diante, definimos até mesmo formas de se expressar, músicas para se ouvir e hábitos a se realizar.

A ideia aqui nem é definir um juízo de valor do que é certo ou errado, ou bom ou mal. Mas trazer à tona a realidade de que vivemos um longo processo – entre tentativas e erros – de definir a nossa própria cartilha, alguns se apegando com mais força a determinados padrões num puro exercício de imitação e outros menos.

Eu, por exemplo, por ser mais velho e – teoricamente – mais vivido nas “coisas de ser gay”, tive a tendência de ser um referencial para meus ex-namorados. Olhando para trás e vendo como são hoje, sei que em alguma medida a própria relação era uma “ponte de segurança” para a busca de identificação deles. Muito da desenvoltura por eu ser gay era um forte referencial.

Eu, com 24 anos, tive uma fase curta nessa busca de uma identidade, quando rapidamente notei que não eram os códigos e as formas que me definiriam. Nem por isso me restringi ao acesso a locais rotulados, seja uma Parada LGBTT ou uma Virada Cultural, ou uma balada como a The Week. Mas sempre estive en passant e alheio as necessidades de inclusão, aceitação ou de identidade. Em outras palavras, devido a minha própria personalidade, na maioria das vezes eu era refratário aos padrões comportamentais da maioria, ou, sempre busquei um sentido para os modismos e costumes, antes de incorporá-los.

Até hoje eu brinco: “Paris talvez seja um dos últimos pontos do mundo que eu vá conhecer. A maioria das pessoas do meu entorno sonha em ir para lá e fazem questão de tirar uma selfie com a Torre Eiffel ao fundo. Quando eu for, vou fingir que estou mijando na mesma! (RISOS)” – de fato, me cansa esse sentido cultural da imitação, seja pela afirmação do glamour, status, conquista ou sabe-se lá o sentido que esse registro tenha no imaginário daqueles que imitam.

Tal maneira de enxergar o mundo coincide exatamente com a forma que entendo a sauna gay hoje, das pessoas se livrarem dos rótulos ao se despirem e todos, seja o estilo, classe, idade e etnia, não codificarem umas as outras pelos mesmos rótulos. Ficar seminu, apenas de toalha e chinelo, nos faz perder essa orientação, o que ao meu ver é uma experiência extraordinária.

Nos últimos anos, ciente dessa minha particularidade de querer me descolar dos mais diversos sentidos autoafirmativos-humanos-gays praticados pela maioria das pessoas, idealizava certo encontro com alguém (com o propósito de um relacionamento mais íntimo) que tivesse algo desse jeito de ser. E sei que isso é muito pessoal e, diante deste próprio filtro, uma busca propositada seria em vão. Uma busca por alguém que estivesse com a individualidade já formada, sem grandes anseios inconscientes de se colar a grupos, instituições ou representantes num puro exercício de autoafirmação e identificação. Alguém que, assim como eu, sempre buscou remar contra a maré dos modismos ou que, pelo menos, se questionasse antes de incorporá-los.

Alguém com uma personalidade que – como exemplo simbólico – não aceitasse atender clientes do ramo do sexo/pornografia, política ou religião, ou, que conseguisse negar tais segmentos, negando o ganho monetário que muitas vezes nos parece irremediável.

Alguém que não se ancorasse na relação para se sentir mais seguro a se aventurar em meios ou meandros onde, se estivesse sozinho, teria receio. Aos 32 anos, me afundei em minha “obscurescência” sem precisar me prender a ninguém. Cresci demais com tais experiências.

De fato eu não sabia, até então, que eu estava procurando por uma pessoa com essas características. Eu sabia o que eu não queria. Hoje eu enxergo tudo isso e afirmo que são essas partes de mim que desejo em outra pessoa.

14 comentários Adicione o seu

  1. Jorge Zaiba disse:

    Legal o seu post. Como sempre me faz pensar em minha vida (rs… minhavidagay). Acontece que assumi minha sexualidade meio tarde, portanto não passei pela experiência que descreve. Nunca fui guia ou referência de alguém; muito pelo contrário, hoje sou eu quem busca referências; mas noto que, por ser mais adulto, sou abordado por rapazes mais jovens, talvez buscando esse abre alas do meio. Função que definitivamente não sei se posso exercer.

    1. minhavidagay disse:

      Sexualmente talvez não, Jorge. Mas os outros aspectos com certeza!

      1. Jorge Zaiba disse:

        Obrigado pela resposta. Ainda mais uma que se aproxima tanto de um elogio. Nesta minha busca por referências o blog têm sido muito importante para mim. E esse retorno atencioso faz a experiência muito mais gratificante e pessoal… sob medida.

      2. minhavidagay disse:

        De nada, querido!

