As vezes as pessoas não estão prontas

Relacionamento é espelho

Costumo dizer que “relacionamento é espelho” e entendo que para muita gente, depois de vivido alguns e conscientizado, passa a fazer sentido.

O ser humano é um bicho curioso. Por um lado, autoafirmamos a necessidade constante de nos socializar, ter amigos, transbordar amor e empatia e obter o mesmo. Por outro, na hora de se relacionar – quando nossas emoções e sentimentos começam a criar intersecções com as de uma outra pessoa – pintam as inseguranças e, assim, tememos amar. Travamos. Assumimos certas paranoias. Incertezas e medos.

O amor de “carnaval” é fácil. A gente se prepara para o evento, escolhe o melhor figurino e subentende-se a predisposição para o momento. Com uma dose ou outra de bebida, apresentamos o melhor de nós mesmos. A alegria, a vontade de seduzir e ser seduzido, o “encanto” cheio de bom humor e brincadeira e o repetido prazer dos começos.

Carnaval é modo de dizer e pode se referir a uma balada, um boteco ou um encontro por aplicativo. Carnavais desses são superfícies, é o lado da lua que a gente quer mostrar (e se prepara para isso a maioria das vezes). É saudável, pode ser contagiante, agradável e positivo.

Talvez, a grande maioria dos relacionamentos comecem com carnavais. Queremos ser cheirosos, gostosos e legais para a outra pessoa. Vamos “vender” o melhor de nós mesmos sempre ou quase sempre. Neste espelho reflete nada ou quase nada e, assim, a gente pode pular de um bloquinho para o outro, ofertando nosso lado encantador enquanto nos sobrar energia e não virarmos abóbora. E depois, a gente descansa, cura a ressaca e parte – novamente – para uma outra farrinha parecida munindo o personagem de adereços.

Acontece que, por vontade ou incidente, os carnavais da vida nos aproximam de algumas pessoas que nos estimulam ao dia seguinte, ao terceiro, ao quarto e – de repente – assumimos uma vontade de estar perto mais e mais. A naturalidade deste tipo de encontro, do “clique” de algo mais, faz caírem as máscaras aos poucos, os figurinos, os paetês e as lantejoulas. E, assim, não são mais os penduricalhos, nem a predisposição ou as doses de etílicos que serão os artifícios para sustentar aquele personagem da gente. A gente começa, aos poucos, a nos revelar por inteiro e isso assusta, principalmente aos principiantes.

Claro que, todos nós, teremos aqueles 5% de segredos que talvez nem o tempo fará revelar. A ninguém. Mas é natural que o carnaval de passagem à intimidade e, assim, a imagem no espelho começa a tomar forma. Não reflete aquela partícula da gente que configura o personagem do carnaval, que também faz parte da gente. A luz trás no reflexo coisas que, talvez, a gente nem tinha se dado conta antes; vem novidades e – como tudo que é novo – bate a incerteza e a insegurança.

“Por um lado, autoafirmamos a necessidade constante de nos socializar, ter amigos, transbordar amor e empatia e obter o mesmo. Por outro, na hora de se relacionar – quando nossas emoções e sentimentos começam a criar intersecções com as de uma outra pessoa – pintam as inseguranças e, assim, tememos amar. Travamos. Assumimos certas paranoias. Incertezas e medos”.

Por que acontece assim?

Primeiro porque, talvez, relações que nos levam ao encontro de nós mesmos, daquelas partes que a gente não se dava conta que existia, possivelmente sejam relações que valham a pena, mas ao mesmo tempo assustam. É a oportunidade que temos para mudar e ir de encontro com a nossa humanidade, daquela que é ocultada, muitas vezes, pelo nosso personagem de carnaval. Nos sentimos “fracos”, vulneráveis, rendidos a emoções e sentimentos que – até então – não bateram por outra pessoa.

Mas o fato é que não é a outra pessoa. É você, lidando com partes suas que aparentemente não existiam. Pode ser ciúme, necessidade de controle, medo de se sentir “inferior” ou “menos” do que o outro aparentemente é e a gente não quer acreditar que o personagem do carnaval seja assim, rendido. O personagem do carnaval é egoísta e, as vezes, até arrogante! É independente, é feliz sozinho, é bem humorado, é infalível! Tem um punhado de gente desejando o personagem.

E, de repente, aos poucos, a gente vai percebendo que por trás dos excessos e autoafirmações do personagem, existe – de fato – a falta daquilo que ele tenta apresentar. Podemos nos sentir sufocados e, paradoxalmente, necessitados de estar perto daquela pessoa porque ela nos acolhe de uma maneira nova. As vezes, parece até uma conexão inevitável. Perdemos uma sensação de controle, outrora tão nítida.

Aquela pessoa não admira o personagem e parece não responder aos estímulos e bajulações que o tal é tão acostumado a ver e ouvir.

Acontece que o outro quer se envolver com o todo e não com a partícula; não objetiva o clichê. Mas não são assim as verdadeiras entregas? Não são as entregas que ultrapassam as meras convenções? Não são essas relações que nos fazem crescer?

Quem poderia afirmar?

E para onde vai o pedestal? Os holofotes e as dezenas de curtidas? Pra onde vai a sensação de autonomia e liberdade?

As vezes, as pessoas não estão prontas. O carnaval não deve se tornar a “inimiga” daqueles que já transcenderam tais convenções. Olhar para o espelho não é fácil.

É necessário saber a hora de soltar.


 

coach-de-vida-gay

Flávio Yukio Motonaga
www.lifecoachmvg.com.br

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.