As versões de mim

De louco todo mundo tem um pouco

Versão 2000/2001 – Aos 23 anos, iniciar a vida fora do armário junto com um primeiro namoro que durou quase dois anos, era um deslumbre. Quando vi pela primeira vez um Gogo Boy na recém inaugurada SoGo no Jardins (balada que nem existe mais hoje) eu fiquei abobalhado (rs). Não imaginava que um homem poderia se exibir daquela forma, ostentando tão belo corpo, rosto e volume (rs). Tudo era radiante fora do meu “quarto dos fundos da casa dos meus pais”, onde eu reservava centenas de CD’s de meus artistas preferidos, fitas de VHS e meu desktop com internet discada. O Allegro era um bar/restaurante incrível e colorido e eu passava a compreender com nitidez o significado do arco-íris naquele contexto. Enquanto um amigo vivia as sombras do autopreconceito por ser gay, num discurso “se eu pudesse mudar e ser hétero eu faria”, eu estava engatando a segunda ou terceira marcha junto com meu namorado e aproveitando cada instante daquela fase. Confesso que, mesmo namorando, ficava vidrado em um dos garçons do Allegro. Meu ex até desconfiava, mas não era diferente em relação a um outro alguém.

Aliás, era uma época em que, tanto eu quanto ele, olhávamos para todo mundo e fazíamos nossos comentários, não somente pela atração física, mas para um puro exercício de reconhecimento; de identidade e identificação com outros semelhantes.

Conheci a Dungeon da SoGo que, na realidade, era o local de pegação, dark room e glory hole do estabelecimento. Conheci com meu primeiro namorado, e forrados (ainda) de ingenuidade e desconhecimento, entramos naquele local ainda vazio, nos trancamos em um dos “quartos”, transamos por lá mesmo e, ao sair, nos deparamos com centenas de homens na busca de uma pegação semelhante ao que acabávamos de realizar, só que com um ou mais desconhecidos.

Versão 2002 – Aos 25 anos, o meu barato era pegar estrada todas sextas-feiras e era meu gostinho por viagens que se iniciava. Encontrar meu segundo namorado em Hortolândia para passarmos bons momentos na casa de interior dos meus pais, cozinhar e, sempre que possível, encher a casa com amigos era um dos baratos. Tentamos ir para algumas baladas gays em Campinas, que a época eram bem badaladas, mas meu ex tinha certo pavor pelas mesmas. Pavor que hoje entendo: era a fantasia por parte dele repleta de sexismo a qual, em partes, não deixa de ser verdade.

Versão 2003 – Dos 25 para os 26 anos eu casei. Sem querer, vivi uma relação gay (altamente) heteronormativa. Nos fechamos à relação, nos privamos de algumas amizades gays e por quase 3 anos meu olhar estava para o trabalho e para meu marido. Foi um casamento de muita intensidade, altos e baixos constantes e para sustentar um aluguel, uma empresa sozinho (meu sócio tinha acabado de partir para o Japão) e o maridão que não se fixava bem em nenhum emprego, foi um período de bastante sacrifícios e corte de custos. Foi principalmente nesta época que eu compreendia que, por mais que eu quisesse fazer alguma viagem ou comprar algo, eu precisaria de dinheiro. O sentido de prioridades havia mudado.

A primeira vez que fui numa Parada LGBTT foi nessa época. Foi quando um dos amigos do meu ex-marido deu em cima de mim e a diversão do momento virou certo caos (rs).

Versão 2006 – Aos 29, eu vivi novamente uma paixão semelhante ao primeiro namoro. Mas foi regado de desencontros: no começo, o Pedra ainda idealizava seu namorado anterior e eu já queria algo mais sério. Joguei as cartas na mesa e ele recusou. Então eu preferi somente a amizade e ele topou, embora todas as sextas ele quisesse passar em casa pra fazer uma janta. Nesse período, com mais grana, continuei com as minhas viagens “naturebas”. Praias, cidades remotas em Minas Gerais e foi em uma dessas jornadas que o “jogo” entre eu e o Pedra virou: ele se encantou e eu estava apenas “curtindo”. Naquele tempo, eu andava saindo com mais outros dois meninos. Ele era o terceiro. Numa conversa no Bar da Dida, logo depois da viagem, eu deixei a entender a ele que não queria levar a frente o “namoro” que começara na jornada-praia. Ele ficou meio atônito. Entramos no meu carro e quando eu já estava saindo, ele puxou o freio de mão, desligou e transamos lá mesmo. No meio da rua (rs).