  2. Igor disse:

    É isso mesmo! Os referenciais da corte amorosa, milenares para os héteros, nunca puderam ser bem exercidos por nós, gays. E ainda reclamam quando pulamos direto para o sexo, sem a paquera, o flerte antes! Rsrsrs Michel Foucault comentou, comparando poesia amorosa de héteros e de homossexuais, que os últimos não costumam escrever versos louvando a ansiedade e expectativa pelo ato amoroso, como os héteros, mas sim relembrando o ato sexual já praticado.
    A propósito, de certa forma estou gostando de viver uma experiência de corte amorosa, já que me considero meio romântico. Rs Enviei um e-mail a você quanto a isso, você me respondeu, e eu já respondi novamente, porque algo muito importante aconteceu! Se puder me rerrerresponder, agradeceria muito! ;) Como um gay de 22 anos que resolveu entrar no meio faz apenas uns 3 meses, careço ainda de muitos referenciais, e ninguém melhor do que você, MVG!

    1. minhavidagay disse:

      Respondido, ansioso Igor rs rs rs

  3. Rothuzs disse:

    Mas não faz parte da vida encontrar aqueles que nos trazem aquele sentimento de pertencimento? E por muitas vezes até inconscientemente queremos parecer mais com alguém que admiramos.
    Sobre o tão esperado alguém para casar, me questiono o que e como esta pessoa teria que ser. Após passar por três relacionamentos de quase três anos cada um, me pergunto se não cheguei em uma maldição cabalística e não encontrarei mais ninguém, ao mesmo tempo que estou tão tranquilo comigo mesmo que quase estou me bastando.
    O que me resta é a dúvida: por que somos ensinados a querer alguém para um relacionamento monogâmico? isto parece-me meio cruel às vezes.

    1. Jorge disse:

      Rothuzs, se faz parte da vida ou se fomos ensinados eu não sei, mas acredito que para ter alguém que nos dê a sensação de pertencermos ao outro e que o outro nos pertence, devemos pagar o preço de ser monogâmicos. Mas, se está tão tranquilo consigo, se se basta, qual a vantagem de pertencer à alguém. Questão complicada!

      1. minhavidagay disse:

        Eu discordo de um excesso cultural do sentido de pertecimento. Somos seres individuais e únicos que, sim, podemos encontrar parte de nós espelhada numa outra pessoa.

        Mas ao meu ver, isso não tem a ver, nem conexão com o sentido de pertencimento ou posse. Posse tem muito da maneira que uma pessoa entende relacionamento e, isso sim, costuma ter um alto teor cultural e/ou de personalidade. Encontrar parte de si no outro é um ato raro de afinidade e identificação, mas não define um modelo de relacionamento, seja monogâmico ou aberto.

        Somos duas metades de uma laranja para nos completar ou dois indivíduos inteiros que concordamos em caminhar lado-a-lado? Faz tempo que eu acredito na segunda.

      2. Rothuzs disse:

        Por partes… Acredito que tudo seja fruto de um convívio social. Por mais que eu tenha aprendido com os resquícios de outra pessoa, precisei da outra pessoa para aprender. Minha visão laica das coisas só aprofunda e abrange este conhecimento. E deixo claro que não cheguei a esta conclusão sozinho, peguei partes do que entendei de vários pensadores que existiram ao longo da história da humanidade.

      3. Jorge disse:

        Rothuzs e Flávio, legal essa conversa! Apesar da polêmica todo mundo está dando a sua opinião, ensinando e aprendendo. Então vai lá, mais um ponto de vista sobre a monogamia: Ela é um trato. Um acordo entre duas pessoas, um promete ao outro que vai estar ao lado em qualquer situação e em qualquer tempo e espera receber o mesmo tipo de consideração. É sim social e sim aprendida. Vale a pena? Não sei, se a pessoa se preocupa em ficar sozinha em algum momento menos favorecido de sua vida, como a velhice por exemplo, vai fundo… e seja sincero e leal com o parceiro. Se não, se a solidão é prazerosa e confortável, então vai fundo também, se prepare para o futuro e seja sincero e leal com os seus parceiros! É isso… abraços…

      4. minhavidagay disse:

        Por isso acredito no termo “monogamia consensual”. O que pode dar espaço para uma relação aberta consensual no futuro. Se as partes sabem lidar com consenso e lealdade, não existe propriamente um “tempo ruim”. Há acordos. No meu ponto de vista, hoje, uma relação pode ser fluida. O que estanca são as normatizações.

    2. minhavidagay disse:

      Oi Rothuzs!
      Mas precisa ser monogâmico para todo sempre? Creio que para início (e uns bons anos a frente, valha a pena pois o casal está se conhecendo e há muito o que descobrir/aprender juntos). Agora, eu não conheço nenhum casal gay (masculino) que esteja quatro anos ou mais e que não abriu a relação.

      1. Rothuzs disse:

        Nunca cheguei aos quatro anos e mesmo antes disto já pensei e desejei muito abrir a relação. Acho que pela imaturidade não cogitei, assim como o relacionamento também terminou. A questão do relacionamento monogâmico que mesmo neste inicio ai citado por você ele existe e é buscado por muitos. Eu mesmo o faço com vistas a outros benefícios além sexo.

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