Versão 2008 – Dos 31 aos 32 anos vivi uma “pausa” de um ano. Não namorei ninguém, mas flertei com um lado meu cheio de desejos e fantasias. Saia de quarta a domingo, gastei um dinheiro a perder de vista e virei umas das figurinhas carimbadas da noite que conseguia ser VIP com certa facilidade. Eu me aproximava do balcão do bar do Sonique e dois dos bartenders já sabiam quais bebidas me servir. Não tinha choro, mas dose dupla. Fiquei com pouca gente nesse tempo, mas convivi com muitos, conheci diversas pessoas sem entrar em intimidades e muitos lugares do “meio”. Meu amigo Tablito me chamava de “ONG” por agrupar, as vezes, pessoas tão distintas num mesm0 local quando eu queria. Diz ele que, no fundo, todos eram a fim de mim e hoje eu sei que, naquele tempo, existia um encanto embora superficial e infantil.

Foi nesse período “infernal” que resolvi experimentar a maioria das drogas que chegavam a mim. Foi nessa época que conheci a sauna 269 que ficava na Bela Cintra e, hoje, se chama Chilli Peppers. Assim, prestes a completar a idade de Cristo, aproveitei uma parte potencializada dentro de mim antes de ser “crucificado” pelos meus pecados. Foram experiências semelhantes a época do meu primeiro namorado, mas de carreira solo dessa vez, na companhia frequente do meu amigo Beto (que faleceu no ano passado e tem alguns posts em sua homenagem por aqui) e com uma intensidade sem tamanho.

Voltei a Parada LGBTT, de “camarote” num apartamento de um amigo na Consolação. Desci algumas vezes para registrar boas fotos e, dessa vez, olhar para aquele evento com um senso mais político.

Versão 2010 – Dos 32 para os 33 conheci o ex Beto, que me proporcionou um namoro de quase 4 anos. Lidamos com sua enorme família tradicional e conservadora, assumimos juntos e, de uma maneira um tanto corajosa, o resultado é que formamos um dos pares mais queridos e aceitos pela família. Dessa relação com o ex Beto aprendi muito sobre a importância de afinidades, companheirismo e propósitos de vida semelhantes. Tais conceitos fazem uma grande diferença para a manutenção da própria relação. A amizade continua hoje e, logo no começo de junho, vamos eu, ele e nossas respectivas mães para o musical do Queen que está rolando aqui em São Paulo.

Com o ex Beto, ampliei minha percepção de viagens. Fomos para Buenos Aires, Santiago, Patagônia Argentina e Nova Iorque.

O ex Beto namora há mais de uma ano e está tudo bem assim. Acho o namorado dele um amor e se eu e meu ex temos ainda algum contato é por pura lealdade. Lealdade que pode durar o tempo que for, sem a necessidade de ser para sempre.

Versão 2014/2015 – Aos 37 convivi com o Japinha por oito meses. Destes, 2 meses presencial e os outros 6 numa expectativa de fazer valer um relacionamento à distância. Ele foi estudar em Chicago. Eu não banquei a distância. Aos 38 pintou o Rafa; 4 meses nos conhecendo e ficando e mais 4 meses de namoro. Depois que formalizamos, o “bebezão” resolveu tomar posse de mim (rs) e a situação ficou complicada. Poderia dizer até destrutiva.

Nestes períodos, entendo hoje que estive ainda num grande balanço depois de quase 4 anos com o ex Beto.

Todo texto aqui foi um breve resumo. Os leitores mais antigos sabem destes contextos com mais detalhes, mas para ter conhecimento na íntegra, só aqueles que me acompanharam por perto por estes tempos. Hoje estou com 39 anos e do acumulado das experiências vividas desde meu primeiro namoro, certa carapaça engrossou, principalmente no sentido de saber como lidar com os momentos difíceis com o outro, com as dores do término, com o meu orgulho e, englobando tudo isso, com o meu ego. O Flávio, lá do comecinho, era tão inseguro quanto qualquer outro garoto de 20 e poucos anos. Tinha dúzias de expectativas e mais uma penca de necessidades para autoafirmar. Entendo hoje que a autoafirmação se fez bastante presente até os 33 anos quando, depois de “crucificado”, aquele mesmo Flavinho que durante uma década ainda era bastante imaturo, impulsivo e inconsequente, ressignificou muito de seus valores e propósitos para alcançar o homem que se tornou hoje.

Esses foram meus caminhos que – na intersecção entre personalidade e escolhas – formam a pessoa que sou no presente momento. Existia uma evidente inquietação e curiosidade que cederam espaço para uma tranquilidade. Claro que continuo ariano, filho de Ogum e serpente no horóscopo Chinês, mas com uma certa maturidade depois de ter me atirado tanto. E ter sobrevivido! (RISOS). “Morri” em sete relacionamentos e a gente precisa ser corajoso para se reerguer e retomar uma vontade de querer de novo.

Como vocês bem sabem pelos últimos posts, a vida me trouxe a oportunidade do “novo” Beto que, logo menos, será somente Beto e, embora “namoro” seja apenas um nome e uma formalização a mim, já vivemos algo assim. E o que realmente sinto é a sensação da oportunidade. De uma química ideal por intermédio de uma correspondência mútua. Estar com ele faz sentido desde nossas primeiras conversas. É um encantamento que perfurou toda carapaça do pragmatismo adquirido, embora este me deixe com os pés no chão.

O que eu posso garantir a ele é a minha melhor versão. Se é possível dizer assim, um louco bastante consciente.

 

6 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Trocando algumas figurinhas…

    Serpente, hum, não tenho boas recordações com o pessoal deste signo… Rs.

    O meu signo solar é Leão. Morro de vergonha do meu signo no horóscopo chinês, Carneiro, mas o que compensa tudo é que dois ídolos meus também são, um ainda está por aqui, João Gilberto, o outro já se foi há alguns anos, meu avô paterno.

    Já o orixá eu não sei, depende muito da corrente que segue, dos critérios utilizados pra definir, não é tarefa simples, acho que já passeei por todos os orixás – rs. Tenho que ir na galera dos búzios pra resolver essa pendenga espiritual – rs. O teu Ogum acho que é sincretizado com São Jorge (“Jorge sentou praça, na cavalaria…” – rs).

    Sobre o resumão…

    São poucas palavras pra representar uma riqueza de experiências como esta que foi abordada. Poucas palavras mas que talvez tenham um significado e um peso que vai muito além do mero olhar quantitativo das coisas.

    Engraçado quando fala do ‘Rafa’, sabe, essa carapuça me serve também um pouco, embora, eu não tivesse nenhuma ciência disso antes experimentar um ‘lance’ afetivo com alguém.

    Foi aí realmente que entendi, na prática, o que Platão (como Sócrates) fala do ‘Eros’ (amor, em algumas traduções) no livro O Banquete. O Deus era filho do Recurso e da Pobreza, herdou a nobreza, a opulência do pai, e da mãe o sentimento da falta, da necessidade.

    No meu caso a insegurança e a possessividade, por quê não dizer ciúme, pois é, tudo isso, foi/é uma questão de insegurança, com outras questões como a ausência de certas referências. É aquela coisa de projetar na relação certas carências afetivas mal-resolvidas no passado.

    Não sei se ainda sou assim, se trago esse ranço, mas é muito sofrido. Pra ambas as partes. Por isso a conta não fecha, e dá pra entender que algo muito errado está acontecendo ali. Com a ressalva de poder estar erroneamente generalizando aqui, ou extrapolando uma situação pessoal pra uma outra coisa que pode não ter muita relação.

    Não quero parecer ‘advogado do Diabo’, mas a verdade é que certas coisas, infelizmente, fogem do nosso controle, e só aprendemos com aquilo, vivendo, experienciando. Acho que muito dessas coisas todas funcionam como os últimos versos de uma canção que eu acho simplesmente linda: “Por isso deixo em aberto, meu saldo de sentimentos, sabendo que só o tempo ensina a gente a viver”.

    Abraços,
    Pedro.

    1. minhavidagay disse:

      Perfeito, Pedro… A mim, o Rafa tem um pouco de tudo que você descreveu. Consciente disso, a mim, não deu… e que as vivências, inclusive as perdas, o façam aprender ou não rs

      1. Pedro disse:

        “O inferno é a repetição”. Stephen King.

  2. Igor disse:

    MVG, o modo como você narra suas experiências é sempre revigorante e lúcido! Só peço que continue sempre postando textos no blog.
    A propósito, eu enviei um e-mail para você através da área do “Contato” aqui. Será que você poderia dar uma lida e me responder? Gostaria muito de saber sua opinião…

    1. minhavidagay disse:

      Ok! Lerei, Igor :)
      Obrigado pelos comentários!

  3. Igor disse:

    De nada, MVG! Aliás, já li e já respondi a sua resposta ao meu e-mail, porque hoje aconteceu algo MUITO importante… Veja lá, por favor!

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